24 Junho 2026
"Em determinadas circunstâncias, um abraço sincero, uma escuta atenta ou um gesto autêntico de caridade cristã podem aproximar alguém de Deus mais do que a mais bem elaborada explicação teológica", escreve Christian Stähler Padilha, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, auxiliar de cataquese e estagiário do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
Quando pensamos em Deus, costumamos associar a Ele características como a onipotência, a onipresença e a onisciência. Entretanto, ao afirmarmos que Ele é infinitamente bom, surge uma questão que atravessa séculos e desafia crentes e ateus: se Deus é perfeitamente justo e benevolente, por que permite a existência do mal e do inferno?
Por que tantas pessoas inocentes são assassinadas em guerras, morrem de fome ou são abusadas justamente por aqueles que deveriam protegê-las, enquanto muitos daqueles que praticam o mal parecem intocáveis pela justiça mundana? Como conciliar a existência de um Deus amoroso com as tragédias, injustiças e sofrimentos que marcam a história da humanidade? Por vezes, as respostas dadas pela Igreja e pelas Sagradas Escrituras podem não ser suficientes para acalmar um coração cicatrizado que busca compreender essa questão.
O problema do mal e o ateísmo
Nos últimos tempos, tornou-se popular um formato de debate online em que pessoas com visões de mundo opostas confrontam suas ideias diante de uma audiência. Vídeos com títulos como “1 católico contra 20 protestantes”, “1 padre vs. 20 ateus” e até mesmo situações cômicas como famosos debatendo com seus críticos acumulam milhões de visualizações no YouTube.
Um exemplo que chamou a minha atenção foi um debate em que um sacerdote católico era confrontado por ateus. As razões para a descrença eram variadas: alguns mencionavam barbaridades cometidas em nome de Deus pela Igreja, a imposição forçada do cristianismo, enquanto outros buscavam encontrar supostas contradições na Bíblia ou até mesmo argumentar logicamente contra a existência de um Ser infinitamente bom.
Entretanto, uma pergunta em especial destacou-se das demais. Em determinado momento, um senhor de idade sentou-se em frente ao sacerdote e questionou: "Por que o seu Deus não impediu que eu fosse violentado por meus familiares?"
Nos comentários, notou-se que algumas pessoas, em vez de praticarem a caridade cristã e colocarem aquele senhor em suas intenções de oração, fizeram justamente o contrário: atacaram sua pessoa e até mesmo sua idade. Alguns demonstraram estranheza diante do fato de uma pessoa mais velha ser ateia, como se décadas de vida necessariamente conduzissem alguém à fé, por ter estado mais tempo exposto àquilo que nós, católicos, chamamos de Verdade.
Tais reações levantam uma questão importante: até que ponto o mau exemplo daqueles que dizem seguir a Deus pode contribuir para a descrença? Afinal, quando alguém que já carrega feridas profundas encontra julgamento onde esperava compaixão, sua visão sobre a religião dificilmente se torna mais positiva.
Consequências de falhas graves de pessoas de fé
Embora o problema do mal costume ser discutido em termos filosóficos, muitas vezes ele se manifesta de forma concreta nas falhas daqueles que deveriam agir como ensinado por Deus.
Nesse sentido, nem todo afastamento ou rejeição da fé nasce de uma reflexão filosófica sobre a existência do mal. Em muitos casos, a descrença surge de experiências concretas com pessoas que se diziam cristã. Ora, como um padre, que atua na pessoa de Cristo durante a Santa Missa, pode ser capaz de cometer um ato tão grotesco como um abuso sexual contra aquele ou aquela que estava buscando a chama de Deus em sua vida?
O próprio Catecismo da Igreja Católica reconhece essa realidade. Em seu parágrafo 29, afirma que o mau exemplo dos crentes, a ignorância ou a indiferença religiosa, as preocupações excessivas com o mundo e as riquezas, bem como determinadas correntes de pensamento hostis à religião, podem afastar o homem da relação íntima que o une a Deus.
