23 Mai 2026
Plano nacional de fertilizantes pode impulsionar a indústria verde no Brasil e ampliar autonomia do país.
Renata Albuquerque Ribeiro é líder em desenvolvimento verde no ClimaInfo, pesquisadora associada ao Labmundo, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj) e pós-doutoranda do Grupo de Indústria e Competitividade, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ).
Eis o artigo.
O presidente Lula voltou a defender a ampliação da produção nacional de fertilizantes, recolocando o tema no centro do debate sobre soberania produtiva, política industrial e segurança econômica. Em visita às fábricas da Petrobras na semana passada, Lula reafirmou a importância estratégica do setor justamente em um momento de agravamento das tensões energéticas internacionais e de preocupação crescente com os estoques globais de insumos agrícolas.
A discussão também ganhou novo impulso no Congresso, com a tramitação de medidas relacionadas aos setores de combustíveis e de fertilizantes e a inclusão do tema na recém-aprovada Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), com o objetivo de equiparar os fertilizantes aos minerais críticos e, assim, facilitar a concessão de incentivos ao setor. Além disso, esta semana o Profert, Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes, está sendo analisado pela Casa, com o objetivo de reduzir a dependência externa de adubos. O projeto prevê a desoneração do gás fóssil e incentivos tributários para fortalecer a produção nacional do setor.
Essas ações buscam fortalecer o setor de fertilizantes no Brasil, já que o país nunca desenvolveu uma estratégia nacional consistente e de longo prazo para reduzir sua dependência externa de fertilizantes. Trata-se de uma fragilidade conhecida há décadas e que, apesar de alertas recorrentes, segue sem resposta proporcional à sua importância econômica e geopolítica.
O tema é particularmente sensível porque o Brasil é uma potência agroexportadora profundamente dependente de insumos importados. Mais de 80% dos fertilizantes consumidos no país vêm do exterior, o que torna o agronegócio brasileiro altamente vulnerável a crises internacionais, à volatilidade cambial e a choques geopolíticos.
A guerra na Ucrânia evidenciou dramaticamente essa vulnerabilidade. A interrupção de cadeias logísticas, a escalada dos preços do gás e as sanções contra grandes produtores de fertilizantes expuseram a fragilidade dos países dependentes de importações. Agora, com o agravamento das tensões no Oriente Médio e os riscos associados ao fornecimento energético global, a preocupação retorna com ainda mais intensidade. Fertilizantes nitrogenados dependem hoje fortemente do gás para sua produção, o que significa que crises energéticas se transformam rapidamente em crises agrícolas e inflacionárias.
Brasil tenta desenvolver estratégia para fertilizantes desde os anos 1970
Essa dependência histórica não surgiu por acaso. Desde os anos 1970, diferentes governos brasileiros buscaram ampliar a produção doméstica de fertilizantes, mas sem implementar um plano de longo prazo. Houve investimentos estatais, participação da Petrobras e tentativas de construir uma política nacional para o setor, haja vista o lançamento de políticas públicas como o 1º Programa Nacional de Fertilizantes e Calcário Agrícola, de 1974, e o 2º Plano Nacional de Fertilizantes, de 1987.
No entanto, a partir dos anos 2000, muitos projetos foram interrompidos, descontinuados ou perderam prioridade diante de ciclos econômicos e de mudanças políticas. Entre 2016 e 2022, o governo federal, sob os então presidentes Michel Temer e Jair Bolsonaro, fechou quatro fábricas de fertilizantes no Brasil. O resultado foi a consolidação de um modelo em que o Brasil exporta commodities agrícolas em larga escala, mas importa grande parte dos insumos estratégicos necessários para produzi-las.
Esta situação levou ao desenvolvimento do Plano Nacional de Fertilizantes 2050, aprovado em 2022, que, apesar da importância e da forte articulação do agronegócio no Congresso Nacional e em outras posições políticas do Executivo, não apresentou grandes avanços.
Esse paradoxo revela uma lacuna importante no planejamento nacional. O país construiu uma agricultura altamente competitiva, mas não desenvolveu plenamente a base industrial necessária para garantir autonomia em setores críticos.
Fertilizantes verdes como alternativa viável
Nesse contexto, avançar com fertilizantes verdes deixa de ser apenas uma agenda ambiental e torna-se uma estratégia econômica, industrial, geopolítica e de segurança. Fertilizantes verdes, especialmente aqueles produzidos a partir de hidrogênio verde e amônia verde, podem reduzir significativamente a dependência do gás fóssil e abrir novas oportunidades industriais para o país.
