27 Mai 2026
Termômetros chegaram a marcar 52,7ºC na região em 2025; geleiras andinas estão derretendo 35% mais rápido que média mundial, mostra relatório.
A informação é de Priscila Pacheco, publicada por Observatório do Clima, 25-05-2026.
América Latina e Caribe têm aquecido cada vez mais rápido e com maior intensidade, devido às mudanças climáticas, mostra estudo divulgado na última semana pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). Em 2025, os termômetros registraram anomalias de até 10ºC acima da média em diferentes áreas, em meio a uma sequência de eventos extremos que levou ao recorde de 52,7ºC no México e acima dos 40ºC em diversos pontos do continente ao longo do ano. No Brasil, foram registradas sete ondas de calor no período.
O Estado do Clima na América Latina e no Caribe – que contou com a participação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), para esta edição – mostrou que o México aqueceu aproximadamente 0,34°C por década nos últimos 30 anos, em comparação com períodos anteriores (1900-1930, 1931-1960 e 1961-1990). O país foi a sub-região com maior ritmo de aumento de temperatura por década.
A América do Sul registrou aumento de 0,26°C por década, enquanto a América Central e o Caribe tiveram elevação de 0,25°C cada, no período analisado pela ONU.
Calor de 2025
Entre fevereiro e março de 2025, o México enfrentou a primeira onda de calor daquele ano, com alguns estados registrando temperaturas entre 40°C e 45°C. Em maio, os termômetros chegaram a marcar entre 46°C e 47°C em diversos municípios mexicanos. Em agosto, os termômetros registraram a temperatura recorde de 52,7ºC em Mexicali, no noroeste do país.
A Guatemala também registrou um número excepcionalmente elevado de dias quentes, enquanto El Salvador teve temperaturas acima de 40°C. Belize e Honduras também enfrentaram episódios de calor extremo.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Brasil registrou sete ondas de calor ao longo do ano. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o início das aulas foi adiado devido às altas temperaturas. Durante o verão, o norte da Argentina, o sul do Brasil e grande parte do Paraguai e do Uruguai tiveram anomalias de temperatura de até 10°C acima da média. A Bolívia também registrou calor anormal durante a primavera e o outono.
O relatório destaca ainda que estimativas de longo prazo apontam para cerca de 13 mil mortes relacionadas ao calor por ano em 17 países da América Latina — média referente ao período entre 2012 e 2021. “Um número que ressalta a provável magnitude da subestimação do problema”, afirma o documento.
Oceanos aquecidos
O relatório mostra que, em 2025, o Mar do Caribe e o Golfo do México registraram individualmente as temperaturas mais altas já observadas. O Pacífico Sul, especialmente na costa do Chile, também alcançou valores históricos.
“O aquecimento dos oceanos contribui para o aumento do nível do mar e altera as correntes oceânicas. Também modifica a trajetória das tempestades, intensifica a estratificação das águas oceânicas e pode causar alterações nos ecossistemas marinhos”, explica o relatório.
Em relação ao conteúdo de calor oceânico (CCO) — indicador da energia térmica armazenada nas camadas mais profundas do oceano —, os níveis regionais de 2025 permaneceram dentro da faixa historicamente elevada observada na última década (2015-2024). Valores sem precedentes foram registrados em partes do Atlântico, na porção oeste do Golfo do México e em áreas a oeste do extremo sul da América do Sul.
As médias sub-regionais de aumento do nível do mar ao redor da costa atlântica do norte da América do Sul, além de áreas da América Central e do Caribe, ficaram acima da taxa média global de 3,6 milímetros por ano.
“[O aumento do nível do mar] não acontece como nos filmes, subindo rapidamente. Mas ele provoca mais ressacas, como vem acontecendo em Santos”, afirma José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden e principal autor do relatório da OMM.
O nível do mar sobe devido ao aquecimento das águas — por expansão térmica — e ao derretimento de geleiras, calotas polares e mantos de gelo, afetando comunidades costeiras e países insulares de baixa altitude.
O aquecimento também aumenta a acidificação dos oceanos (pH baixo), causada pela absorção excessiva de gás carbônico. Em 2025, o pH da superfície do oceano continuou diminuindo na América Latina e no Caribe, e algumas áreas registraram valores mínimos sem precedentes.