Assim, quando um líder religioso abusa de sua autoridade, quando um pregador utiliza a Palavra para humilhar o próximo ou quando uma instituição falha gravemente em sua missão, o dano causado ultrapassa a esfera individual. Para muitos, a imagem do cristianismo passa a ser associada justamente a esses erros, mesmo quando reconhecem em Jesus uma figura essencialmente boa.
As próprias Escrituras alertam para a responsabilidade daqueles que ensinam e exercem influência sobre os demais. Na Epístola de Tiago, lemos que os mestres serão julgados com maior rigor, pois suas palavras e ações possuem o poder de edificar ou destruir vidas. Todavia, o texto reconhece que somos todos falhos.
“Meus irmãos, não haja muitos entre vós a se arvorar em mestres; sabeis que seremos julgados mais severamente, porque todos nós caímos em muitos pontos. Se alguém não cair por palavra, este é um homem perfeito, capaz de refrear todo o seu corpo. Quando pomos o freio na boca dos cavalos, para que nos obedeçam, governamos também todo o seu corpo. Vede também os navios: por grandes que sejam e embora agitados por ventos impetuosos, são governados com um pequeno leme à vontade do piloto. Assim também a língua é um pequeno membro, mas pode gloriar-se de grandes coisas. Considerai como uma pequena chama pode incendiar uma grande floresta! Também a língua é um fogo, um mundo de iniquidade. A língua está entre os nossos membros e contamina todo o corpo; e sendo inflamada pelo inferno, incendeia o curso da nossa vida" – (Tg 3,1-12).
Não é difícil compreender, portanto, por que algumas pessoas desenvolvem uma profunda rejeição à religião após testemunharem ou sofrerem graves injustiças praticadas por aqueles que deveriam representar o amor de Deus.
Por que amamos a Deus?
Nem toda relação com Deus nasce da mesma motivação. Embora a fé cristã tenha como horizonte o amor genuíno ao Criador, o caminho até esse ideal costuma ser gradual.
Em sua obra Sobre o Amor a Deus, São Bernardo de Claraval — abade francês e Doutor da Igreja — descreve quatro graus de amor. Nos dois primeiros estágios, o ser humano tende a buscar Deus principalmente por necessidade própria. Reconhecendo suas limitações, passa a recorrer ao Senhor em busca de auxílio, proteção e salvação.
Contudo, aqui Deus ainda não é amado plenamente por quem Ele é, mas, principalmente, pelos benefícios que pode conceder. O amor encontra-se misturado ao interesse, ao desejo de recompensa ou mesmo ao temor da condenação.
O terceiro grau, por sua vez, é alcançado por meio da oração, da contemplação e da vida espiritual. Aos poucos, a pessoa passa a reconhecer a bondade divina e a amá-Lo não apenas pelos dons recebidos, mas por Sua própria natureza.
Por fim, o quarto grau permite que o ser humano esqueça de si mesmo, tornando-se capaz de amar a si e aos outros dentro da vontade e do amor de Deus. Trata-se da representação mais elevada do mandamento da caridade: amar o Senhor sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
A razão de crermos
Se, de um lado, as experiências pessoais podem contribuir para a descrença, de outro lado, também podem desempenhar papel importante no caminho inverso.
Do mesmo modo que nem toda descrença é fruto de estudos aprofundados, a conversão nem sempre ocorre por meio de argumentos intelectuais. Embora existam crentes que se aproximem da fé após longas pesquisas filosóficas e teológicas, essa não é a realidade de muitos indivíduos. Seja qual for o caminho percorrido, porém, Santo Agostinho afirmava que o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. Sob essa perspectiva, os mais diversos anseios humanos — pela verdade, pela felicidade, pelo amor ou pelo sentido da vida — apontam, em última instância, para uma busca que encontra sua plenitude em Deus.
