Papa Leão XIV e a Primaz Anglicana: cismas e reconciliações fracassadas. Artigo de Agostinho Massi

Foto: Vatican Media

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12 Mai 2026

"Um sinal revelador da visita de Mullally é que ela representa um daqueles momentos em que a fé se torna uma lente para interpretar o futuro. Porque sempre que duas tradições cristãs se tocam sem entrar em conflito, uma possibilidade se abre: para a Europa redescobrir uma linguagem comum, para o Ocidente repensar sua identidade, para o cristianismo global repensar seu papel em um mundo fragmentado", escreve Agostinho Massi, em artigo publicado por Viandanti, 10-05-2026.

Eis o artigo.

A visita da Arcebispa Sarah Mullally ao túmulo de Pedro e ao Papa não é um mero gesto litúrgico, nem um ato de cortesia diplomática. É um ato que afeta a estrutura profunda do mundo, onde o religioso e o político nunca estão verdadeiramente separados, mas sim se espelham como duas faces da mesma soberania simbólica.

Um encontro que fala à história

Porque quando um Primaz Anglicano comparece diante dos restos mortais do Apóstolo e do Bispo de Roma, não é apenas uma pessoa que se comove: a história se comove. Um legado de cismas e reconciliações fracassadas, de impérios dissolvidos, de novas geografias espirituais, e a própria ideia do Cristianismo como uma força evangelizadora que atravessa os séculos se comove.

Num mundo onde a geopolítica parece dominada por algoritmos, infraestruturas e arsenais, um gesto como este lembra-nos que o poder não se resume ao aço e aos mercados, mas também a símbolos que resistem ao teste do tempo. E que as grandes transformações globais muitas vezes começam silenciosamente, em locais onde a história parece adormecer: uma cripta, uma basílica, um encontro que não faz barulho, mas altera os eixos.

Contudo, o que acontece no plano geopolítico não esgota o significado deste encontro. Pois cada gesto que toca Pedro fala não só à história, mas também ao mistério. Por trás da diplomacia reside uma gramática mais antiga: a da fé que questiona, reconcilia e converte. É aqui que a visita da Arcebispa Mullally revela a sua profundidade teológica, que não é um apêndice da política, mas a sua fonte oculta.

Um sinal revelador da visita de Mullally é que ela representa um daqueles momentos em que a fé se torna uma lente para interpretar o futuro. Porque sempre que duas tradições cristãs se tocam sem entrar em conflito, uma possibilidade se abre: para a Europa redescobrir uma linguagem comum, para o Ocidente repensar sua identidade, para o cristianismo global repensar seu papel em um mundo fragmentado.

Não se trata apenas de um evento religioso. É um sinal. Uma pista. Uma pequena falha geológica que, com o tempo, poderá redesenhar mapas muito mais amplos do que os eclesiásticos. A natureza profética e a linguagem desse encontro representam um daqueles pontos em que teologia, história e profecia se entrelaçam como fios tensos: um gesto, um encontro, uma reverência mútua são suficientes para que todo o sistema de coerência doutrinária pareça vibrar.

A visita de Sarah Mullally ao túmulo de Pedro e ao Papa não foi um "escândalo", mas uma revelação; mostrou que a realidade eclesial se move mais rápido do que as categorias pelas quais a julgamos.

Para muitos católicos, aliás, a imagem de uma bispa recebida com honras pontifícias reabre duas feridas que nunca cicatrizaram: Apostolicae Curae (1896), que definiu as ordenações anglicanas como "absolutamente nulas e completamente inválidas"; e Ordinatio Sacerdotalis (1994), que declarou encerrada a possibilidade de ordenação feminina.

Ouvindo o que a realidade diz à Igreja

Se levarmos essas duas declarações ao pé da letra, o cenário destes dias torna-se quase paradoxal: como pode o Papa acolher solenemente uma pessoa que, segundo esses textos, não é diácono nem sacerdote, muito menos bispo, nem elegível para a ordenação?

Sem nos perdermos em raciocínios circulares, o ponto de partida firme é que o ecumenismo não é opcional, mas um dever evangélico. A Igreja Católica sabe que não pode proclamar a unidade do Evangelho enquanto permanecer prisioneira de seus próprios medos e, infelizmente, também de um clericalismo defensivo generalizado.

O encontro com a Primaz Anglicana não é uma rendição doutrinária, mas um ato de verdade: reconhecer que o Espírito sopra mesmo onde nossas categorias não alcançam. A questão feminina tornou-se uma questão teológica, não disciplinar.

A presença de uma bispa diante do Papa é um sinal de que a história está levantando questões que não podem mais ser ignoradas. Não se trata de "mudar a doutrina", mas de ouvir o que a realidade está dizendo à Igreja.

E a realidade nos mostra que as mulheres já exercem, em muitas denominações cristãs, um ministério reconhecido, frutífero e com autoridade.

A Igreja é maior do que seus documentos

Devemos reconhecer, sem temor, que a Igreja é maior do que seus documentos: Apostolicae Curae e Ordinatio Sacerdotalis pertencem a um contexto histórico específico. Não são dogmas, não são irreformáveis, não são a palavra final. São palavras situadas.

E a Igreja, quando fiel a si mesma, não teme reconsiderar suas posições quando a verdade o exige. A história nos ensina isso.

Mas o próprio encontro já é teologia. O gesto do Papa não é um mero detalhe de protocolo: é um ato magisterial "em andamento", no qual a comunhão precede a definição, a hospitalidade precede o juízo e o relacionamento precede a categoria.

A visita da Primaz Anglicana não contradiz a doutrina: ela a transcende. Demonstra que a Igreja, para ser fiel ao Evangelho, precisa por vezes ir além de si mesma. O ecumenismo e a questão feminina não são ameaças, mas lugares onde o Espírito chama a Igreja a crescer.

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