01 Mai 2026
"E Jesus de Nazaré? Este católico de verdade continua entre as minorias da sociedade – não necessariamente minoria em números. Jesus permanece sendo o verdadeiro homem, o ser humano por excelência; o pão vivo que desceu do céu; o simples; a essência do amor humano. É com ele que se aprende a ser homem e a ser mulher de verdade".
O artigo é de Daniel Luiz Medeiros.
Daniel Luiz Medeiros possui especialização em Sagrada Escritura, pelo Centro Universitário Claretiano, é bacharel em Teologia, pelo Studium Theologicum e licenciado em Filosofia, pelo Centro Universitário Campos de Andrade.
Eis o artigo.
Salve Maria Imaculada e que viva Cristo Rei! Ou melhor, vamos direto ao assunto.
Jesus de Nazaré, eis um católico de verdade. Sim, este é católico por excelência, de acordo com a etimologia da palavra católico e sua interpretação. Sua humanidade está aberta ao diálogo com todos, acolhe a todos universalmente, independentemente da nação, raça, religião ou posicionamento político. Ele é aquele que nos ensinou a sermos católicos a partir de seu exemplo. E é por isso que a Igreja, querida por Deus desde a criação, nascida do lado aberto de Cristo na Cruz, propagada a partir de Pentecostes, é, em sua essência, católica.
Mas, como nem tudo – infelizmente – permanece fiel a sua essência, nós, católicos, deturpamos e deturpamos (pretérito perfeito e presente do indicativo) a mensagem de Jesus. Se em sua essência católico é acolher a todos, numa postura de diálogo e empatia com o outro, em diversos círculos do catolicismo o que se vê é o contrário: a separação do “joio” e do “trigo”!
Julgamento antecipado – Jesus não pediu isso – feito por parte daqueles que não compreendem bem a fé que receberam no batismo. Fenômeno oriundo provavelmente da deficiência intelectual e de uma fé imatura presente em parte significativa do clero. Trata-se de uma doença altamente contagiosa que põe em risco os mais vulneráveis: os leigos que não tiverem e nem têm a oportunidade de aprofundar sua fé através do estudo da Filosofia e da Teologia. A impressão que dá é que existe nessas pessoas – seja ministro ordenado, seja leigo – uma insegurança inconsciente em dialogar com a realidade. Assim, une-se o útil ao agradável: o medo paralisante de pôr em dúvida as próprias convicções, por um lado, com a preguiça intelectual, de outro. “Melhor é nos fecharmos naquilo que já pensaram por nós, afinal de contas, a tradição da Igreja (principalmente a escolástica tomista) já pensou e nos entregou tudo; resta agora preservarmos esse tesouro do modernismo” – é o que suponho que pensam.
Aliás, falam tanto em modernismo, um conceito descontextualizado para contextualizar a crise de moral e de fé em nosso tempo. Enquanto vivenciamos aquilo que os intelectuais classificam como pós-modernidade, os irmãos fracos na fé ainda estão combatendo o modernismo, aquele condenado (já tardiamente) pela Igreja na pessoa do Papa São Pio X.
Acreditam que estudar o Catecismo da Igreja Católica (e talvez também o Código de Direito Canônico) é o bastante para se tornar um teólogo e instruir os demais irmãos católicos – seja leigo, seja clérigo (inclusive para enquadrar Jesus de Nazaré dentro dos parâmetros ‘doutrinais’ da Igreja). Não estou aqui desmerecendo o valor e a importância do estudo do Catecismo – e importante dizer, refiro-me à última edição, pós Vaticano II. Pelo contrário, penso ser uma leitura obrigatória, juntamente com a Sagrada Escritura, para o católico conhecer sua fé. Minha crítica se refere à falta de aprofundamento contextualizado da doutrina, o que requer um estudo mais acurado da Sagrada Escritura, levando em consideração as contribuições das ciências como: Filosofia, História geral, História das Religiões, História da Igreja, Astronomia, Ciências Sociais, Antropologia, Psicologia, Política, enfim, da cultura em geral. E isso não é modernismo, mas, sim, pensar a teologia com os pés no chão, dentro da realidade em que vivemos.
Substitui-se o diálogo – algo também ensinado por Jesus – pelo símbolo da guerra, inspirado, quiçá, numa interpretação veterotestamentária carente da luz dos Evangelhos. Triste retrocesso febril, fruto da insegurança existencial de pessoas débeis na fé, e que por isso necessitam de boa oratória (e às vezes até mesmo do grito) para convencer aqueles que não se sentem convencidos pelo exemplo de vida que dão.