É importante destacar que, para nós católicos, a fé é recebida por meio da Igreja e transmitida ao longo dos séculos. Ao rezarmos o Credo, reafirmamos nossa pertença ao Corpo de Cristo e à Igreja visível fundada por Ele. Ao longo da história, a Revelação divina, a Sagrada tradição, a reflexão teológica dos Santos e Doutores da Igreja e a ação do Espírito Santo contribuem para que a fé esteja em harmonia com a razão.
Os caminhos que conduzem à fé
A psicologia reconhece que nossas convicções não são formadas apenas pela razão. Experiências pessoais, vínculos afetivos, traumas, esperanças e a comunidade em que vivemos exercem profunda influência sobre a forma como enxergamos o mundo. Com a religião não é diferente.
O psicólogo social Jonathan Haidt utiliza a metáfora de um elefante e um cavaleiro para explicar o funcionamento da mente humana. O elefante representa nossas emoções, intuições e impulsos, enquanto o cavaleiro simboliza a razão. Em muitos casos, nossas intuições chegam primeiro, e somente depois buscamos explicações racionais para aquilo que sentimos ou acreditamos
Isso pode ser observado, por exemplo, quando uma criança se encanta com a beleza de uma igreja, com os cânticos ou com o testemunho de uma pessoa de fé, antes mesmo de compreender os fundamentos teológicos do cristianismo. Da mesma forma, uma experiência marcante de sofrimento, gratidão ou esperança pode levar alguém a se aproximar de Deus antes mesmo de formular argumentos filosóficos ou teológicos para a existência de um Ser supremo.
Essa percepção de que acontecimentos difíceis podem aproximar alguém de Deus não é estranha à tradição cristã. São Pio de Pietrelcina, por exemplo, é frequentemente associado à seguinte frase: "Bendita seja a crise que te faz crescer, a queda que te faz olhar para o céu, o problema que te faz buscar a Deus".
Ou seja, seguir a Deus não significa que a fé cristã prometa uma vida livre de sofrimentos ou dificuldades. Pelo contrário, o próprio Evangelho reconhece que seguir a Deus nem sempre traz benefícios terrenos. Cristo convida seus discípulos a tomar a própria cruz e afirma que bem-aventurados serão aqueles que forem injuriados e perseguidos por causa de Seu nome.
Não por acaso, os próprios apóstolos enfrentaram perseguições, prisões, torturas e, em muitos casos, o martírio. Nem mesmo aqueles que caminharam ao lado de Cristo foram poupados do sofrimento. A dor deles, porém, não se compara à alegria da comunhão eterna com o Senhor.
Deus precisa nos obedecer? Sobre a vontade divina
Por trás dessa expectativa existe uma questão mais profunda: Deus deve agir de acordo com a nossa vontade ou devemos buscar compreender a vontade d’Ele? Afinal, se Deus é verdadeiramente soberano e respeita a liberdade humana, sua função não é obedecer aos homens, mas conduzi-los ao bem, ainda que esse caminho nem sempre seja plenamente compreendido por nós.
Tanto para Santo Agostinho quanto para São Tomás de Aquino, o mal não é algo que existe por si só, mas a ausência ou privação de um bem que deveria existir. Isso não significa que seja fácil aceitar o sofrimento, especialmente quando ele nos atinge de forma profunda. Quem perde um ente-querido ou enfrenta uma doença grave nem sempre encontrará consolo em explicações puramente filosóficas.
Ainda assim, a tradição ensina que Deus pode fazer brotar algo de bom até mesmo das situações mais dolorosas. Nem sempre somos capazes de enxergar isso no momento da dor, e muitas vezes talvez só o compreendamos anos depois ou sequer nesta vida.
Olhemos para a crucificação de Cristo, o sacrifício perfeito. Mesmo para aqueles que não o reconhecem como Deus, sua morte pode ser vista como uma profunda injustiça. No entanto, segundo a nossa fé cristã, foi justamente por meio daquele sofrimento que veio a redenção da humanidade.
