13 Mai 2026
Fiquei feliz com a eleição do Papa Leão XIV. Tendo vivenciado três pontificados, espero contra todas as expectativas que ele continue purificando a Igreja do pecado institucional e de seu acobertamento. Ao longo das décadas, as revelações de aliciamento, abusos e manipulação psicológica me chocaram.
O artigo é dos colaboradores do Theologians' Corner (Espaço das Teólogas), publicado por Global Sister Reporter, 05-05-2026.
Eis o artigo.
Para marcar o primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV, o Theologians' Corner reúne quatro teólogas de diferentes partes do mundo para refletir sobre seus esforços para combater o abuso, fortalecer a responsabilização e promover a reforma na Igreja.
Júlia de Prinz
Julia de Prinz é uma freira alemã da Verbum Dei, que trabalha na região da Baía de São Francisco e no Vale de San Joaquin com populações migrantes. Ela leciona como professora adjunta na Escola Jesuíta de Teologia da Universidade de Santa Clara e na Graduate Theological Union. É líder do programa do Instituto de Espiritualidade Católica e Direção Espiritual, que forma diretores espirituais em inglês e espanhol para o Vale Central. Com uma bolsa da Interfaith America, ela ensina espiritualidade na área da saúde e cura para profissionais e estudantes da área. Anteriormente, dirigiu a iniciativa Mulheres de Sabedoria e Ação na Ásia, de 2002 a 2019, capacitando religiosas a estudar teologia, e trabalhou com a União Internacional das Superioras Gerais de 2020 a 2024 para lançar a iniciativa teológica internacional para religiosas.
Recentemente, o Papa Leão XIV exclamou: "Basta de idolatria do ego e do dinheiro! Basta de ostentação de poder! Basta de guerra!" Isso me consola, tanto pelo contexto imediato — a guerra inconcebível de 2026 contra o Irã pelos EUA e Israel —, quanto porque o apelo de Leão se conecta às palavras do Papa Francisco e sinaliza uma mudança cultural em curso na Igreja e, esperançosamente, na sociedade em geral.
No fim da década de 1990, ao mesmo tempo em que o padre Gustavo Gutiérrez era silenciado pela liderança eclesiástica peruana, outro grupo ganhava voz e poder na América Latina: o Sodalitium Christianae Vitae. A principal crítica de Gutiérrez residia na apropriação privada estrutural da riqueza, que criava um ciclo interminável de pobreza. O principal motivo do sucesso do Sodalitium era a sua boa reputação junto aos ricos, atendendo às elites com uma espiritualidade autoritária.
Gutiérrez insistiu: "Houve um tempo em que a pobreza era considerada um destino inevitável, mas essa visão não é mais possível nem responsável. Agora sabemos que a pobreza não é simplesmente um infortúnio; é uma injustiça." O Sodalitium, por outro lado, só tinha pena dos pobres enquanto se enriquecia, exercendo práticas fascistas de submissão e lealdade para com seus membros, incluindo métodos sexuais humilhantes e perversos que fortaleciam o poder de sua própria liderança.
Quase um quarto de século depois, a verdade sobre o Sodalitium veio à tona. Em 14 de abril de 2025, após anos de investigação sobre o abuso sádico de autoridade, espiritualidade e sexualidade no grupo, Francisco, trabalhando em estreita colaboração com o Cardeal Robert Prevost, o futuro Papa Leão XIV, reprimiu e dissolveu o Sodalitium. Ao mesmo tempo, Francisco homenageou Gutiérrez por sua vida dedicada aos pobres e por sua incansável defesa da verdade e da justiça.
Aqui nos Estados Unidos, o grito de guerra "Deus vultus" ecoa pela atual administração americana, deturpando o Evangelho cristão enquanto justifica uma guerra cruel que inflige sofrimento em massa no Oriente Médio e em outras regiões. Enquanto isso, a retórica interna de superioridade e elitismo da administração se opõe à nossa própria identidade cristã, negando a dignidade humana a todas as pessoas. Essa retórica demonstra ressonâncias da mistura fatal de espiritualidade e guerra que caracterizou o Sodalitium.
