De pé. Artigo de Lidia Maggi

Cristo lava os pés de São Pedro. (Foto: Lawrence OP/Flickr)

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27 Junho 2026

"Quem não precisa que seus pés sejam lavados não precisa se sentir acolhido e, por sua vez, provavelmente terá dificuldade em acolher plenamente os outros. Por meio de sua vida, com o pão compartilhado e com a bacia, Jesus nos mostra o rosto de um Deus que nos acolhe em nossa totalidade, abrindo-se para uma relação onde as máscaras não são mais necessárias", escreve Lidia Maggi, pastora batista italiana, em artigo publicado por Mosaico di Pace, junho de 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Pés.
Pés que deixam pegadas.
Pés que caminham.
Pés firmemente plantados no chão.
Pés que anseiam por correr, mas sabem também contentar-se com passos pequenos.
Pés sujos, feridos, cansados...
Pés nus que afundam leves na beira do mar.
Na extremidade do nosso corpo, no limite mais extremo, lá estão eles, os pés.
Paradoxal experiência corporal.

São eles que permitem nos mover, concedendo-nos a liberdade de um corpo livre em movimento; são eles que nos possibilitam andar, explorar, virar e até escapar de situações desagradáveis, afastando-nos a passos rápidos dos perigos. É também por meio dos pés em movimento que podemos ir ao encontro do outro, visitá-lo, nos tornamos próximos.

Também é graças aos pés que se fortalece em nós o princípio da realidade. Quem melhor do que eles pode garantir nos ancorar à natureza concreta da vida, permitindo-nos viver com os pés no chão, para enraizar a nossa fé, a nossa luta, a nossa resistência e toda a existência na terra, no solo, evitando devaneios e fáceis abstrações. "Pensar com os pés": hoje, poderíamos entender isso como um elogio, pois poderia evocar a arte de agir local e globalmente ao mesmo tempo. Um pensamento que está enraizado e, ao mesmo tempo, sabe transcender as fronteiras.

Assim como árvores que caminham! Que dádiva são nossos pés: baixos, humildes, mas mesmo assim capazes de nos conferir uma postura de dignidade, de dar forma a uma vida reerguida, literalmente, posta novamente "de pé"! É precisamente com o corpo ereto que Deus quer se confrontar com , após ter sido chamado em julgamento. Aquele que ousou desafiar o Senhor do universo em nome da justiça não pode permanecer curvado quando Deus entra em cena. O confronto, por mais desigual que seja, deve ocorrer em pé de igualdade: de pé, portanto, ! (Cf. Jó 38,3).

Os pés de Jesus muitas vezes são protagonistas nas narrativas evangélicas. Pés que se movem constantemente pelas estradas poeirentas da Palestina. Pessoas que encontram o Mestre de Nazaré lançam-se aos seus pés, buscando cura e salvação. Os pés de Jesus são lavados, perfumados, beijados e cuidados por mulheres gratas por terem se sentido amadas, reconhecidas e não julgadas.

No entanto, os pés dos discípulos e das discípulas também recebem atenção. Refiro-me especificamente àquela noite, pouco antes de Jesus ser preso e condenado à morte na cruz, durante a Última Ceia, quando os miasmas da traição, dos ultrajes e da morte anunciada já envenenava o ar (cf. João 13,1ss).

Justamente naquela situação, na típica cena em que os pés fogem, a menos que a paralisia os bloqueie de vez; na própria noite da traição, Jesus se levantou de pé, afastou-se da mesa e depôs as suas vestes, assim como mais tarde haveria de depor, aos pés de um mundo cruel, sua própria vida. Então, ele pegou uma bacia e, ajoelhando-se no chão, começou a lavar os pés de seus discípulos. Olhares de espanto e um silêncio repentino naquela liturgia silenciosa, preenchida apenas pelos sons dos gestos de Jesus. O silêncio quebrado pelas palavras de Pedro: “Senhor, tu lavas-me os pés a mim?" e Jesus: “O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois”.

Mas Pedro insiste e suas palavras já não são mais de negação espantada, mas de uma afirmação categórica e absoluta: “Nunca me lavarás os pés”. A resposta de Jesus é igualmente firme: “Se eu não te lavar, não tens parte comigo”.

É nesse embate que percebemos estar em jogo algo muito maior do que um simples gesto pelo qual Jesus ensina seus seguidores a servir uns aos outros. E, mesmo que fosse apenas isso, já teria nos bastado!

Uma Igreja que veste o avental e se curva para lavar os pés de cada irmão e irmã. No entanto, há algo mais aqui, pois, ao lavar os pés dos discípulos, Jesus ousa tocar a parte mais baixa de seus corpos: pés de viandantes, sujos pela poeira do mundo; pés que necessariamente trazem as marcas das adversidades de vidas difíceis. Como não se sentir constrangido em tal situação?

