Em missão junto do povo indígena yanomami. Artigo de Albanus Kioko

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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12 Mai 2026

"Quando a missão começa pela escuta, ela deixa de ser imposição e torna-se encontro. Em Catrimani, escutar o povo yanomami foi um caminho concreto de encontro com Deus e de renovação do sentido mais autêntico da missão", escreve Albanus Kioko, em artigo publicado por 7 Margens, 10-05-2026.

Eis o artigo.

Chamo-me Albanus Kioko, tenho 32 anos, nasci em Kibwesi, uma província no Quênia, e sou seminarista da Consolata. Atualmente estudo teologia em São Paulo, no Brasil, onde frequento o terceiro ano do curso. Durante as férias de final de ano, vivi uma experiência missionária junto do povo yanomami na Missão Catrimani, localizada no estado de Roraima, no extremo norte amazónico do Brasil.

Catrimani é um espaço de grande riqueza cultural e humana, onde o povo yanomami vive em profunda relação com a floresta, a comunidade e os ciclos da vida. A identidade coletiva, a oralidade e o cuidado com a natureza são elementos centrais do seu modo de existir. Cada gesto quotidiano expressa uma compreensão do mundo marcada pela interdependência entre as pessoas e o ambiente.

Ao mesmo tempo, trata-se de um contexto atravessado por desafios históricos e atuais, como a defesa do território, a saúde e as ameaças externas. Nesse cenário, a presença missionária é chamada a ser sinal de solidariedade e respeito, evitando qualquer forma de imposição cultural ou religiosa. A missão acontece na vida real, marcada por resistência, sabedoria e esperança.

Durante aproximadamente dois meses de convivência com os yanomami percebi que a evangelização acontece, muitas vezes, nos gestos simples do quotidiano. Caminhar juntos, participar nas atividades comunitárias e respeitar os costumes locais tornam-se formas concretas de presença missionária. Atividades como a alfabetização, as práticas agrícolas, a construção de galinheiros e a apicultura foram importantes, mas sempre vividas a partir do diálogo e da convivência. Mais do que os resultados práticos, o que marcou foi o processo construído junto do povo, no qual a relação humana teve prioridade.

Essa convivência incluiu também a participação respeitadora em momentos significativos da vida comunitária, como as celebrações culturais realizadas quando uma pessoa da comunidade faleceu. Acompanhar esses rituais foi uma experiência profunda de aprendizagem. Estar presente nesses momentos significou partilhar a dor, respeitar o sagrado da cultura do outro e reconhecer que a missão também se faz no silêncio e na solidariedade.

A missão em Catrimani apresenta desafios importantes, como as barreiras linguísticas, as diferenças culturais e o risco de interpretar a realidade a partir de categorias externas. Em muitos momentos, surge o sentimento de impotência diante dos próprios limites. No entanto, esses limites tornam-se ocasião de crescimento e conversão missionária. Reconhecer que não se tem todas as respostas ajuda a construir uma missão mais humana e evangélica. A escuta revelou-se essencial para evitar atitudes de imposição e para valorizar o protagonismo do povo yanomami.

A experiência em Catrimani ensina que a missão que começa pela escuta transforma tanto quem é escutado quanto quem escuta. O povo yanomami não é apenas destinatário da missão, mas protagonista de uma história onde Deus já está presente. Num mundo marcado pela pressa e pelo excesso de palavras, esta experiência recorda que o Reino de Deus se constrói, muitas vezes, no silêncio, na presença fiel e no respeito profundo pelo outro. Quando a missão começa pela escuta, ela deixa de ser imposição e torna-se encontro. Em Catrimani, escutar o povo yanomami foi um caminho concreto de encontro com Deus e de renovação do sentido mais autêntico da missão.

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