De tese acadêmica ao cinema, ‘Negros Laços’ ecoa vozes ancestrais do Sul do Brasil. Entrevista com Franciele Oliveira e Theodor Gonçalves

Foto: Theodor Gonçalves/Divulgação

16 Mai 2026

Filme gaúcho aborda as experiências de 532 nascidos de Ventre Livre em Santa Maria, de 1871 até 1940. 

A entrevista é de Katia Marko, publicada por Brasil de Fato, 13-05-2026.

Em um cenário em que a história oficial muitas vezes silencia as contribuições e lutas de comunidades negras, o curta-metragem “Negros Laços” emerge como um grito de resistência e reconhecimento.

O documentário transcende as páginas de uma tese de doutorado de Franciele Oliveira, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), para se tornar uma narrativa cinematográfica que ganhou o mundo. Com dados históricos, o filme não só dá voz a famílias afrodescendentes do município gaúcho, mas também desafia narrativas hegemônicas. É um testemunho da força da memória e da importância de se contar histórias que foram por muito tempo esquecidas.

Cartaz do filme ‘Negros Laços’ | Foto: Divulgação

Selecionado para o Encontro Continental de Estudos Afro-Latino-Americanos (IV Continental Conference on Afro-Latin American Studies), promovido pelo Instituto de Pesquisa Afro-Latino-Americana (Alari) da Universidade de Harvard, de 22 a 24 de julho de 2026, em Cali, Colômbia, o filme não apenas resgata a memória de famílias negras de Santa Maria (RS), mas também se posiciona como um marco na reparação histórica e na valorização da ancestralidade.

O Brasil de Fato conversou com a roteirista e co-produtora Franciele Oliveira e o diretor e produtor Theodor Gonçalves para conhecer os detalhes da criação.

Eis a entrevista.

O projeto nasceu de sua pesquisa acadêmica na UFSM. Como foi o processo de transformar dados históricos de uma tese em uma narrativa cinematográfica que dá voz a famílias como as de José Francisco do Nascimento e Innocência Maria Joaquina?

Franciele Oliveira: O processo de criação foi marcante. Ver uma tese de doutorado em História ser apropriada por diferentes pessoas e linguagens é, de fato, fascinante. É importante destacar a coletividade envolvida nesse processo de adaptação. O trabalho como historiadora já reconhecia, desde o princípio, a importância da oralidade e da memória na produção do conhecimento sobre o passado, ainda mais se tratando das histórias de famílias negras.

Ao construir o roteiro para o audiovisual, imediatamente, contatamos o Jonatan Pacheco, que já era uma referência na produção audiovisual negra para nós. Ele foi fundamental em todo o processo de adaptação da pesquisa histórica, da construção dos personagens, a exemplo da narradora Alcione Amaral, que aproxima o público do passado no presente, mas também na estrutura de “Negros Laços” em três atos. Todo processo de cortes e escolhas é sempre muito difícil e eu jamais conseguiria fazer estes cortes sozinha.

A tese tem quase 500 páginas e aborda as experiências de 532 nascidos de Ventre Livre em Santa Maria/RS, de 1871 até a década de 1940, sendo que algumas das famílias acompanhadas no estudo tiveram seus descendentes localizados.

Fizemos um grande esforço para chegarmos em três famílias principais, com cenas vitais marcantes, que perpassam a vida, por meio do nascimento e do parto, o casamento e a união dessas famílias negras e por fim o óbito e a partida de ancestrais, que deixaram legados importantes a seus filhos, netos e bisnetos, heranças materiais e imateriais que perpassam a luta pela liberdade e direitos, por seus próprios nomes e sobrenomes, por seus ofícios e profissões, por práticas culturais, religiosas e associativas.

Entrevistas com esses descendentes foram realizadas novamente. Algumas dessas pessoas já não estavam mais por aqui, haviam partido, outras foram atravessadas por estas perdas e por doenças que não as permitiram participar das gravações. Por outro lado, sempre contamos com o apoio de todas estas famílias, que já compreendiam a importância da pesquisa e agora se somaram ao apoio do audiovisual.

As gravações, a montagem de set, com iluminação, maquiagem e construção de cenário, com destaque para o trabalho da nossa produção cultural e artística (Theodor e Niggor) foi também essencial para essa adaptação da obra e para que os entrevistados e entrevistadas se sentissem valorizados e parte importante da narrativa que estava sendo contada.