Paola Ugaz, jornalista peruana que ajudou a expor os abusos cometidos por líderes da Sodalitium Christianae Vitae, entrega ao Papa Leão XIV uma estola de lã de alpaca durante o encontro do papa com membros da imprensa em 12 de maio de 2025, na Sala Paulo VI, no Vaticano. (CNS/Vatican Media)
Leão não tem medo de confrontar aqueles cuja idolatria a si mesmo e ao dinheiro distorce completamente a palavra de Deus dentro e fora da Igreja. Ele denuncia práticas, políticas e posicionamentos políticos que atacam o compromisso cristão fundamental com o florescimento de todas as pessoas. Portanto, minha esperança para a abordagem de Leão em relação à mudança estrutural reside em sua resistência às correntes de pensamento na Igreja e no mundo que se concentram na compreensão perniciosa e privilegiada de que pessoas poderosas têm o direito de possuir todos e tudo, incluindo o mundo natural e o espaço sideral.
Irmã Mercy Shumbamhini
A Irmã Mercy Shumbamhini é membro da Congregação de Jesus, no Zimbábue. Ela é assistente social clínica profissional registrada, teóloga, diretora espiritual, consultora em proteção à infância e juventude, terapeuta narrativa, pesquisadora e escritora com vasta experiência em liderança e gestão de projetos. Atuou como líder regional de sua congregação no Zimbábue por oito anos e é ex-presidente da Conferência de Superiores Maiores do país. Trabalhou como oficial de desenvolvimento da Universidade Jesuíta Arrupe e atualmente atua como diretora de desenvolvimento missionário de sua congregação no Zimbábue. Participa de diversos conselhos e leciona em nível universitário sobre serviço social, teologia, espiritualidade, pensamento estratégico e planejamento, além de ter sido examinadora externa da Universidade da África do Sul.
Por meio da minha experiência em cuidado pastoral, proteção e acompanhamento com foco na superação de traumas em contextos eclesiais africanos, compreendi a resposta da Igreja à crise de abuso como uma jornada contínua de conversão ao coração de Cristo. No centro dessa jornada está o Bom Pastor que se inclina para carregar a ovelha ferida, conduzindo a Igreja a uma verdade, compaixão e cura mais profundas.
A ênfase de Leão XIV de que os mais vulneráveis devem permanecer "no centro do Evangelho" e que os pobres são "sujeitos criativos que nos desafiam a encontrar novas maneiras de viver o Evangelho hoje" dialoga diretamente com o que tenho observado em comunidades moldadas tanto pelo sofrimento quanto pela resiliência. Crianças, mulheres, pessoas marginalizadas e sobreviventes de abuso não são apenas aqueles atendidos pela Igreja; são também aqueles por meio dos quais Cristo fala, chamando a Igreja à responsabilidade, à conversão e à renovação.
O Papa Francisco nos lembra: "A dor das vítimas e de suas famílias é também a nossa dor." Na sabedoria africana do ubuntu — "Eu sou porque nós somos" — isso se torna concreto: nenhuma ferida é isolada, nenhuma cura é individual e nenhuma comunidade está completa até que todos sejam restaurados.
Salvaguarda, responsabilização e reforma. A resposta da Igreja sob o pontificado do Papa Leão XIV demonstra uma crescente consciência de que a proteção pertence à sua própria identidade, e não apenas às suas políticas. A responsabilidade deve estar fundamentada no Evangelho: o dano deve ser denunciado com veracidade, a justiça deve ser buscada com integridade e a cura deve ser abordada com cuidado e paciência.
Continuidade e aprofundamento da visão de Francisco. A direção sob Leão XIV pode ser vista tanto como uma continuidade quanto como um aprofundamento da abordagem de Francisco. A salvaguarda, a formação e a responsabilidade institucional estão sendo abordadas de forma mais clara dentro de uma visão única de comunhão. A sinodalidade — escuta, participação e responsabilidade compartilhada — está moldando esse processo, afastando a Igreja do silêncio e do isolamento em direção a uma maior transparência e corresponsabilidade.
