"Eles nos chamavam apenas de escravos." Em Haia o choque das torturas líbias

Foto: Milad Fakurian | Unsplash

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26 Mai 2026

"Saibam que podem sair a qualquer momento." O aviso da juíza Iulia Antoanella Motoc não era sem motivo. Durante três dias, a estéril sala do Tribunal Penal Internacional testemunharia o que a ONU já havia chamado de "horrores indizíveis" nos campos líbios.

A reportagem é de Nello Scavo, publicada por Avvenire, 22-05-2026.

Khaled Mohamed Ali El Hishri, conhecido como Al Buti, imperturbável, ocasionalmente morde os lábios, limpa os óculos de leitura, ajusta a postura na cadeira, mostrando o porte físico que lhe permitiu incutir medo. Nos três dias de audiência preliminar evitou cuidadosamente olhar para a esquerda, onde poderia encontrar os rostos daqueles que jamais esquecerão seu rosto. Os juízes têm dois meses para comunicar sua decisão. Mas é evidente sua vontade de não esperar até o prazo de 21 de julho. Para o Gabinete do Procurador do TPI, Mitiga não foi apenas um local de detenção, mas um sistema. Prisões, desaparecimentos, espancamentos, espoliações, torturas, trabalhos forçados, violências sexuais, mortes na cela, abusos para induzir abortos após os estupros. Uma engrenagem em que a identidade era apagada e a pessoa reduzida a uma função: obedecer, trabalhar, sobreviver. E satisfazer os caprichos perversos dos guardas. "Até dez de uma só vez, durante anos, dia sim, dia não", reconstruiu a acusação, citando o destino de uma das menores de idade da África Subsaariana.

Nem mesmo a esterilização lexical de um tribunal internacional consegue impedir que algumas vítimas se sintam mal, comecem a tremer, sintam falta de ar. Isso acontece quando sua história se torna a acusação lida na cara de El Hirshi. O "anjo da morte" de Mitiga, como o chamam. O executor dos planos do General Almasri, os dois chefões da prisão no aeroporto de Trípoli.

Imóveis, às vezes com a cabeça entre as mãos, outras vezes abraçadas entre si, reconhecemos muitas das vítimas nas cadeiras. Suas vozes foram recolhidas pelo jornal "Avvenire" durante anos. Algumas, no último dia da audiência preliminar, optaram por usar trajes tradicionais africanos, como que para reencontrar sua identidade negada, no dia que aproxima o tempo do juízo dos homens.

O sul-sudanês David Yambio que, após ser acolhido na Itália se mudou para o exterior, retornou à Europa para ver El Hishri e estar perto dos outros sobreviventes. Foi capturado no Mediterrâneo em 2019. Transferido para Mitiga, relatou ter sido torturado pessoalmente por Almasri e ter testemunhado "Al Buti" à obra nas prisões. Justamente Almasri solicitou, nas últimas horas, ser excluído das atenções de Haia, alegando estar sendo submetido a idêntico processo na Líbia. Para isso, apresentou alguns documentos remotamente, aos quais o "Avvenire" teve acesso. Trata-se de documentos judiciais líbios de abril de 2025, que mencionam genericamente algumas acusações, mas não confirmam nem o início nem o agendamento de um processo. Uma manobra para atrasar o tribunal, que deverá responder a ele até junho. Al Buti também permanece em silêncio. Recusou-se a intervir, deixando a tarefa para os oito advogados de defesa, "de diferentes países e religiões", como fizeram questão de enfatizar.

Na Itália também desembarcou Lam Magok, um sul-sudanês assistido pelo pessoal da organização "Baobab" em Roma. Ele relatou com precisão que Almasri o espancou e que, durante uma tentativa frustrada de fuga de Mitiga, ele e outros foram "torturados por cinco dias". As provas permanecerão em seu corpo para sempre.

Fotos e vídeos estão nos arquivos do tribunal. Serão divulgados oportunamente. Aqueles que os viram para elaborar as acusações dizem que talvez nem mesmo Hannah Arendt teria condições de explicar "a banalidade do mal" em 2026.

Até mesmo a fria arquitetura é projetada para separar o julgamento do mundo exterior. Todos os piores crimes de guerra, genocídios e violações dos direitos humanos passaram por essas mesas brancas. Da antiga Iugoslávia a Ruanda, ao Quênia. A galeria do público, onde as vítimas também estão sentadas anonimamente, é uma tribuna de observação de três metros de altura, separada por uma barreira de vidro. Nenhuma voz externa chega ao tribunal. E das arquibancadas, quem ouve só pode fazê-lo por meio de fones de ouvido.

"Há agora uma grande esperança de que esse julgamento possa prosseguir e que os crimes sejam confirmados no tribunal", explica Chantal Meloni, advogada e professora da Universidade de Milão que, juntamente com o Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), apresentou inúmeras denúncias que agora chegaram ao tribunal. "Casos como o de Mitiga devem nos fazer refletir sobre as responsabilidades, inclusive nos níveis mais altos e fora da Líbia", observa Meloni. Responsabilidades daqueles que permitem que grupos criminosos prosperem, continuem a torturar, abusar e até mesmo escravizar, quando não matar, as pessoas que se encontram ilegalmente detidas nesses centros."

Alice Basiglini, porta-voz da Baobab, espera por "uma possível confirmação das responsabilidades institucionais e políticas, ou seja, dos mandantes europeus desses crimes". E Luca Casarini, um dos fundadores da "Mediterranea", deixa Haia com uma certeza: "Os promotores continuarão a dar voz aos testemunhos dos enterrados vivos em Mitiga." Não foram apenas os espancamentos, segundo a acusação. Foi também o abandono. Doentes com tuberculose deixados sem assistência. Feridos deixados em suas celas. Uma menina deixada para morrer sem tratamento simplesmente por ser mulher e negra. Um dia, os detentos pediram ajuda para um idoso doente: "O que vocês querem, mulas? Parem com isso, esperem até que ele esfrie”, gritaram os guardas. O idoso prisioneiro morreu na cela.

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