Como o Papa está desacelerando os bispos alemães – sem os impedir de vez

Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • O manifesto perturbador da Palantir recebe uma enxurrada de críticas: algo entre o tecnofascismo e um vilão de James Bond

    LER MAIS
  • A socióloga traz um debate importante sobre como as políticas interferem no direito de existir dessas pessoas e o quanto os movimentos feministas importam na luta contra preconceitos e assassinatos

    Feminicídio, lesbocídio e transfeminicídio: a face obscura da extrema-direita que viabiliza a agressão. Entrevista especial com Analba Brazão Teixeira

    LER MAIS
  • Trump usa o ataque para promover sua agenda em meio ao bloqueio de informações sobre o Irã e índices de aprovação em níveis historicamente baixos

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Abril 2026

"Aparentemente, todos os envolvidos estão conseguindo manter o equilíbrio para que o arco não seja esticado em demasia. O Papa não sanciona os bispos e os deixa agir — apesar do "não" às bênçãos formais. Ao mesmo tempo, enfatiza que há questões muito mais importantes na Igreja. Como São João Paulo II teria reagido ao seu sucessor?", escreve o teólogo alemão comentando as declarações de Leão XIV sobre a orientação pastoral "A bênção fortalece o amor — bênçãos para casais que se amam", aprovada no ano passado pela Conferência Conjunta da Conferência Episcopal Alemã (DBK) e do Comitê Central dos Católicos Alemães (ZdK). 

O artigo é de Mario Trifunovic, teólogo, publicado por Katholisch.de, 25-04-2026. 

Eis o artigo.

Leão XIV freou os bispos alemães na questão das bênçãos a casais do mesmo sexo — sem, no entanto, pará-los. É o que parece sugerir o tom de numerosos artigos de jornais e postagens em redes sociais. Mas o que exatamente aconteceu? Na quinta-feira, no voo de volta de sua viagem à África para Roma, Leão XIV foi confrontado com a pergunta de uma jornalista alemã sobre como avaliava a decisão do cardeal-arcebispo de Munique, dom Reinhard Marx, de permitir bênçãos a casais do mesmo sexo em sua arquidiocese.

Concretamente, trata-se de uma carta que Marx enviou recentemente aos agentes pastorais da Arquidiocese de Munique e Freising. Nela, recomendou a orientação pastoral "A bênção fortalece o amor — bênçãos para casais que se amam", aprovada no ano passado pela Conferência Conjunta da Conferência Episcopal Alemã (DBK) e do Comitê Central dos Católicos Alemães (ZdK). Com isso, passaria a ser praticado na Arquidiocese de Munique o que já tinha sido implementado em outros bispados há alguns meses: cerimônias de bênção para casais do mesmo sexo e outros casais que, por qualquer motivo, não podem ou não querem contrair matrimônio na Igreja.

Uma orientação não vinculante

A decisão de Marx causou manchetes em todo o mundo — possivelmente porque se trata de um cardeal que ocupa funções importantes no Vaticano. No entanto, neste caso não se tratou de uma imposição, mas de uma recomendação para seu arcebispado. A orientação pastoral resultante do projeto de reforma alemão Caminho Sinodal não tem por si mesma força vinculante para os bispos — é considerada não obrigatória.

Isso se deve ao fato de que a Conferência Conjunta de representantes da DBK e do ZdK é apenas um órgão de diálogo, sem competência deliberativa. Concretamente: cada bispo pode decidir para o seu bispado como lidar com a orientação — ou simplesmente ignorá-la. Na maioria dos bispados alemães, ela é recomendada ou, pelo menos, tolerada. Alguns bispados alemães, porém, renunciaram a ela em referência à Igreja universal, entre eles Augsburg, Eichstätt, Colônia, Passau e Regensburg. Com a decisão do Cardeal Marx, Munique e Freising passa a integrar os outros treze bispados que já recomendaram ou pretendem recomendar a orientação.

Isso acontece com referência expressa ao documento vaticano de bênção de 2023, aprovado sob o Papa Francisco: a Fiducia supplicans. Nesse documento quase revolucionário, o Dicastério para a Doutrina da Fé, sob o Cardeal argentino Víctor Manuel Fernández, havia abrandado significativamente o rígido "não" às bênçãos de casais homossexuais. Com isso, tornou-se possível a pastores abençoar pessoas em relacionamentos do mesmo sexo — embora sob determinadas condições.

