28 Junho 2026
"Somos todos um pouco Pedro e um tanto Paulo (olha a responsa de quem tem esses nomes!). Também somos Maria e Marta, Petrias e Paulas - o feminino da condição humana que se afirma e se impõe, contra todas as seculares opressões", escreve Chico Alencar, deputado federal - PSOL-RJ, ao comentar a celebração da festa de São Pedro e São Paulo.
Eis o texto.
Hoje a Igreja Católica e outras denominações históricas celebram Pedro e Paulo, duas figuras centrais nas origens do cristianismo.
Ambos viveram nos primeiros 65 anos do século I. São semelhantes na fé comum, arrebatadora, e na perseguição e martírio sofridos no final de suas vidas - com morte de cruz, o primeiro, e degola, o segundo. Em Roma, quase ao mesmo tempo. O Império de Nero não os suportava.
No mais, diferenças que se complementavam. Pedro foi amigo e discípulo de Jesus. Paulo não o conheceu pessoalmente, mas sua identificação amorosa com Cristo era tanta que afirmou: "Já não sou eu quem vivo, mas Cristo que vive em mim".
Pedro, pescador, era pedra bruta tornada alicerce, fundamento. Que, amedrontado, nega Jesus e depois "chora amargamente". Humaníssimo!
Entre tropeços e profissão de fé no Deus Vivo, Pedro recebe do Cristo a missão de construir uma igreja despojada, sobre a qual "as forças da morte" não prevalecerão (morte é riqueza, poder de mando, falsidade).
Pedro como ponte (daí pontífice) entre o divino e o terreno, o imanente e o transcendente! Daí ser representado sempre com uma chave na mão. São Pedro trocou as redes de pescar pelo ofício de abrir as portas do céu para todos, sem exceção!
Paulo, antes soldado perseguidor de cristãos, converte-se no caminho de Damasco e torna-se persistente animador das primeiras comunidades, com suas treze cartas: daí ser desenhado sempre com um livro na mão. Trocou a espada pela escrita!
Suas epístolas têm a marca do seu tempo patriarcal ("mulheres, sejam obedientes a seus maridos") mas também o espírito revolucionário da crença autêntica: "somos tidos como tristes, mas estamos sempre alegres; pobres, mas enriquecimento a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo!" (2 Cor 6, 10).
Paulo, judeu convertido, mestre e fariseu, conhecedor da filosofia grega - língua que falava e na qual escrevia - levou a fé cristã para além da Palestina. São Paulo propagou!
O admirável papa Francisco (1936-2025) definiu bem os dois fundadores: "Pedro não é um super-homem: é um como cada um ou uma de nós, que, na sua imperfeição, diz 'sim' a Jesus com generosidade". "Em Paulo, a vocação para ser Apóstolo funda-se não nos seus méritos humanos (ele se considera 'último' e 'indigno'), mas na bondade infinita de Deus".
Somos todos um pouco Pedro e um tanto Paulo (olha a responsa de quem tem esses nomes!). Também somos Maria e Marta, Petrias e Paulas - o feminino da condição humana que se afirma e se impõe, contra todas as seculares opressões.
Somos todo/as chamados a poder dizer com Paulo, no fim da estrada (que, à luz da fé, nunca tem fim): "Combati o bom combate, terminei minha jornada, guardei a fé!" (2 Tm 4, 7).
Pela nossa prática de vida, conseguiremos?