Muitas vezes, as pesquisas ficam restritas ao nome do autor/pesquisador, de seus orientadores ou grupos de pesquisa. Neste caso, o que já era coletivo desde a origem acadêmica foi amplificado. A equipe contou com mais de 20 profissionais, com direito a trilha sonora original, permitindo ainda mais uma nova adaptação da pesquisa, musical e visual.

Na direção do documentário, o diretor optou por cruzar uma “voz ancestral”, interpretada por Alcione Flores do Amaral, com depoimentos reais de descendentes. Qual foi o objetivo dessa escolha estética e narrativa?

Theodor Gonçalves: Preciso ressaltar que a escolha da voz ancestral da matriarca interpretada pela Alcione foi “parida” no processo de criação do roteiro, que é assinado pela Franciele Oliveira e o Jonatan Pacheco. Claro que houve uma construção coletiva do início, meio e fim, no entanto esse detalhe estético é atribuído à equipe do roteiro, que foi muito assertiva nesse detalhe.

O objetivo era transformar a narrativa que talvez pudesse ser mais “dura” de um documentário jornalístico ou informativo para uma perspectiva poética que conduz a história em atos, sem deixar de fora as entrevistas que cercam as famílias dos descendentes e aproveitando a linguagem do cinema para imaginar essas histórias.

Franciele Oliveira: Eu conheço a Alcione (narradora principal do filme) há mais de uma década. A voz dela sempre foi muito impactante, com muita força e presença. A ideia de uma narradora, que conduz a história de diferentes famílias, foi uma via narrativa para trazer uma aproximação com os espectadores, visando valorizar a sabedoria da ancestralidade encarnada por Alcione por meio da sua oralidade, da oralidade de uma mulher negra.

A figura dela, como Griot e conhecedora de todas as histórias das famílias negras no passado de Santa Maria, traz para o presente a memória desses sujeitos que foram ocultados de uma história dita oficial. Aqui é interessante como a realidade se cruza com a ficção. Afinal de contas, é um documentário.

Todas as histórias narradas, ainda que de forma bastante poética, são reais e possuem materialidade histórica. De fato, alguns dos personagens narrados por Alcione no filme conviveram com ela em vida, como é o caso de Nemésio, filho de Mathilde, que foi escravizada por uma abastada família germânica de quem também Nemésio descendia e cuja história familiar é narrada no último ato de “Negros Laços.”

O filme tem recebido um reconhecimento internacional notável, com a seleção oficial para o IV Encontro Continental de Estudos Afro-Latino-Americanos em Cali, na Colômbia, promovido pela Universidade de Harvard. O que esse reconhecimento significa para o projeto?

Franciele Oliveira: A seleção de “Negros Laços” para composição da programação oficial do IV Encontro Continental de Estudos Afro-Latino-Americanos promovido pelo Instituto de Pesquisa Afro-Latino-Americana (Alari) da Universidade de Harvard é extremamente significativa para nós. Estaremos participando de um renomado congresso que reunirá acadêmicos, pesquisadores, artistas, ativistas e formuladores de políticas públicas interessados ​​no estudo das populações afrodescendentes na América Latina e no Caribe.

A expectativa gira em torno de 1.500 participantes de diferentes países da América Latina, do Caribe, dos Estados Unidos e de outras regiões do mundo. É a oportunidade de reverberar histórias de pessoas negras do Sul do Brasil, que viveram a escravidão, mas sobretudo as lutas por liberdade e cidadania, o que perpassava pela constituição de suas próprias famílias.

Da mesma forma, conseguimos apresentar outras linguagens em congressos que, muitas vezes, restringem-se a apresentações orais em painéis, mesas e sessões temáticas. Conseguimos ampliar a perspectiva do conhecimento por meio do cinema, da produção cultural oriunda do acesso a políticas públicas de cultura (Pnab), levando um produto cinematográfico que foi gestado por uma equipe diversa, multiprofissional e representativa.

Afinal de contas, “Negros Laços” não é fruto apenas de uma tese de doutorado em História que embasou o roteiro. O roteiro foi parte de um processo criativo que envolveu o roteirista Pach, com seu olhar afrocentrado, trazendo uma narrativa única. Da mesma forma, é fruto da interpretação e da apropriação destas memórias e da pesquisa histórica pelo elenco de atrizes e atores negros e negras, tais como a própria Alcione Amaral e o Jonatan Pacheco, Angela Souza, Leandra Souza, Jéssica Silva e Vinicio do Carmo.