Roma não quer bênçãos formais

A decisão de Roma gerou, à época, um balanço misto, sobretudo no flanco conservador da Igreja católica. Enquanto alguns se indignaram, para círculos mais liberais o documento foi insuficiente. De fato, Fernández deixou claro que em nenhum caso poderia tratar-se de bênçãos solenes ou formais. Concretamente: fica excluído um enquadramento litúrgico, para evitar qualquer confusão com o sacramento do matrimônio. Permanecem permitidas apenas bênçãos mais informais — em comunicado, Fernández falou de "uma questão de 10 ou 15 segundos". O predecessor de Leão havia reconhecido pessoalmente ter realizado tais bênçãos breves.

E mesmo assim, na Alemanha — assim como em outros países europeus — aproveitou-se a luz verde de Roma para ampliar um pouco mais o espaço. As resoluções e exigências do Caminho Sinodal foram incorporadas na orientação pastoral. Mais de dois terços dos bispos alemães haviam votado a favor das cerimônias de bênção — ainda antes da Fiducia supplicans. A crítica, porém, é que a orientação abriu apenas um espaço pastoral limitado, ainda evidenciando a preocupação em distinguir claramente o rito do sacramento do matrimônio.

Diante desse contexto, surge a pergunta: por que a recomendação do Cardeal de Munique provocou agora uma "escalada"? Afinal, ele mal foi além de seus confrades bispos — por exemplo, nos bispados de Limburg ou Rottenburg-Stuttgart. O Cardeal terá agora de contar com uma repreensão do Vaticano? O Papa, de qualquer modo, não ameaçou no avião com medidas canônicas — e se fosse o caso, isso provavelmente já teria acontecido há anos. Em vez disso, Leão enfatizou logo no início de sua resposta à jornalista que para a Igreja há temas mais importantes do que as questões de moral sexual.

O Papa quer preservar a unidade

Quanto às cerimônias de bênção na Alemanha, o Papa declarou ter comunicado aos bispos alemães que não concorda com "esta forma formal de bênção". Não é bem a linguagem de um protesto categórico. Ao mesmo tempo, acrescentou que tudo o que ultrapasse o quadro das bênçãos permitidas pelo Papa Francisco gera mais divisão do que unidade na Igreja. Afirmou ainda que, em sua visão, as questões relativas à sexualidade não estão no centro do ensinamento eclesiástico. Temas como justiça, igualdade e liberdade de mulheres e homens, assim como a liberdade religiosa, têm, a seu ver, prioridade muito maior.

O jesuíta norte-americano James Martin, capelão LGBTQ+ próximo ao Papa Francisco, avaliou a resposta do Papa como "sábia, cuidadosa e bem ponderada". Leão continua a visão de seu predecessor, segundo a qual a Igreja deve estar aberta para "todos, todos, todos" — inclusive para pessoas queer. Martin destacou ainda que, da perspectiva mais ampla do Papa, a unidade da Igreja seria prejudicada caso se fosse além da Fiducia supplicans. Que isso já havia sido observado após a publicação do documento de bênção em dezembro de 2023 é algo de que tanto Leão XIV quanto os bispos devem estar cientes.

Um equilíbrio de todos os envolvidos

Ainda que a Conferência Episcopal Alemã não se manifeste atualmente sobre os comentários do Papa, o ex-presidente da DBK e bispo de Limburg, Georg Bätzing, fez-se ouvir. Ele deixou claro que a orientação continuará sendo a base da prática pastoral e não será retirada. Bätzing foi presidente do Caminho Sinodal quando o documento foi elaborado. Também o ZdK não vê motivo para retirar a orientação pastoral.

Aparentemente, todos os envolvidos estão conseguindo manter o equilíbrio para que o arco não seja esticado em demasia. O Papa não sanciona os bispos e os deixa agir — apesar do "não" às bênçãos formais. Ao mesmo tempo, enfatiza que há questões muito mais importantes na Igreja. Como São João Paulo II teria reagido ao seu sucessor? 

Leia mais