Há também quem argumente que acreditaria em Deus apenas se pudesse vê-Lo de forma direta e inequívoca. No entanto, a tradição sustenta que a relação entre Deus e o homem não se fundamenta apenas na evidência visível, mas também na confiança e na liberdade da fé. Não por acaso, Cristo declara bem-aventurados aqueles que não viram e, ainda assim, creram.
Para nós, católicos, contudo, Deus não está ausente do mundo. Cremos que Ele continua presente e atuante na história humana e, de modo especial, na Eucaristia. Em cada Santa Missa, por meio da ação do Espírito Santo, o pão e o vinho tornam-se verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Cristo, segundo a doutrina da transubstanciação.
Condição do homem
A tradição católica não ensina apenas que o homem possui liberdade para escolher entre o bem e o mal. Ela também reconhece que, após a Queda, a natureza humana passou a experimentar uma inclinação desordenada para determinados prazeres e interesses, fenômeno conhecido como concupiscência.
Em sua obra sobre o assunto “Tratado da Conscupiência”, Jacques-Bénigne Bossuet descreve como o ser humano frequentemente se deixa conduzir pelo amor excessivo a si mesmo, aos bens materiais e às satisfações imediatas. Ao tratar especificamente da concupiscência da carne, o teólogo francês afirma que o corpo tende a enfraquecer os pensamentos mais elevados e a prender o homem às realidades terrenas, quando sua vocação última é voltar-se para Deus.
Nas Escrituras, encontramos uma reflexão semelhante. Em Eclesiástico, lemos: "Pesado jugo carrega sobre os filhos de Adão, desde o dia em que saem do ventre de sua mãe até o dia em que voltam ao seio da mãe comum de todos".
Além disso, no Livro da Sabedoria, tradicionalmente atribuído a Salomão, lemos que "tímidos são os nossos pensamentos e incertas as nossas concepções", pois o corpo corruptível torna pesada a alma. Em outras palavras, o sofrimento, as limitações e as fragilidades da condição humana podem dificultar nossa busca pela espiritualidade e pela paz interior.
Por essa razão, a experiência do mal não é algo restrito aos descrentes ou aos pecadores mais evidentes. Ela alcança toda a humanidade, ainda que de formas e intensidades distintas, colocando à prova tanto a fé dos crentes quanto as convicções daqueles que não creem.
Qual é a resposta da Igreja Católica para o problema do mal?
Criada à imagem e semelhança de Deus, a humanidade original era boa, justa e inocente, segundo as Sagradas Escrituras. Não havia mal, morte e nem vergonha. Curiosamente, o próprio relato do Gênesis afirma que Adão e Eva estavam nus e não se envergonhavam. Somente após a Queda perceberam sua nudez e passaram a escondê-la.
Desde o início, o homem possuía livre-arbítrio. Em outros termos, havia já a possibilidade real de desobedecer a Deus. Não à toa, o Senhor advertiu Adão e Eva para que não comessem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ora, por que os advertiria se eles não tivessem essa possibilidade efetivamente?
A Igreja Católica, que ao longo da história buscou responder a diversas controvérsias teológicas, ensina, por meio de seu Magistério, que Deus não é o autor do mal. Ele o permite temporariamente em razão da liberdade concedida às suas criaturas. Essa compreensão está em sintonia com a reflexão dos Doutores da Igreja aqui citados, para os quais Deus é capaz de extrair um bem até mesmo das situações mais dolorosas.
Entretanto, como mencionado acima, os ateus que estudam o cristianismo em profundidade provavelmente já conhecem de cor a questão do livre-arbítrio, e tais conclusões lhes parecem insuficientes. A ferida emocional é, em grande parte das vezes, muito profunda. Por isso, em determinadas circunstâncias, um abraço sincero, uma escuta atenta ou um gesto autêntico de caridade cristã podem aproximar alguém de Deus mais do que a mais bem elaborada explicação teológica.
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