27 Mai 2026
Em vários passos da encíclica Magnifica Humanitas, publicada nesta segunda-feira, o Papa Leão destaca os aspectos importantes que a tecnologia e, concretamente, a Inteligência Artificial, podem trazer à humanidade. Mas em três parágrafos do documento – 123 a 125 –, quando fala da grandeza e do coração humano por oposição aos seus limites, Leão XIV refere “mulheres corajosas e generosas”, mártires “da fraternidade e da justiça”, “testemunhas que encarnaram (…) a esperança do Evangelho e a dignidade humana” ou ainda os “‘mártires do quotidiano” que cuidam, educam, acompanham e consolam sem alarde”. A par de instituições e documentos que são “marcos emblemáticos” da humanidade.
A reportagem é de António Marujo, publicada por 7 Margens, 26-05-2026.
Há acontecimentos que mostram “que a história pode mudar quando mesmo um só homem ou mulher leva realmente a sério a dignidade de todos”, escreve o Papa Leão. E cita duas dinâmicas lideradas por cristãos não-católicos: “o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos da América, ligado também ao testemunho [do pastor baptista] Martin Luther King Jr., ou o fim do apartheid na África do Sul após a libertação de Nelson Mandela e a sua decisão de não entregar ao ódio o futuro”.
Entre “muitas outras” mulheres “corajosas e generosas” de todos os continentes e diferentes contextos “que contribuíram com o seu empenho para tornar a história mais humana”, Leão XIV destaca duas não-católicas: Elisabeth Elliot (1926-2015), missionária protestante belga, que foi também escritora e palestrante; e a muçulmana Benazir Bhutto (1953-2007), morta num atentado terrorista depois de ter sido a primeira mulher no cargo de primeira-ministra no Paquistão.
A lista de católicas inclui Santa Laura Montoya (1874-1949), colombiana que se dedicou a trabalhar com os povos indígenas; Santa Teresa de Calcutá (1910-1997), de origem albanesa, que na Índia se gastou a tratar os mais moribundos nas ruas, sem comida nem abrigo; Dorothy Day (1897-1980), sindicalista, pacifista (presa várias vezes por se manifestar contra a guerra) e fundadora do jornal e associação O Trabalhador Católico nos Estados Unidos; Marie Skłodowska-Curie (1867-1934), a física franco-polaca pioneira do Raio-X; Maria Montessori (1870-1952), pedagoga, educadora e médica italiana, cujo método é ainda hoje seguido em muitas escolas; e Wangari Maathai (1940-2011), primeira mulher africana a receber o Nobel da Paz pelo seu contributo para o desenvolvimento sustentável e a democracia.
Uma trama oculta, mas decisiva
“A par destes sinais públicos, existe uma trama mais oculta, mas decisiva: as comunidades religiosas que escolhem lugares pobres e perigosos”, refere ainda o Papa Leão nesta sua lista. São “os mártires da fraternidade e da justiça, como São Maximiliano Maria Kolbe, São Óscar Romero e o beato Enrique Angelelli, cita. Kolbe (1894-1941) foi um padre católico polaco que, em Auschwitz, se ofereceu aos nazis para morrer no lugar de um pai de família; Romero (1917-1980) era arcebispo de San Salvador, quando foi assassinado enquanto celebrava missa, pela defesa que fazia dos mais pobres e da crítica à impunidade militar no seu país; e o argentino Angelelli (1923-1976) era conhecido como “bispo dos pobres”. Também o vietnamita François-Xavier Nguyễn Văn Thuận (1928-2002) perseguido pelo regime comunista do seu país, está neste rol.
Leão XIV refere ainda, “sobretudo, os ‘mártires do cotidiano’ que cuidam, educam, acompanham e consolam sem alarde, como os pais, os enfermeiros, os médicos, os voluntários, as pessoas que permanecem ao lado dum idoso ou dum excluído”. E afirma: “O testemunho deles mostra que o bem não acontece automaticamente, mas requer perseverança, memória, e uma conversão que nos permite recomeçar mesmo após as derrotas.”
Nem só de pessoas se faz a lista de magníficos em humanidade. “A história não se apresenta apenas como o catálogo das nossas violências, mas como a prova de que o ser humano é capaz de criar instituições capazes de proteger a vida em comum”, escreve Leão XIV.
O Papa cita “alguns marcos emblemáticos” que, nos últimos dois séculos, traduzem essa capacidade: “o nascimento do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (1863), cuja neutralidade operacional garante cuidados compassivos a todos; o longo processo que conduziu à abolição da escravatura, que não foi uma simples alteração jurídica, mas uma mudança de consciência; a fundação da Organização das Nações Unidas (1945) e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), que estabeleceram uma linguagem comum para afirmar, pelo menos como ideal partilhado, que a dignidade é universal; a Convenção relativa ao estatuto dos refugiados (1951), que reconhece o dever de proteção a quem foge de perseguições e ameaças.”
Defesa da ONU, que precisa de reforma profunda
Sobre a ONU, o documento destaca-a, já na parte final (226) entre as organizações internacionais que “continuam a ser instrumentos essenciais para promover uma civilização do amor, possibilitando o diálogo entre as nações, a resolução pacífica dos conflitos, o desenvolvimento integral dos povos, a proteção das pessoas mais vulneráveis, o desarmamento e o cuidado da criação”.
Citando João Paulo II, acrescenta noutro passo (54) que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, “proclamada pelas Nações Unidas a 10 de Dezembro de 1948, continua a ser, nos nossos dias, ‘uma das mais excelsas expressões da consciência humana’” e uma “pedra miliária no caminho do progresso moral da humanidade”.
Ainda acerca da ONU, Leão defende, já na parte final e na continuidade de vários dos seus antecessores, a ideia da necessidade de uma reforma da instituição. Com as organizações multilaterais, a comunidade internacional “pode procurar reduzir as desigualdades, defender os direitos dos refugiados e das minorias, libertar recursos alocados ao armamento para os destinar à promoção humana e proteger a Casa comum”, descreve.
Leão XIV avisa: “a crise de convicções e de valores toca também os fundamentos éticos da vida das nações e torna mais difícil orientar o multilateralismo para o verdadeiro bem comum.” Por isso, acompanhando o esforço das organizações internacionais na prossecução dos objetivos enunciados, o Papa garante que a Santa Sé “apoia e acompanha este esforço, embora reconheça que a atual fragilidade da ONU e do sistema político internacional revela a necessidade de reformas profundas”. Que não devem limitar-se, diz, a fazer “apenas ajustes técnicos”.
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