Esperanças para a Igreja. Minha esperança é por uma Igreja que reflita a face de Cristo, o Bom Pastor: uma Igreja que não se esquive do sofrimento, mas que o acolha com compaixão, coragem e humildade. Espero por uma proteção que não seja apenas processual, mas profundamente espiritual — enraizada na escuta, na cura e na restauração. Espero por comunidades onde os sobreviventes sejam verdadeiramente ouvidos, onde a liderança feminina seja reconhecida como um dom para a renovação e onde os pobres sejam acolhidos como portadores da sabedoria do Evangelho.
Nameeta Renu
Nameeta Renu é membro da Ordem das Virgens Consagrada em Bombaim. Ela estudou o acompanhamento pastoral de migrantes e refugiados em situação de vulnerabilidade e possui doutorado em teologia sobre orientação espiritual e formação integral baseada na viriditas (verde), na espiritualidade de santa Hildegarda de Bingen. Publicou artigos sobre vida consagrada em diversos boletins informativos e revistas teológicas.
Fiquei feliz com a eleição do Papa Leão XIV. Tendo vivenciado três pontificados, espero contra todas as expectativas que ele continue purificando a Igreja do pecado institucional e de seu acobertamento. Ao longo das décadas, as revelações de aliciamento, abusos e manipulação psicológica me chocaram.
Desmond Tutu disse certa vez que a neutralidade em situações de injustiça não é virtude, mas cumplicidade. É por isso que me sinto devastada quando Leão cita o direito do acusado ao devido processo legal, enquanto os direitos humanos e o sofrimento das vítimas, que aguardam indefinidamente por justiça e reparação, parecem ser subestimados.
Existe um conhecido ditado jurídico que diz que justiça tardia é justiça negada. Um denunciante muitas vezes sofre exclusão social, isolamento e luta para sobreviver, enquanto o acusado raramente é afastado do ministério e, às vezes, aqueles envolvidos em acobertamentos chegam a liderar comissões de proteção. Parece que a presunção de inocência não impede a transferência ou promoção do acusado para um cargo superior.
Em contrapartida, Jesus, nos Evangelhos, jamais permanece um mero espectador silencioso, mas assume a responsabilidade moral pela justiça restaurativa, incluindo a conversão dos pecadores. Contudo, clérigos acusados de "quebrar e devorar a carne de seu rebanho" são, em alguns casos, protegidos por seus pares dentro das estruturas de responsabilização existentes.
O episcopado possui autoridade judicial, canônica, jurídica e pastoral, mas a autoridade moral precisa ser conquistada. Por que não há muitos exemplos de mulheres consagradas na Índia recebendo justiça na Igreja? Por que as freiras hesitam em denunciar abusos? O modus operandi para acobertar os crimes é claro: as vítimas são tratadas como terceiras partes em seus próprios casos.
O foco de Leão XIV na genuína necessidade do devido processo legal apresenta graves lacunas que impedem a responsabilização que o Papa Francisco tentou estabelecer através da Vos Estis Lux Mundi, a qual é pouco conhecida, compreendida ou implementada adequadamente.
Uma freira é consolada durante um protesto em 13 de setembro de 2018, em Cochin, Índia. O protesto exigia justiça após uma ex-superior religiosa acusar o bispo Franco Mulakkal, de Jalandhar, de estupro. Freiras indianas questionaram o silêncio da Igreja no caso de estupro e expressaram apoio à freira denunciante após um tribunal absolver Mulakkal de todas as acusações em 14 de janeiro de 2022. (CNS/Reuters/Sivaram V)
Isso levanta uma questão prática: como os mecanismos de responsabilização podem ser fortalecidos para que o devido processo legal não se torne uma barreira à justiça? Sugiro uma plataforma online global com auditores independentes para receber denúncias e armazenar com segurança os documentos submetidos. Além disso, a Igreja universal poderia criar um aplicativo de IA multilíngue e canônico para entrevistas e análise documental, com a permissão das partes, reduzindo consideravelmente o tempo dos processos. Justiça implica transparência e precisa ser vista sendo feita.