Quem nunca se sentiu desconfortável ao ter que tirar os sapatos em público, preocupado se tudo lá embaixo estava em ordem? Como entendo bem a objeção de Pedro: “Nunca me lavarás os pés!” Pois é difícil mostrar ao outro a própria vulnerabilidade, a própria fragilidade e o nosso lado menos apresentável, com a sujeira da vida ainda grudada em nós. Nós queremos projetar uma imagem limpa e perfeita de nós mesmos, tanto para os de fora quanto para aqueles que nos são mais próximos. E, ao mesmo tempo, exigimos essa mesma retidão dos outros.

Queremos oferecer uma imagem de integridade, mesmo quando estamos desmoronando por dentro, como as rachaduras em nossos calcanhares onde a poeira se acumula.

Jesus nos convida a lavar os pés uns dos outros para nos ensinar a não esconder a parte mais suja de nós mesmos. Uma Igreja que lava os pés e permite que seus próprios pés sejam lavados não é apenas uma Igreja que serve. É, acima de tudo, uma Igreja que acolhe, não demoniza nem julga as vulnerabilidades. É uma Igreja-casa, que nos permite nos mostrarmos assim como realmente somos, sem necessidades de performances.

Quem não precisa que seus pés sejam lavados não precisa se sentir acolhido e, por sua vez, provavelmente terá dificuldade em acolher plenamente os outros. Por meio de sua vida, com o pão compartilhado e com a bacia, Jesus nos mostra o rosto de um Deus que nos acolhe em nossa totalidade, abrindo-se para uma relação onde as máscaras não são mais necessárias.

Deus nos salva justamente porque nos liberta das falsas imagens de perfeição. Aquelas em que aparecemos da cintura para cima, sorridentes, com um olhar impecável e sem um fio de cabelo fora do lugar. Mais que imagens, quase santinhos, que ao mesmo tempo que veiculam uma perfeição impossível, comunicam a violência que exclui o limite, as feridas, os pés. Lavar os pés uns dos outros significa exatamente isto: acolher-se uns aos outros em nossa fragilidade, sem medo do julgamento.

Dar dignidade aos pés significa praticar uma não violência que se torna estilo de vida e não tanto - não só - prática excepcional, protocolo alternativo para os teatros de guerra. É uma não violência que assume para si a sabedoria dos corpos em sua totalidade, da cabeça aos pés, em cada situação que a vida cotidiana nos chama a enfrentar.

Sim, até mesmo nas situações extremas — quando o amigo trai e o inimigo força a porta e ameaça a existência. Jesus sabe que os pés que ele está lavando, aos quais reconhece uma dignidade não prejudicada pela fragilidade, justamente esses pés se moverão em direção contrária à sua.

São pés em fuga, que abandonam o sonho que inicialmente os impulsionara, que renegam a temporada em que figuravam como corajosos e incansáveis. Ele os lava, mas não os retém. Ele os acaricia e os enxuga; não os trata com aspereza. Pronto para andar uma milha a mais com esses amigos que estão prestes a trilhar o caminho da inimizade. Em certo sentido, até mesmo encorajando-os a percorrer aquela estrada que os afastará do Mestre.

Se é isso que pensam, que o façam. Não será isso que o impedirá de amá-los até o fim. E assim, aqueles pés que desde sempre consideramos órgãos secundários subordinados à mente, meros apêndices de um corpo com muito mais a mostrar, ei-los ao centro da cena, enquanto Jesus mostra do que a graça é capaz, aquele amor divino e, portanto, gratuito, que sabe acolher o outro pelo que ele é, com todas as suas imperfeições.

Antes de entregar a si mesmo no ato supremo de doação, de doar a própria vida, Jesus escolheu escrever o seu testamento "pensando com os pés". E quem, como Ele, pretende contrapor à violência da morte a ternura da vida, quem deseja habitar a terra de forma leve, não violenta, deverá começar por aí: ajoelhando-se aos pés de uma humanidade frágil, aliviando as feridas. Tal como acontece todos os dias na "Piazza del Mondo", de Trieste, onde os pés daqueles que percorrem a rota dos Bálcãs, fugindo de situações de morte, encontram mãos que acolhem, curam e ajudam a se reerguer de pé.

Esse é o desafio que Jesus nos deixou: tornar-nos pessoas que habitam a terra recusando-se a entrar no jogo dos lados contrapostos ou da pulsão para julgamentos. Pessoas que voltaram a ficar de pé, pois se sentem amadas por Deus até o fim, até o fundo, até a ponta dos pés.

Oração dos pés cansados

Percorri um longo caminho com estes pés cansados, meu Deus. E eles carregam todas as marcas das minhas lutas. Eu os confinei em calçados desconfortáveis, assim como me confinei em papéis sociais que não me pertenciam. A pele dos meus pés tornou-se calejada, tal como a pele do meu coração. Calejada pelos abandonos e pelas traições, mas também pelos meus próprios erros, que fizeram outros corações sangrar.

Percorri um longo caminho com estes pés cansados, meu Deus. E cheguei aqui, diante de ti. Ao me deixar acolher e sentir a água correr sobre estes pés tão vividos, sinto-os cantar, gratos por essa vida, pelo teu amor e pelo teu perdão.

Amém.

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