Destaco também o fato de o filme ser dirigido por uma pessoa trans. Sempre questionamos sobre essa representatividade na produção audiovisual e levar esse produto, fruto de tantas mentes e corpos, muitas vezes subrepresentados no cinema para eventos dessa dimensão é romper uma estrutura, avançar e abrir caminhos.

O documentário também traz uma crítica direta à exaltação de famílias escravistas na história oficial. Como o cinema pode atuar como ferramenta de denúncia e reparação histórica?

Franciele Oliveira: É sempre muito triste quando nos deparamos com a narrativa da impossibilidade sobre conhecer as histórias de famílias negras, de acessar registros, memórias e identificar ancestrais. Muitas pessoas ainda são levadas a acreditar na impossibilidade de ter suas histórias contadas, devido à violência da escravidão e aos impactos do pós-Abolição.

Ainda que a trajetória dessas famílias tenha marcas profundas e contornos específicos, oriundos da experiência do atlântico negro e da vivência negra no Sul do país diante do racismo estrutural, nosso trabalho existe, também, para reparar essas lacunas, auxiliando inclusive famílias negras no acesso a direitos, compreendidos por nós como direito de memória, direito às próprias histórias, direito de serem representadas, direitos de criarem suas próprias expressões artísticas, com base em criações próprias, que perpassam a identidade e o pertencimento. Direito de não terem suas narrativas e os registros de suas existências negligenciados e ocultados, como foram e ainda são em muitas cidades Brasil afora, que mantém a ideia de uma história oficial fundada sob as bases da narrativa dos colonizadores e das elites proprietárias escravistas.

As exibições de “Negros Laços” têm sido marcadas por momentos de reunião de famílias negras, que estão conhecendo informações sobre ancestrais, que se perderam ao longo de gerações. O filme traz cenas de pessoas que veem pela primeira vez o rosto de seus bisavós. Bem como conhecem a atuação de familiares, que realizaram grandes empreendimentos em prol da liberdade de seus iguais e do acesso a direitos civis, como é o caso dos descendentes de José e Innocência, um dos casais responsáveis pela refundação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário em Santa Maria, que em seu estatuto visava construir um hospital e uma escola. “Negros Laços” oferece a essas pessoas uma experiência profunda de reconhecimento das origens e do legado dos ancestrais.

Para quem deseja acompanhar o desfecho desta produção, qual é a previsão de lançamento e onde o público pode encontrar mais informações?

Theodor Gonçalves: É imprescindível seguir o perfil oficial do filme no Instagram @curta.negroslacos, lá é nosso principal canal de comunicação e divulgação de toda agenda. Inclusive, é importante dizer que lançamos o filme em primeira mão no dia 19 de novembro de 2025 na Universidade Federal de Santa Maria, com um público de mais de mil pessoas, e concluímos aquele ano com duas exibições em Santa Catarina, no Instituto Federal Catarinense e no IFSC Campus Garopaba, em ações relacionadas ao Novembro Negro, ao Dia Nacional da Consciência Negra.

Estamos trabalhando muito na agenda cultural de exibições de 2026, então para não perder a próxima sessão e as novidades, tem que seguir nosso perfil.

Franciele Oliveira: Em maio de 2026 vamos exibir “Negros Laços” em uma sala de cinema pela primeira vez. A exibição ocorrerá dia 12, às 19h no Cult Cinemas em Alegrete/RS, em uma parceria com a Escola do LegislativoCâmara Municipal de Alegrete. No dia 19 de maio, às 14h, exibiremos o filme em Santa Maria/RS, no Centro Didático Artístico da UFSM, junto ao curso de Educação Física. No dia posterior (20) o filme também será reexibido em sessão junto ao Cineclube da Boca, às 19h, no prédio 67 da UFSM.

Em julho, estaremos em Cali, Colômbia, e no dia 8 de outubro estaremos compondo a programação de 10 anos do Grupo de Estudos Sobre Pós-AboliçãoGepa. Para 2026, “Negros Laços” ainda planeja uma exibição na capital, Porto Alegre, e em Brasília, além de concorrer a várias mostras e prêmio. A partir de 2027, pretendemos disponibilizar a obra em plataformas que ampliam o acesso ao grande público.

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