A Amazônia se transformando em savana? A dupla ameaça que paira sobre os pulmões do planeta

Foto: Agência Brasil/EBC

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07 Mai 2026

Um estudo alerta para as consequências na bacia amazônica dos efeitos combinados do desmatamento e de uma crise climática entre 1,5 e 1,9ºC.

A reportagem é de Pablo Rivas, publicada por El Salto, 06-05-2026.

A sorte ainda não está lançada, mas considera-se agora impossível que, pelo menos temporariamente, a temperatura média do planeta Terra suba 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, a menos que ocorra um milagre na forma de um despertar global completo e a subsequente implementação das ações necessárias para conter a crise climática. Diante desse paradigma, os estudos sobre como será o planeta nesse cenário estão se multiplicando.

Em 6 de maio, o Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK) divulgou um novo estudo que traça um panorama do futuro da região amazônica em um contexto de crescente aquecimento global combinado com o desmatamento da área.

O estudo, publicado na revista Nature, argumenta que, devido às “pressões sem precedentes” que os humanos exercem sobre o ecossistema da floresta amazônica, e considerando que as mudanças produzidas por essas pressões se retroalimentam, cerca de dois terços da área total da floresta amazônica — entre 62% e 77% — correm o risco de perder sua estabilidade como ecossistema se o aquecimento global atingir entre 1,5°C e 1,9°C e se isso for combinado com o desmatamento que afeta entre 22% e 28% da região amazônica. Por perda de estabilidade, entendem a transformação do ecossistema em algo mais parecido com uma savana ou uma floresta degradada.

Considerando que a área já “perdeu completamente” 18% de sua cobertura florestal, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) — dados também utilizados por organizações ambientais —, e que a produção projetada de combustíveis fósseis para 2030 é o dobro da compatível com um aquecimento não superior a 1,5ºC, o cenário apresentado não parece estar longe da realidade.

Isso ocorreu apesar de uma redução de 68% na perda de cobertura florestal na região em 2025 em comparação com 2024, segundo dados do Observatório Regional da Amazônia. Essa redução resultou da diminuição de incêndios na região devido a políticas mais conservacionistas e controles mais rigorosos, bem como da recuperação após dois anos de seca recorde. Mesmo assim, 25.000 km² de floresta amazônica foram afetados por degradação e desmatamento em 2025, somando-se aos 64 mil km² que perderam sua cobertura vegetal ou sofreram degradação severa em 2024.

“O desmatamento torna a Amazônia muito menos resiliente do que prevíamos”, explica Nico Wunderling, autor principal do relatório. “Ele resseca a atmosfera e enfraquece a capacidade da floresta de gerar chuvas.”

Da mesma forma, o estudo indica que, sem mais desmatamento, o limiar crítico a partir do qual uma porção significativa da bacia amazônica perderia a estabilidade seria muito maior: entre 3,7 e 4 °C. Além disso, afetaria uma área muito menor, pois representaria uma perda de estabilidade no bioma amazônico em aproximadamente um terço de sua superfície.

Em todo caso, Wunderling destaca que "mesmo um aquecimento adicional moderado poderia desencadear reações em cadeia em grandes áreas da floresta".

Uma cascata de consequências que afetam milhares de quilômetros além

O estudo apresentado nesta quarta-feira é o mais detalhado até o momento a quantificar como a crise climática e a perda da cobertura florestal se combinam para afetar a maior floresta tropical do planeta. Para obter os dados, a equipe aplicou "um modelo de sistemas dinâmicos para avaliar os riscos de transições em cascata, tanto locais quanto de longo alcance, em direção à degradação do ecossistema no bioma Amazônico sob diferentes trajetórias socioeconômicas compartilhadas".

Como explica Arie Staal, professor associado da Universidade de Utrecht (Holanda) e coautor do estudo, “o aquecimento global e o desmatamento afetam os mecanismos de retroalimentação das chuvas em todo o sistema amazônico”. Ele acrescenta: “Quando o desmatamento interrompe o transporte de umidade em uma área da Amazônia, regiões inteiras a centenas ou até milhares de quilômetros de distância também podem perder resiliência devido aos efeitos em cascata da seca”.

Entre as consequências dessas mudanças, causadas pela transformação da floresta amazônica em áreas de cultivo ou pecuária, está "um aumento na intensidade das secas", uma ideia diretamente ligada ao fato de que em 2025 terminou a pior seca na bacia em um século.

“Uma das principais razões para o aumento do risco de transições críticas é que tanto as secas quanto o desmatamento comprometem o mecanismo de autoestabilização do bioma, a reciclagem da umidade atmosférica, podendo, portanto, levar a transições críticas mais precoces”, alerta a equipe científica. Isso ocorre porque “parte da chuva na Amazônia vem de fontes externas e parte é reciclada — processos para os quais as árvores contribuem reciclando a umidade atmosférica, absorvendo água das camadas do solo e liberando-a por meio de suas folhas via transpiração e evaporação”.

Os dados sugerem que até 50% da precipitação na floresta amazônica tem origem na própria bacia. Em outras palavras, a Amazônia gera metade de sua própria precipitação, com as árvores desempenhando um papel crucial nesse processo: "Elas contribuem com cerca de 71% da água transpirada, reciclando assim aproximadamente 26% da chuva de volta para a atmosfera", afirma o relatório.

As árvores liberam vapor de água que posteriormente cai como chuva sobre a bacia amazônica. No entanto, “quando a floresta tropical desaparece, essa reciclagem de umidade enfraquece, o estresse hídrico aumenta e outras regiões florestais tornam-se mais vulneráveis ​​à degradação”, acrescenta a equipe científica.

Por isso, o estudo enfatiza a necessidade de interromper o desmatamento e restaurar a cobertura florestal para fortalecer a resiliência da Amazônia à crise climática. “Até agora, a floresta amazônica desempenhou um papel fundamental na estabilização do sistema terrestre como sumidouro de carbono, reguladora do ciclo da água e lar da mais rica biodiversidade terrestre do planeta. O desmatamento contínuo está minando essa estabilidade, aproximando a floresta de um ponto de inflexão. Isso não seria apenas devastador para a região, mas poderia ter consequências de longo alcance para todo o planeta”, afirma Johan Rockström, diretor do PIK e coautor do estudo.

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