Os profetas que dão exemplo de vida são hostilizados, como é o caso de um bom padre da Arquidiocese de São Paulo, silenciado oficialmente pela própria Igreja. Já os profetas que falam alto e se impõe com a força da oratória – vazia de conteúdo e repleta de falácias (é preciso dizer) –, permanecem livres da censura eclesiástica nas redes sociais, disseminando conteúdos “farisaicos” e impondo mais fardo sobre os ombros dos irmãos na fé.
Diante do medo de perderem a fé imatura que possuem, ordenados e leigos se agarram em fundamentalismos perigosos e até mesmo assustadores. Isso se soma à “autoridade” que possuem para falar – seja pelo status de sacerdote, seja pela força da oratória, seja pelo número de seguidores que têm nas redes sociais. Como católico, que estudou Filosofia e Teologia, sinto vergonha alheia por tantos discursos doutrinais, moralistas e pseudoteológicos, carregados de reducionismos, receitas mágicas e lista do que pode e não pode, propagados como verdades de fé por aqueles que também estudaram Filosofia e Teologia.
E não para por aí. O medo de perder a autoridade da fé fundamentalista se une ao medo que os machos de plantão têm de perderem seus “privilégios”. Vantagens provenientes pelo fato de terem nascidos homens: o poder de decisão na família, o “direito” a uma mulher submissa, que cuida da casa e dos filhos, os melhores cargos e salários no trabalho, e por aí vai... (ou seja, “homem no papel de homem e a mulher no papel de mulher”) além da possibilidade de poderem esconder suas fraquezas (entenda-se como quiser) por meio de uma couraça rude de homem valente e de pessoa de bem. Esses machos encontraram no fundamentalismo cristão um forte aliado.
Resultado: a febre subiu, atingindo agora o grau de recrutar homens para aprenderem a ser homens, inclusive com o apoio de alguns padres e de muitas mulheres cristãs! Eis o desespero e apelação dos machos ressentidos. Eis a genealogia de certa moral cristã em ação. Moral dos ressentidos que temem temerosamente e choram às escondidas o empoderamento feminino. Homens dentre os quais alguns nem sequer têm clareza da própria identidade sexual. Mas não importa, o momento pede para que se reúnam. “Homens, uni-vos!”, gritam. Querem passar a imagem de que a figura masculina está sendo perseguida. Eis a trama da Revolução cultural diante da tragédia do empoderamento das mulheres!
E Jesus de Nazaré? Este católico de verdade continua entre as minorias da sociedade – não necessariamente minoria em números. Jesus permanece sendo o verdadeiro homem, o ser humano por excelência; o pão vivo que desceu do céu; o simples; a essência do amor humano. É com ele que se aprende a ser homem e a ser mulher de verdade.
Já o Jesus catolizado, preferencialmente identificado como Nosso Senhor Jesus Cristo, o Cristo Rei, Todo-Poderoso, Amor (mas também Justiça), Santíssimo Sacramento do Altar, permanece com a minoria ressentida, fracos na fé, oportunistas, narcisistas, etc. Afirmo aqui, com convicção: esse Jesus catolizado não é católico! Estão falando, antes, de um grande Rei justiceiro, curandeiro (embora o diabo também cure – isso aprendi com aquele frei tão comentado ultimamente), que gosta de lugar de destaque e que quer os seus a sua direita.
Não estou ironizando os títulos e atributos de Jesus, consolidados pela Tradição. Tampouco desconsiderando o Sacramento da Eucaristia e a presença real de Jesus. Mas, a verdade seja dita: a imagem do rei glorioso, do Deus todo-poderoso, de um ídolo salvador e curandeiro, adorado e exaltado por mãos ungidas de ministros ordenados são as figuras preferidas do povo febril que não conhece a Jesus de Nazaré.
Povo que delira em meio à pós-modernidade e que busca suas seguranças na rigidez de doutrinas e normas que já não têm espaço na sociedade atual; pessoas que rezam para o deus que já morreu há um bom tempo.
Jesus catolizado é a febre que está matando muita gente. E vale dizer, esse modelo de Jesus não está presente somente entre os católicos, mas também entre evangélicos, entre pseudocristãos, entre alguns ateus e entre muitos oportunistas simpatizantes de uma determinada estrutura piramidal e de uma convenção social que inclui a todos (cada um em seu devido lugar, é claro): alguns no topo, outros no meio e a grande maioria mais abaixo; mas inclui a todos, isso que importa. Eis o que está por detrás desse Jesus catolizado, que de católico não tem nada!
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