Trump promove uma reformulação na OEA com uma purga diplomática que coloca em dúvida o futuro da organização

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23 Junho 2026

Na manhã de segunda-feira, no Centro de Convenções Atlapa, na Cidade do Panamá, os participantes da 56ª Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) discutiam, em tom baixo, mas com grande interesse, o mesmo assunto: uma reportagem da Reuters. A agência de notícias revelou que vários diplomatas americanos de alto escalão junto à organização haviam se demitido ou sido demitidos nos últimos meses em meio a desentendimentos com Leandro Rizzuto Jr., embaixador do presidente Donald Trump no fórum hemisférico.

A informação é de Wilfredo Miranda Aburto, publicada por El País, 23-06-2026

Segundo a publicação, entre os que deixaram a organização estão o vice-chefe da missão, o chefe de gabinete, um assessor político sênior e pelo menos um outro diplomata. Na prática, quase toda a equipe sênior da missão dos EUA junto à OEA ficou sem liderança. Embora essas possam ser consideradas medidas diplomáticas de um único país, a decisão abala a OEA profundamente, pois expõe o estado atual da organização: uma tripla crise de financiamento, governança e liderança.

Rizzuto, amigo pessoal do presidente Trump, disse à Reuters que busca mudar o foco da OEA, particularmente desviando-o dos direitos humanos e da democracia para questões econômicas. Essa visão contrasta fortemente com o papel histórico da organização, influente no passado, mas hoje prejudicada por sua ineficácia política diante de regimes autoritários como Cuba, Nicarágua e Venezuela.

Fontes próximas à OEA explicaram que o primeiro passo na crise da organização é financeiro. Embora Washington continue sendo o principal financiador, o governo Trump colocou esse apoio em revisão. Para 2026, a contribuição dos EUA para o Fundo Regular é de cerca de US$ 28 milhões, o equivalente a 30% das contribuições dos Estados-membros. No entanto, a Casa Branca tem pressionado por cortes na ajuda externa e em organizações multilaterais, e sua proposta orçamentária para 2027 aprofunda essa tendência, alimentando a incerteza sobre o futuro financeiro da organização hemisférica.

Nesse contexto, ressurge um antigo debate sobre poder dentro da organização hemisférica: o principal financiador tem apenas um voto na OEA, assim como qualquer outro Estado-membro. Essa tensão tem sido explorada por analistas conservadores dos EUA, que veem a crise atual não apenas como uma disputa administrativa ou de liderança, mas também como um problema de representação política. Segundo essa interpretação, Washington controla grande parte das operações da OEA, enquanto blocos regionais menores, especialmente os países caribenhos, podem influenciar decisivamente o equilíbrio interno de poder e a eleição de seus líderes.

Em segundo lugar, a OEA atravessa uma crise de governança devido a disputas sobre prestação de contas e gestão interna. Em Washington, também há inquietação em relação à gestão do novo Secretário-Geral, Albert Ramdín, que substituiu o uruguaio Luis Almagro. Os críticos de sua liderança denunciaram supostas irregularidades administrativas, contratos questionáveis e falta de prestação de contas interna.

Ramdin não foi considerado culpado de corrupção por nenhum órgão competente, mas as acusações alimentaram um clima de desconfiança entre setores em Washington e a nova liderança da OEA. No entanto, existem fatores que colocam Ramdin em uma posição difícil. Xaviera Jessurun, sua chefe de gabinete e uma de suas colaboradoras mais próximas, renunciou em meio a acusações de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro no Suriname. Sua saída ocorreu depois que os Estados Unidos revogaram seu visto diplomático, um episódio que exacerbou ainda mais as tensões entre Washington e a nova administração da organização.

Diante desse impulso, a outra crise que a OEA enfrenta diz respeito ao seu futuro. Autoridades do governo republicano questionaram publicamente a relevância da organização e destacaram a necessidade de reformas profundas para justificar a continuidade do apoio financeiro dos EUA. “Nesse contexto, as disputas internas da organização, as críticas à sua liderança e o debate sobre sua missão ganham uma dimensão maior… fazem parte de uma discussão mais ampla sobre o futuro do multilateralismo em uma era de crescente competição geopolítica”, afirma uma das fontes consultadas por este jornal.

O caso da Nicarágua

Uma das principais críticas à OEA tem sido sua incapacidade de exercer maior pressão sobre as ditaduras na região, e poucos casos ilustram melhor esse debate do que o do regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo. Embora o regime copresidencial tenha formalizado sua saída da organização em 2023, o caso permanece central para o sistema interamericano e se tornou, para muitos analistas, um teste da própria relevância da OEA como fórum de defesa da democracia e dos direitos humanos.

Na Cidade do Panamá, enquanto a Assembleia Geral está em andamento, um projeto de resolução sobre a Nicarágua já circula entre os Estados-membros. O documento mantém uma posição firme em relação aos direitos humanos e reitera alegações de possíveis crimes contra a humanidade, pede a libertação de presos políticos, exige uma investigação sobre a morte do líder indígena Brooklyn Rivera sob custódia do Estado, alerta para a repressão transnacional e pede a restauração da nacionalidade daqueles que foram privados de sua cidadania.

No entanto, o caso da Nicarágua não está avançando apenas por inércia institucional dentro da OEA. Organizações como Raza e Igualdad, o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), a Associação Memória e Justiça (AMJ) e outros grupos da sociedade civil levaram o caso à Assembleia Geral para evitar que a Nicarágua seja marginalizada em meio a uma agenda hemisférica dominada por Haiti, Venezuela, migração, segurança regional e a própria crise interna da OEA.

“Estamos aqui para levantar a questão e fortalecer os esforços de defesa em relação aos crimes contra a humanidade que continuam a ocorrer na Nicarágua, como a morte do líder indígena Brooklyn Rivera sob custódia do Estado, a prisão contínua por motivos políticos e os desaparecimentos”, afirma Carlos Quesada, diretor da organização Race and Equality.

No âmbito da OEA, o foco na grave situação da Nicarágua reflete seu principal e atual paradoxo: ter influência política diante de um regime que não só ousou abandonar sua sede, como também confiscou o prédio da instituição interamericana em Manágua.

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