28 Abril 2026
Estamos “treinando” nossos cérebros para a fadiga constante e o esquecimento? Conversamos com a neurocientista María José Rubio, professora da graduação em Psicologia e do mestrado em Neuropsicologia Clínica, da Universidade Internacional de Valência, sobre o impacto cognitivo que o scroll infinito, as redes sociais e o uso desenfreado de chatbots estão tendo em nossos cérebros.
A entrevista é de Mariana Toro Nader, publicada por Ethic, 27-04-2026. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Recentemente, em uma decisão sem precedentes, um júri nos Estados Unidos condenou a Meta e o Google por criar dependência por meio do design de suas plataformas, especialmente entre menores de idade. Mas esse não é um fenômeno limitado aos jovens. Por que o cérebro atual está se tornando viciado em redes sociais?
Na minha opinião, as redes sociais estão aprendendo a falar a linguagem biológica do cérebro. Não estamos diante de uma simples ferramenta de comunicação, mas de ambientes projetados para explorar mecanismos muito antigos de recompensa, antecipação e necessidade de pertencimento. Cada notificação, cada like e cada novidade ativam circuitos dopaminérgicos relacionados não tanto ao prazer, mas à expectativa de recompensa.
E isso é especialmente poderoso quando a recompensa é variável e imprevisível, porque o cérebro fica engajado, esperando a “próxima”. E algo que nos preocupa é que esta questão é ainda mais delicada para as crianças, porque seu córtex pré-frontal - a região que envolve o autocontrole, planejamento e regulação de impulsos - ainda está amadurecendo.
Há alguns anos, o Dicionário Oxford escolheu “brain rot” a “palavra do ano”. Da perspectiva da neuropsicologia, quão verdadeira é a afirmação de que, em meio ao tsunami de estímulos e sobrecarga de informações, nossos cérebros estão “apodrecendo”?
Eu não diria que o cérebro está “apodrecendo”, porque essa expressão é alarmista demais, mas penso que estamos vendo uma reorganização preocupante de nossos hábitos mentais. O cérebro é plástico, adapta-se ao que fazemos de modo repetido. Se o treinamos na fragmentação, na urgência ou no consumo rápido de estímulos, torna-se mais eficiente nisto, mas menos competente para manter a atenção, tolerar o tédio e para o aprofundamento.
O verdadeiro risco não é a degeneração cerebral no sentido literal. O que deve nos preocupar é a potencial erosão de certas habilidades cognitivas superiores devido à falta de uso. Faço uma analogia: assim como o corpo sofre com o sedentarismo, a mente também se empobrece quando vive instalada na superestimulação e superficialidade. Não é que estejamos pensando menos: pensamos pior, mais rápido e com menos profundidade.
Há alguns anos, os especialistas soam o alarme sobre o declínio em nossa capacidade de atenção e concentração. Johann Hari, inclusive, fala de uma crise de atenção, principalmente devido à hiperconectividade e ao design das plataformas. Quais são os impactos concretos que a neurociência observa no cérebro devido ao scroll infinito, à gratificação instantânea das redes sociais e à hiperconectividade?
Observamos uma combinação muito clara de fadiga da atenção, impulsividade e crescente dificuldade em manter o esforço mental. O scroll infinito elimina o ponto de conclusão, que é muito importante para o cérebro. Antes, uma atividade tinha um começo e um fim; agora, entramos em dinâmicas de consumo ilimitadas, onde sempre há um estímulo a mais esperando. Isto mantém o cérebro em estado de vigilância constante. Além disso, a gratificação instantânea vai moldando nossas preferências. É cada vez mais difícil tolerar processos lentos, complexos ou que não ofereçam recompensa imediata.
Em “Nação Dopamina”, a psiquiatra Anne Lembke alerta sobre o custo pessoal e social da busca desenfreada pelo prazer. Tornamo-nos escravos da dopamina? Como podemos superar essa busca constante do pico de dopamina na internet?
Penso que às vezes simplificamos muito quando falamos da dopamina. A dopamina não é apenas “a molécula do prazer”; ela também intervém na motivação, na antecipação e na busca. O problema é a construção de ecossistemas digitais que a estimulam de modo contínuo, intenso e quase sem atrito. Isto gera um efeito muito claro: o cotidiano começa a parecer pouco.
Uma conversa tranquila, uma leitura longa ou mesmo o descanso ficam em desvantagem frente ao estímulo rápido, brilhante e constante. Para sair dessa lógica não é necessário demonizar a internet, mas, sim, reeducar o sistema de recompensa. E o que isto significa? Bem, voltar a nos familiarizar com o esforço, o silêncio, a espera, e com atividades que não oferecem um prêmio imediato.
Você considera que o uso (e o abuso) das redes sociais e dos motores de busca está levando à fadiga cognitiva? Quais são as consequências dessa fadiga digital sobre a mente humana?
A fadiga cognitiva se tornou uma das grandes epidemias silenciosas do nosso tempo. O cérebro tem uma capacidade limitada para processar informações e tomar decisões, e o ambiente digital o submete a uma sobrecarga constante. Ao passarmos o dia alternando entre notificações, mensagens e tarefas fragmentadas, esgotamos nossos recursos de atenção muito antes de percebermos. Isto se traduz em dificuldade de concentração, irritabilidade, piora na memória de trabalho e sensação difusa de esgotamento mental. Não se trata tanto de um cansaço físico, mas de uma mente saturada por microdemandas contínuas, o que acaba deteriorando a qualidade e a profundidade do pensamento.
Temos menos memória hoje do que há algumas décadas? Se sim, quanto disso se deve ao chamado “Efeito Google” e quanto à preguiça cognitiva gerada pelos chatbots? Ou, melhor dito, estamos caindo no “sedentarismo cognitivo”?
Em termos biológicos, não penso que tenhamos menos memória, embora estejamos mudando profundamente nossa relação com ela. O chamado “Efeito Google” reflete algo muito humano: quando sabemos que uma informação está disponível, tendemos a lembrar menos do conteúdo em si e mais de onde encontrá-lo, o que não é necessariamente negativo. O problema surge quando também delegamos a elaboração do pensamento. Os chatbots podem ser ferramentas muito valiosas para aprender ou explorar ideias, mas também podem ser um substituto do esforço mental e fomentar uma passividade preocupante. Quando paramos de buscar, comparar, memorizar ou argumentar, entramos em uma forma de “sedentarismo cognitivo” que, assim como acontece com o corpo, acaba cobrando seu preço.
Os especialistas estão recomendando a recuperação de práticas milenares como a meditação, a respiração consciente e a atenção profunda. Como neuropsicóloga, o que você recomenda para enfrentar a fadiga digital e a preguiça cognitiva?
Eu recomendaria partir de uma ideia simples: proteger a atenção como se fosse um bem de primeira necessidade, porque é. A atenção determina o que fazemos e quem somos, o que lembramos e como pensamos, e hoje a cedemos com muita facilidade. Na prática, convém introduzir momentos sem telas, reduzir interrupções, trabalhar em blocos de atenção profunda, recuperar a leitura de textos longos ou escrever à mão e aprender a tolerar o tédio sem recorrer ao celular. A isto se somam ferramentas como a respiração consciente e a meditação, úteis para regular o estresse e fortalecer a atenção quando praticadas constantemente. A chave é reaprender a ir mais devagar. Em um ambiente que nos pressiona a reagir, “pensar bem” exige deter-se.
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