Além disso, formular cânones não basta para alcançar a justiça restaurativa. Aqueles que sofreram abusos precisam de espaços seguros para serem ouvidos e acreditados, para receberem solidariedade e para presenciarem uma responsabilização significativa — por meio da suspensão do acusado, sanções apropriadas e reforma institucional da Igreja. A cura integral é essencial para a justiça restaurativa. Sanções secretas não podem curar uma Igreja ferida!
Rosa Uchem
A Irmã Rose Uchem é uma Irmã Missionária do Santo Rosário e ex-professora sênior da Universidade da Nigéria, em Nsukka, e da Escola Internacional de Teologia Spiritan, em Attakwu, Enugu, Nigéria. Ela possui doutorado em estudos teológicos pela Graduate Theological Foundation, em Indiana, e mestrado em religião e educação religiosa pela Universidade Fordham, em Nova York. Anteriormente, estudou no Instituto Milltown de Teologia e Filosofia, em Dublin. Entre suas numerosas publicações, destaca-se " Superando a Subordinação das Mulheres na Cultura Africana Igbo e na Igreja Católica". Uchem é diretora fundadora da IFENDU para o Desenvolvimento das Mulheres, uma organização não governamental que promove o reconhecimento da igualdade de dignidade para as mulheres.
Tendo em vista o primeiro aniversário do pontificado do Papa Leão XIV, é inevitável refletir sobre a resposta contínua da Igreja à crise dos abusos, particularmente sob sua liderança. Pode-se dizer que a conquista neste período é um esforço complexo e em constante evolução para confrontar tanto as falhas do passado quanto as responsabilidades do presente.
Tornou-se cada vez mais claro que a crise não se resume a incidentes isolados de má conduta pessoal. Em vez disso, é sistêmica, envolvendo padrões de clericalismo, silêncio institucional e responsabilização inadequada. Era necessária uma resposta mais abrangente e autocrítica do que a que ocorreu.
Uma conquista notável é a proteção. Agora existem políticas em vigor — mais estruturadas, abrangentes e com uma orientação preventiva em muitas áreas da Igreja. Os programas de treinamento existentes, os procedimentos de denúncia e os escritórios de proteção demonstram uma tentativa séria de incorporar a proteção à vida da Igreja. Isso difere significativamente das abordagens anteriores, mais focadas em resultados rápidos e pontuais.
No entanto, muito mais poderia ser feito. Percebo o risco de que a proteção se torne uma questão de "cumprir toda a justiça" em vez de internalizar genuinamente uma cultura de cuidado. Ainda mais preocupante é a atitude de algumas autoridades que parecem mais preocupadas em não serem consideradas insuficientes do que em oferecer apoio genuíno às pessoas afetadas. Além disso, a implementação é desigual, o que levanta dúvidas sobre se a proteção é realmente universal.
Membros de ordens religiosas de todo o mundo participam da abertura de um workshop de três dias sobre proteção de menores no escritório da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores em Roma, em 17 de novembro de 2025. (CNS/PCPM/Marco Cordone)
Uma dimensão particularmente marcante da resposta recente tem sido a reforma, e em alguns casos a supressão, de certas congregações religiosas. Essas intervenções revelam uma compreensão ampliada do abuso: não apenas da má conduta sexual, mas também do dano espiritual e psicológico, envolvendo o exercício de formas distorcidas de autoridade. Essas ações são louváveis, indicando uma disposição para confrontar a disfunção em nível estrutural. No entanto, levantam questões importantes sobre o devido processo legal e a transparência.
Em última análise, a questão mais profunda pode residir na necessidade de transformação cultural. Sem dúvida, políticas e sanções são necessárias. Contudo, sem uma mudança correspondente na forma como a autoridade é entendida e exercida, elas permanecem insuficientes. Para que uma mudança significativa se consolide, é vital combater o clericalismo, fomentar uma maior participação dos leigos, especialmente das mulheres, e cultivar a humildade na liderança.
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