25 Abril 2026
"Não será nada fácil o Brasil começar a levar a sério uma conversa honesta, republicana — sem corrupção conceitual ou efetiva —, para além das saúvas e da 'crítica roedora dos ratos', mas é possível. E a fórmula estaria na educação pública, gratuita, de qualidade, integral e laica.
O artigo é de Vinício Carrilho Martinez, doutor em Ciências Sociais/UNESP e professor da UFSCar; Márlon Pessanha, doutor em Ensino de Ciências/USP e professor da UFSCar; e Ester Dias da Silva Batista, bióloga e mestranda no PPGCTS/UFSCar.
Eis o artigo.
Como seria uma conversa entre Freire, Morin, Bachelard e Gramsci?
A rigor não seria difícil, exceto pelo corte da luta de classes que cabe a Paulo Freire e Gramsci. Porém, conceitualmente, tirando-se a escassez sociológica de Morin, a conversa fluiria bem. No fundo, os objetivos dos quatro são complementares e coincidem na formação do senso crítico, na averiguação séria, realista, teórica e prática do "fazer ciência". A práxis lhes é profundamente conhecida e "praticada" em todos os trabalhos, em todas as manifestações, em todos os afazeres — uns mais, outros menos políticos. Mas, todos politizados.
De modo muito prático, é compreensível que, em razão de uma ciência e de uma epistemologia política minimamente fundamentadas, todos denunciassem qualquer charlatanismo embalado sob nomes e normas de escola cívico-militar, ensino religioso e educação financeira na escola. Simplesmente porque não há ciência e sequer evidência de epistemologia nesse tripé que o mercado financista, espoliativo, improdutivo — tipo Bolsa de Valores — quer impor ao Estado brasileiro e a todas as institucionalidades, a começar pela escola pública — sempre ameaçada pela privatização de governantes do Mal.
Paulo Freire, nosso Patrono da Educação, nos diria hoje, como fez no passado, que a única educação de verdade, sem os recortes de classe, sem a viseira ideológica da dominação (e que é um "dominus": sujeição como coisa), é a educação destinada à emancipação. É óbvio que está falando da educação pública, pois a privada é destinada às elites. Numa fórmula bem simples, cabe dizer que é obrigatória a "proscrição da prescrição": a formação social brasileira "prescreveu", de forma elitista, capacitista e racista (isto é, retrógrada) que o povo pobre, negro e oprimido deve ser "proscrito" da vida social, da política, do mercado, do bem-estar. Daí que, pela negação da negação, a fórmula se apresenta como "proscrição da prescrição" — e essa dialética imporia uma afirmação da educação pública e do povo subordinado, subalternizado.
Contemporâneo de Galileu e Newton, Hobbes nos disse que o conhecimento (ao menos primariamente) é produto das interfaces e das intercorrências entre o mundo real (a natureza que seria dominada pelo empirismo de Bacon) e o nosso cérebro: o que hoje chamamos de sinapses, em Hobbes, pode ser lido como "conatus" ou "endeavour" e, numa tradução simples, quer dizer "conhecer a realidade pelos sentidos" — isso para quem tem funções regulares.
Com certeza, sobretudo diante dos negacionismos e dos racismos que se multiplicam pelo mundo afora, ainda mais com o impulso dos algoritmos programados por fascistas, nas redes antissociais, Camus, Saramago, Machado de Assis, e um especial de Asimov, entrariam nesta conversa de gente grande, iluminada, que nunca se furtou ao esforço científico.
Machado de Assis nos ensinou que até "doutores" (por ausência da vontade do córtex frontal) se transformam num tipo de Alienista — ou alienado de pai e mãe, como diz o povo simples (chamado de Bestializado, nas letras denunciantes de José Murilo de Carvalho) —, inclusive quando estão sob aquela enorme Peste contada por Camus (e no Estado de Sítio que vem depois). Felizmente, no Brasil, ainda resiste o SUS, protegido pela Constituição de 1988.
Nessa conversa franca, Saramago chamaria a atenção para os Ensaios sobre a cegueira — que ninguém lê, fingindo deficiência visual — porque o risco de contágio pela Treva branca é gigantesco; além do racismo que comporta. E Asimov não ficaria quieto, lhes falando sobre um mundo desatinado, dominado por "inteligências altamente artificiais" — tão foras do ar que não cabe o Humano —, que num dia desses quem vos falará será um sujeito (robótico) que se autodenomina de Eu Robô!
Nesses parênteses, digamos que esse Esforço científico reúne o senso crítico emancipador — que supera o Bom Senso do senso comum —, o Pensamento científico (que se espalha para além do "fazer ciência") e dos elementos inaugurais do Espírito científico.
É nesse ponto que Bachelard se inscreveria de maneira decisiva na conversa. Diria que o senso comum, mesmo bem-intencionado, não é nada mais que o apego ao aparente e ao pensamento imediato. Com ironia, diria que algumas afirmações do senso comum são tão precisas e salvadoras, quanto são incertas e imprecisas as formas com que se chegou a elas. Diria também que se nos prendêssemos ao sucesso do empreendimento científico, sem o continuísmo crítico, poderíamos ir de motores aos freios do conhecimento.
Morin nos obrigaria a entender, para só depois entrarmos na conversa, que o Pensamento científico amplifica o conhecimento científico, engloba-o em metodologias e alcance, mas o supera, visto que nos faz conhecer uma forma ampla de abordagem do próprio conhecimento — uma epistemologia da sociedade, da cultura, do Estado e do conhecido Saber. E é claro que isso é consciência — ou, nas suas palavras, é a Ciência com consciência. Como não existe consciência pairando no ar, essa consciência conduz a práticas notáveis e chamadas de práxis: conhecer para transformar. Nesse momento, o Paulo Freire impositivo nos obrigaria a entender porque "consciência é a consciência da consciência".
Freire esteve relendo Gramsci antes dessa conversa, mas, de antemão, Gramsci lhe teria dito que só se legitima um conhecimento com a transformação — e que as assim chamadas metodologias precisam ouvir Marx ("os educadores precisam ser educados") —, afinal, somente o conhecimento complexo, mas organizado de forma orgânica, é do interesse da Humanidade.
A única forma de se fazer tal façanha, tal é a grandeza e condição, é pela via da Educação omnilateral: sem que se esqueça da técnica, da arte, da estética, da ética, da política. Gramsci contaria sua fórmula: "o Homo sapiens precisa se unir ao Homo faber", pois não há conhecimento legitimamente humano, enquanto a classe trabalhadora, os produtores sociais, forem colonizados como Homo faber. A conversa continuaria em direção ao reconhecimento da necessidade de uma formação integral, não orientada pela exploração do homem pelo homem, mas pela constituição plena do sujeito.
Não será nada fácil o Brasil começar a levar a sério uma conversa honesta, republicana — sem corrupção conceitual ou efetiva —, para além das saúvas e da "crítica roedora dos ratos", mas é possível. E a fórmula estaria na educação pública, gratuita, de qualidade, integral e laica.
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