O Brasil possui vantagens competitivas importantes nessa transição. A matriz elétrica relativamente limpa, a abundância de recursos renováveis e o potencial de expansão da energia solar e eólica criam condições favoráveis à produção de hidrogênio verde em larga escala. Isso poderia permitir ao país construir uma nova cadeia produtiva industrial associada à descarbonização global.
Além disso, já há sinais concretos de viabilidade econômica e tecnológica dessa opção. Projetos de fertilizantes verdes começam a surgir no Brasil e em outros países da América do Sul, o que indica que o mercado está em formação. Um dos casos mais emblemáticos é o do Paraguai, que planeja utilizar a energia da hidrelétrica de Itaipu para produzir fertilizantes verdes, sem depender de gás.
No Brasil, iniciativas privadas também avançam em soluções alternativas. Projetos de fertilizantes verdes buscam justamente romper a dependência estrutural do gás importado, apontando para modelos produtivos mais resilientes e menos expostos à volatilidade internacional.
Bioinsumos e biofertilizantes avançam
Outro elemento importante neste debate é o avanço dos bioinsumos e dos fertilizantes biológicos. O setor tem crescido rapidamente no país, impulsionado por inovação tecnológica, investimentos públicos e pelo aumento da demanda agrícola por soluções mais sustentáveis. O BNDES anunciou recentemente um novo ciclo de investimentos de R$ 40 milhões voltado à produção de bioinsumos.
Atualmente, os bioinsumos já são apontados como uma “revolução gigantesca” na agricultura brasileira, combinando ganhos ambientais, produtividade e redução da dependência de insumos importados. O crescimento da produção em 2026 e o avanço da regulamentação da Lei de Bioinsumos mostram que o setor já deixou de ser marginal e passou a integrar uma nova fronteira de desenvolvimento agrícola e industrial. Vencedora do World Food Prize, considerado o “Nobel da Agricultura”, a pesquisadora da Embrapa, Maria Ângela Hungria, aponta que os bioinsumos podem substituir até metade dos fertilizantes químicos usados no Brasil, gerando economia de cerca de R$ 140 bilhões por safra.
As experiências ligadas à agricultura familiar e a movimentos sociais também mostram caminhos possíveis. Cooperativas vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra têm investido em modelos agroecológicos e soluções biológicas para reduzir custos e ampliar a autonomia produtiva. Embora em escala ainda limitada, essas iniciativas ajudam a demonstrar que a transição para fertilizantes mais sustentáveis pode combinar inovação, desenvolvimento regional e inclusão produtiva. O Movimenta conta, ainda, com iniciativas de cooperação sul-sul, a exemplo do projeto de produção de fertilizantes no Sul do Brasil, que conta com o apoio da China.
Movimentos atuais negligenciam a indústria verde
Apesar destes exemplos, os movimentos políticos recentes têm mostrado a organização do tema em torno do impulso aos fertilizantes nitrogenados e dos incentivos aos combustíveis fósseis. No caso da Petrobras, a projeção é que a empresa produza 35% da demanda de fertilizantes nitrogenados no Brasil em 2028, mas essa projeção vem acompanhada da ampliação da produção de gás fóssil.
No plano internacional, os países vêm ampliando as discussões sobre cooperação tecnológica e produtiva em fertilizantes, especialmente no âmbito dos BRICS, mas sem especificar o uso e/ou a produção sustentáveis dos insumos.
Enquanto isso, dados recentes do Instituto E+ de Transição Energética mostram que, no Brasil, o custo de produção de fertilizantes nitrogenados a partir de matérias-primas renováveis já está próximo ao da produção nacional a partir de gás.
O Brasil, portanto, enfrenta uma escolha estratégica. Pode continuar operando sob um modelo de dependência estrutural de insumos importados, permanentemente vulnerável a crises internacionais, ou transformar a agenda de fertilizantes verdes em um eixo de uma nova política industrial verde. Isso exigirá coordenação entre a política energética, o planejamento industrial, o financiamento público, a inovação tecnológica e o desenvolvimento regional.
No plano internacional, a construção de cadeias industriais verdes pode abrir novas possibilidades de cooperação Sul-Sul em áreas como hidrogênio verde, amônia verde e biofertilizantes, reduzindo a dependência de mercados tradicionais concentrados em poucos fornecedores globais.
Em um cenário global marcado por fragmentação geopolítica, insegurança energética e disputa tecnológica, construir uma estratégia nacional para o setor significa proteger a agricultura brasileira e fortalecer a soberania alimentar e a indústria nacional. Não se trata de agenda ambiental, nem de medida paliativa para minimizar riscos. Trata-se da nova revolução verde no campo. E o Brasil pode liderar esta agenda no futuro.
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