30 Abril 2026
"Construir uma Igreja com identidade própria, a partir dos povos originários, requer um processo contínuo de diálogo que os reconheça como sujeitos e transforme práticas e estruturas", escreve Monica Benavides, em artigo publicado por Avvenire, 28-0-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Monica Benavides é religiosa da Congregação das Irmãs da Divina Vontade. Ela pertence à comunidade indígena Pastos y Quillacingas na região de Nariño, Colômbia. Estudou ciências religiosas, catequese, pedagogia universitária e teologia. Participa da equipe consultiva teológica da presidência da Confederação Latino-americana de Religiosos - CLAR.
Eis o artigo.
Do Equador, o VIII Simpósio de Teologia Indígena abriu um espaço que acolheu experiências, narrativas encarnadas e práticas comunitárias. Em Riobamba, aflorou uma reflexão que coloca no centro a necessidade urgente de uma Igreja autóctone com identidade própria, nascida dos povos originários. A escuta de suas experiências e serviços comunitários nos permitiu reconhecer que a teologia não pode ser pensada fora das práticas culturais e simbólicas que sustentam a vida das comunidades; por essa razão, a teologia indígena se afirma como uma forma legítima de compreender a fé a partir da vida. Uma leitura crítica da realidade revelou problemáticas estruturais comuns, particularmente o impacto do extrativismo e a imposição de uma lógica que fragmenta a existência. Essa dinâmica produz desapropriação, enfraquecimento do tecido comunitário e perseguição dos povos que habitam os territórios; também gera migração, desenraizamento e perda de identidade, com impacto particular sobre os jovens, que enfrentam tensões entre sua herança cultural e a globalização. Em contraste com a cisão moderna entre material e espiritual, as cosmoexistências indígenas concebem a vida como uma totalidade na qual a terra é um ser vivo e um lugar sagrado. Por essa compreensão são guiadas decisões e práticas políticas, sociais e culturais que sustentam a vida.
No entanto, a ignorância dessas perspectivas dificulta o reconhecimento de outras formas de viver a fé, o que evidencia a necessidade de recuperar um olhar histórico-sapiencial sobre Jesus, aberta ao diálogo com as dimensões cosmogônicas indígenas. Falar de uma Igreja indígena significa reconhecer a diversidade como parte constitutiva da catolicidade e afirmar uma teologia que brota da vida, gerada por práticas comunitárias em que a fé se encarna nas tradições andinas, amazônicas e mesoamericanas. Nesse modo de sentir e pensar, os povos deixam de ser destinatários passivos e assumem o papel de sujeitos, e a comunidade torna-se o eixo que gera ministérios nascidos dos dons do Espírito, ligados ao serviço e ao cuidado da vida. Entendida como maloca, a Igreja indígena expressa uma eclesiologia com um “rosto próprio”, enraizada na cultura, na espiritualidade e na experiência de fé dos povos indígenas, bem como na comunidade que se sustenta por meio das próprias sementes do Verbo, das línguas, dos símbolos e dos ministérios.
A maloca configura-se, assim, como um microcosmo e mediação teológica de uma Igreja participativa e interconectada, na qual a fé se entrelaça com a vida cotidiana e a memória ancestral, encarnando comunhão, hospitalidade e harmonia orientadas para o Bem Viver. A dimensão ecológica destaca a inter-relação com a Terra, que vincula a fé à sua defesa e aos seus direitos. Embora a Igreja tenha progredido no cuidado com a nossa Casa Comum, o desafio reside em assumir essa tarefa de forma mais coerente. A sinodalidade também se apresenta como um caminho necessário, pois caminhar juntos, escutar e discernir em comunidade são práticas já presentes entre os povos, onde o "corazonar" expressa uma forma específica de deliberação coletiva. E a liturgia torna-se um espaço privilegiado de inculturação, integrando línguas, símbolos e rituais.
A contribuição das mulheres tece o tecido da vida comunitária, a transmissão da memória e a experiência espiritual. Sua ministerialidade não se define por funções formais, mas sim como uma prática de cuidado que desafia modelos teológicos que tornaram sua voz invisível.
Essa ministerialidade se expressa no cuidado do território, na resistência diante das violências estruturais, na transmissão de saberes e na criação de espaços coletivos de ação e apoio mútuo. Integra processos de cura que conectam corpo, comunidade e território, reconstrói narrativas próprias e promove economias de reciprocidade. Assim, não apenas sustenta a vida comunitária, mas também desafia as estruturas de poder e abre caminhos alternativos, projetando uma Igreja com rosto e coração próprios, encarnada na realidade. Embora promova uma Igreja mais sinodal e intercultural, persiste a tensão quanto ao seu reconhecimento institucional. Construir uma Igreja com identidade própria, a partir dos povos originários, requer um processo contínuo de diálogo que os reconheça como sujeitos e transforme práticas e estruturas. A jornada iniciada em Riobamba permanece aberta e requer concretização, pois a escuta implica transformar a maneira de compreender a presença de Deus nos povos, onde o Evangelho se expressa em múltiplas formas e a Igreja se configura como Povo de Deus em caminho compartilhado.
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