Ser professor em tempos de desgaste e invisibilidade. Artigo de Robson Ribeiro

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25 Abril 2026

"Ser professor, hoje, é muitas vezes habitar um lugar sem crédito. Mas talvez justamente aí resida a grandeza da docência: permanecer formando mesmo quando o mundo parece já não saber honrar aqueles que o tornam habitável"

O artigo é de Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), professor de Ensino Religioso do Colégio Santa Catarina - Juiz de Fora, professor de Filosofia, Sociologia e de Projeto de Vida do Centro Educacional do Raciocínio e Aprendizagem Socializada - RAS em Juiz de Fora.

Eis o artigo.

Há uma condição dolorosa que atravessa hoje a experiência docente e que nem sempre é dita com a devida franqueza: ser professor tornou-se, muitas vezes, ocupar um lugar sem crédito e sem prestígio. Não porque ensinar tenha perdido dignidade, mas porque a cultura contemporânea parece ter enfraquecido o reconhecimento social daquilo que o professor representa.

Durante muito tempo, a figura do mestre esteve associada à autoridade intelectual, à mediação do saber e à formação humana. Havia, no gesto de ensinar, um reconhecimento público de sua relevância. Hoje, em muitos contextos, esse lugar parece erodido. O professor é frequentemente cobrado, vigiado, responsabilizado por impasses estruturais, mas raramente valorizado na mesma medida.

Espera-se que ele resolva problemas pedagógicos, emocionais, sociais e até familiares. Espera-se que adapte conteúdos, acolha vulnerabilidades, administre conflitos, preencha plataformas, responda a métricas, produza evidências e, ainda assim, mantenha resultados. Mas esse acúmulo de exigências nem sempre vem acompanhado de confiança ou prestígio; ao contrário, muitas vezes vem acompanhado de suspeita.

Há algo profundamente sintomático nisso. A profissão que deveria ser sustentada pela confiança pública passa, em certos ambientes, a existir sob a lógica da contestação permanente. A palavra do professor é relativizada, sua autoridade confundida com rigidez, sua exigência interpretada como excesso. Como se orientar fosse constranger. Como se corrigir fosse violência.

Nesse cenário, a condição docente se converte, não raro, numa experiência de adaptação sem reconhecimento. O professor precisa ceder, reformular, ajustar-se continuamente para manter condições mínimas de trabalho, mas o faz, muitas vezes, sem o crédito simbólico que legitima sua missão.

E essa perda de prestígio não é mero problema corporativo; é sintoma de uma crise mais profunda. Porque quando uma sociedade desvaloriza seus professores, ela está, no fundo, relativizando o valor da própria formação. Onde o saber perde autoridade, cresce a opinião imediata; onde o mestre perde lugar, o improviso ganha status.

Há também um desgaste silencioso na relação com as famílias. Não raro, a escola é chamada a compensar ausências formativas, mas, ao mesmo tempo, vê suas normas contestadas. Exige-se que o professor acolha tudo, adapte tudo e suporte tudo — mas sem lhe conceder a autoridade correspondente para educar.

E, ainda assim, apesar dessa erosão simbólica, o professor continua. Continua sustentando rotinas, oferecendo referências, organizando sentidos em meio ao ruído. Há nisso algo quase paradoxal: uma profissão socialmente fragilizada e, ao mesmo tempo, civilizatoriamente indispensável.

Talvez um dos dramas do nosso tempo seja este: vivemos numa sociedade que proclama a centralidade da educação, mas frequentemente esvazia o lugar de quem educa.

Recuperar o prestígio do professor não é nostalgia de um passado idealizado. É reconhecer que não há formação ética, cidadã e humana onde o educador seja reduzido a executor de demandas ou gestor de adaptações.

Ser professor, hoje, é muitas vezes habitar um lugar sem crédito. Mas talvez justamente aí resida a grandeza da docência: permanecer formando mesmo quando o mundo parece já não saber honrar aqueles que o tornam habitável.

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