A guerra sem testemunhas que devora Gaza e a Cisjordânia. Artigo de Anna Foa

Foto: ONU

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23 Junho 2026

"Quando terminará essa enorme retaliação, que atinge toda uma população, para vingar o horrendo atentado de 7 de outubro? Ou, melhor, para usá-lo descaradamente para alcançar o projeto político do 'Grande Israel'?", escreve Anna Foa, historiadora, escritora, intelectual da religião judaica, em artigo publicado por La Stampa, 22-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

Esquecemo-nos de Gaza e estamos nos esquecendo do Líbano, nos mesmos instantes em que o exército israelense o ataca cada vez mais duramente. Não são mais precisos anos ou meses para esquecer, para relegar a segundo plano, para fazer desaparecer na indiferença as maiores tragédias. Lembramo-nos delas apenas por um instante, e quando a televisão se apaga sobre as imagens de morte e destruição, elas deixam de ser reais.

Mas, no entanto, não foram interrompidas as destruições, o sangue continua a ser derramado. No Líbano, apesar da gangorra entre tréguas e retomadas de conflitos, mais de três mil libaneses morreram desde o início das hostilidades, muitos deles civis, muitos deles crianças. Há dois dias, uma família inteira, com duas crianças pequenas, foi morta.

Também foi atingida pelo fogo israelense a ambientalista Mona Khalil, de quase oitenta anos, que por anos tratou das tartarugas marinhas. Mais uma terrorista? Assim como em Gaza, o exército anuncia, embora nem sempre, que vai bombardear e ordena a evacuação com pouquíssimo aviso prévio. É isso que também alguns aqui entre nós definem como a prova de que o governo israelense não tem intenção genocida.

Na última retomada dos bombardeios, após o assassinato de quatro soldados israelenses pelo Hezbollah dois dias atrás, o Ministro da Defesa Katz declarou que cada lágrima derramada por uma mãe israelense será paga com as lágrimas de mil mães libanesas. Tão pouco valem suas lágrimas em comparação com aquelas das mães judias? Todo o Líbano vai queimar, acrescentou.

Enquanto isso, nas cidades de lona de Gaza, com cerca de 80% das casas destruídas, as pessoas continuam morrendo. O cessar-fogo de outubro de 2025 não interrompeu os bombardeios, apenas os reduziu, assim como não permitiu a entrada de parte dos suprimentos na Faixa de Gaza para aliviar a fome de seus habitantes.

Quase mil palestinos morreram sob bombas israelenses desde outubro, e mais de 3.000 ficaram feridos, segundo a revista de oposição israelense-palestina +972 Magazine, que cita fontes oficiais palestinas. Nas últimas semanas, a grave escassez de água piorou a situação. Isso significa epidemias, em um contexto desprovido de instalações sanitárias.

A bela entrevista de Francesca Mannocchi com Muhammad al-Zaqzouq, poeta e escritor de Khan Younis, publicada recentemente neste jornal, revela não apenas a situação concreta em Gaza, em meio a contínuos deslocamentos de uma cidade de lona para outra, mas também o desespero de seus habitantes, sua percepção do desastre que os atingiu.

A entrevista revela a consciência, verdadeira ou não, de que Gaza jamais poderá se reerguer. O que acontecerá quando essa consciência se transformar no desespero concreto de todos? No Líbano, ao qual os ministros de Netanyahu gostariam de reservar o destino de Gaza, a situação ainda está longe de ser aquela da Faixa. Mas por quanto tempo, se esse massacre não acabar?

Os bombardeios no Líbano, acompanhados pela expansão das zonas ocupadas e pelo deslocamento forçado dos habitantes (de 800 mil a um milhão, segundo estimativas da ONU), tornaram-se o meio pelo qual Netanyahu tentar interromper as negociações diplomáticas entre os EUA e o Irã: o Irã denuncia a violação dos acordos e fecha o Estreito de Ormuz, Trump impõe novas tréguas, imediatamente violadas. Mas o custo em termos de vidas humanas é extremamente alto. E ninguém no mundo parece se importar.

Mas há outra frente que também é ignorada: a da Cisjordânia ocupada. E não apenas por causa das contínuas agressões de colonos e exército. Há também o problema dos 150 mil trabalhadores que se deslocavam diariamente dos territórios ocupados para trabalhar em Israel antes de 7 de outubro. Muitos desses trabalhadores que ficaram desempregados tentam passar ilegalmente por cima do muro.

Antes de 7 de outubro — de fato, já havia restrições e proibições mesmo antes— a maioria deles era presa. Agora o exército atira, e o número de pessoas que morrem por ir ilegalmente ganhar o pão aumenta a cada dia. O ministro Ben Gvir declarou que se trata de um excelente resultado.

Quando terminará essa enorme retaliação, que atinge toda uma população, para vingar o horrendo atentado de 7 de outubro? Ou, melhor, para usá-lo descaradamente para alcançar o projeto político do "Grande Israel"?

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