A América Latina abriga quase 9% do litoral mundial e possui ecossistemas marinhos fortemente influenciados por características regionais. Segundo o relatório, a acidificação dos oceanos, combinada ao aquecimento e à desoxigenação das águas, já está degradando ecossistemas formados por organismos calcificadores, especialmente recifes de coral de águas quentes e costas rochosas dominadas por corais, cracas e mexilhões. O fenômeno afeta a biodiversidade e a pesca.
Derretimento acelerado
Um dos estudos citados no relatório avaliou a perda de massa das geleiras em todo o mundo desde 1976. Segundo a análise, 41% da perda total registrada nesse período — equivalente a cerca de 10 milímetros de elevação do nível do mar — ocorreu apenas na última década (2015-2024).
A Cordilheira dos Andes desempenha papel relevante nesse cenário. “As geleiras andinas estão perdendo massa em ritmo acelerado, cerca de 35% mais rápido que a média global”, afirma Marengo.
As geleiras dos Andes fornecem água doce para aproximadamente 90 milhões de pessoas, abastecendo o consumo doméstico, a geração de energia hidrelétrica, a agricultura e atividades industriais.
Chuvas e secas ficaram mais irregulares e intensas
Ao longo dos últimos 50 anos, as tendências de precipitação na América Latina e no Caribe têm sido bastante heterogêneas, com dados que apontam predominantemente para maior irregularidade e extremos climáticos, em vez de um simples aumento ou diminuição da precipitação média. Isso significa que muitas regiões enfrentam estiagens prolongadas e episódios de chuva mais intensa.
Junho de 2025 foi o mês mais chuvoso já registrado no México. Segundo o Serviço Meteorológico Nacional mexicano, a precipitação média ficou 55,8% acima da média do período entre 1991 e 2020.
Na Venezuela, o Instituto Nacional de Meteorologia e Hidrologia informou que as chuvas de 2025 superaram os níveis normais em aproximadamente 300%. No estado de Apure, dois dias de chuva em outubro provocaram deslizamentos de terra e o transbordamento de rios, destruindo casas e outras infraestruturas. Cinquenta e seis pessoas morreram e os prejuízos econômicos foram estimados em cerca de US$ 500 milhões.
Na região árida de Ica, no Peru, o volume diário de chuva atingiu níveis sem precedentes, com anomalias entre 900% e 1.700% acima da média mensal. O rio Ica transbordou e afetou o setor agrícola.
No fim de outubro, Melissa se tornou o primeiro furacão de categoria 5 — com ventos acima de 252 km/h — a tocar a terra na Jamaica desde o início dos registros, em 1851. O furacão atingiu áreas residenciais, comerciais e turísticas. Ao menos 45 pessoas morreram e as perdas econômicas foram estimadas em US$ 8,8 bilhões, equivalente a mais de 41% do PIB do país. A Jamaica, porém, havia conseguido se preparar financeiramente e estruturar políticas emergenciais graças à modelagem antecipada de riscos associados a furacões.
As secas severas, por sua vez, atingiram partes do noroeste e nordeste do México, Guatemala, Honduras, El Salvador, norte e leste da Venezuela e áreas do Caribe. Na América do Sul, episódios de seca extrema ou moderada foram observados no sul da Amazônia, no Nordeste e Sudeste do Brasil, nas bacias dos rios Paraná e São Francisco, além do norte e oeste da Argentina e do norte e centro do Chile.
Mudanças climáticas favorecem frio extremo
O desequilíbrio climático causado pelo aquecimento global também pode favorecer eventos extremos de frio. Entre 26 de junho e 3 de julho, uma onda de frio polar sem precedentes atingiu o sul da América do Sul.
As temperaturas mínimas em áreas da Argentina, Chile e Uruguai ficaram entre 10°C e 15°C abaixo da média. Em 30 de junho, o ar frio estagnado nas cidades chilenas de Santiago, Rancagua e Talca provocou acúmulo de poluentes e piora da qualidade do ar.
“Esse evento foi considerado uma das ondas de frio mais intensas no Hemisfério Sul em décadas, com geadas e nevascas incomuns que se estenderam muito além de suas áreas típicas”, aponta o relatório.
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