O alerta é do sanitarista e pesquisador em saúde coletiva Leonardo Mattos. Para ele, tanto na formação médica quanto nas políticas de saúde, o principal desafio reside na desprivatização da saúde.
A expansão vertiginosa dos cursos de medicina no Brasil, impulsionada sobretudo pelo setor privado, recolocou no centro do debate público a qualidade da formação médica e seus impactos diretos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). Para o sanitarista e pesquisador em Saúde Coletiva Leonardo Mattos, a precarização do ensino é consequência direta da mercantilização da educação e da lógica de mercado que passou a orientar a abertura de novas vagas.
Para ele, o desempenho insatisfatório da maior parte dos estudantes nas avaliações nacionais acende um alerta que ultrapassa os muros das universidades e alcança os pacientes e o próprio projeto constitucional de saúde pública. Produto da redemocratização e uma das mais relevantes conquistas inscritas na Constituição de 1988, o SUS nasceu atrelado a um ideal civilizatório de universalidade e equidade.
Na avaliação de Mattos, qualquer ameaça a esse pacto democrático repercute imediatamente sobre o sistema de saúde. Doutor em Saúde Coletiva, pesquisador da UFRJ e da Fiocruz, o professor sustenta que o principal desafio das próximas décadas é a desprivatização do sistema de saúde. Em um país onde cerca de 75% da população depende exclusivamente do SUS, a formação de médicos não é apenas uma questão acadêmica, mas estratégica. Grande parte dos recém-formados ingressa em um sistema público financiado por recursos coletivos e responsável por atender a maioria dos brasileiros. Nesse ponto de interseção entre ensino, mercado e política pública está a vida do paciente, diretamente impactada pela qualidade da formação recebida pelos profissionais que o assistem.
A entrevista é de Elstor Hanzen, publicada por ExtraClasse, 17-04-2026.
Os resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) mostraram que mais de 30% dos cursos de Medicina tiveram desempenho insatisfatório, com predominância de instituições privadas entre os piores avaliados. O que esse cenário revela sobre a formação médica no Brasil?
À luz dos resultados do Enamed e do Revalida, os dados sobre a formação médica revelam um cenário alarmante: uma parcela significativa dos médicos formados no país não atinge o nível mínimo de qualidade esperado para o exercício profissional e para a prestação de atendimento adequado nos serviços de saúde — sejam hospitais, clínicas, unidades de atenção primária ou serviços de urgência e emergência, tanto no setor público quanto no privado.
Trata-se de uma situação perigosa, porque afeta diretamente a saúde e o bem-estar da população. Uma formação deficiente compromete a qualidade do atendimento e impõe riscos concretos à saúde individual e coletiva. Pacientes atendidos por profissionais despreparados podem receber diagnósticos e tratamentos errados, o que pode resultar no agravamento de quadros clínicos, em efeitos adversos e, em casos extremos, em óbitos. Em contextos de urgência e emergência, nos quais decisões rápidas e precisas são determinantes, falhas na formação resultam em consequências fatais.
E qual é o impacto desse problema no SUS e na assistência ao paciente?
Uma parcela expressiva desses médicos recém-formados ingressa no Sistema Único de Saúde, financiado com recursos públicos e responsável por atender a maior parte da população brasileira, especialmente aqueles que não dispõem de plano de saúde. Hoje cerca de 75% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS. Nesse contexto, a formação inadequada dos profissionais compromete a efetividade, a resolutividade e a qualidade do sistema público de saúde.
O impacto é direto: coloca em risco a vida de milhões de pessoas e fragiliza a própria prestação do serviço público. É igualmente fundamental destacar a importância da formação humanística na medicina. Profissionais mal-preparados podem deixar de considerar aspectos sociais, culturais e econômicos que influenciam diretamente o processo saúde-doença.
Em um país marcado por profundas desigualdades, compreender o contexto de vida do paciente, sua história, suas relações e suas condições materiais, é essencial para garantir um cuidado integral e de qualidade. O médico precisa ter essa visão ampliada e sensível ao tratar cada paciente.
A má-formação médica e a expansão dos cursos de Medicina têm qual relação?
Um dos pontos centrais evidenciados pelo Enamed é a relação entre a expansão dos cursos de medicina na última década e a qualidade da formação oferecida. O estímulo à abertura de instituições privadas não foi acompanhado dos investimentos necessários em infraestrutura, qualificação do corpo docente e consolidação de padrões acadêmicos rigorosos. Em muitos casos, observa-se a priorização de interesses mercadológicos em detrimento da excelência formativa, explorando um segmento altamente rentável.
A lógica estritamente lucrativa tem se mostrado desastrosa para assegurar qualidade na formação médica. A mercantilização da educação médica está associada à piora da qualidade da formação, refletida no desempenho dos estudantes nas avaliações nacionais. O tema exige um debate público qualificado e a revisão das políticas de expansão do ensino superior na área da saúde.
E neste cenário as universidades públicas têm papel relevante?
As universidades públicas, com trajetória consolidada em ensino, pesquisa e extensão, demonstram a relevância de um modelo que integra produção de conhecimento, formação crítica e articulação com o sistema de saúde. Além disso, por meio de políticas de ações afirmativas, têm apresentado maior capacidade de promover diversidade e inclusão social na formação médica.
A interiorização dos cursos de Medicina, com o objetivo de ampliar o acesso e suprir a carência de profissionais em regiões afastadas, é uma iniciativa meritória. Contudo, quando implementada predominantemente por meio de instituições privadas, os resultados têm sido, em muitos casos, pífios, tanto no que se refere à fixação de profissionais quanto à qualidade da formação ofertada.
Medicina ainda é um curso muito elitizado?
Sim. As altas mensalidades e o consequente endividamento dos estudantes constituem barreiras significativas de acesso, contribuindo para a manutenção da elitização do curso. Esse perfil impacta não apenas quem consegue ingressar na profissão, mas também a forma como o exercício médico se organiza, muitas vezes orientado pela necessidade de retorno financeiro rápido, em detrimento da atuação em áreas de maior vulnerabilidade social.
Diante desse quadro, é imperativo reconhecer que a expansão dos cursos de Medicina, embora necessária para ampliar o número de profissionais, ocorreu de maneira desequilibrada, com forte concentração no setor privado e sem garantias suficientes de qualidade. É fundamental fortalecer e ampliar as universidades públicas, com investimentos consistentes em infraestrutura, qualificação docente e integração com os serviços de saúde.
Essa estratégia, ainda que mais complexa e onerosa no curto prazo, tende a produzir resultados mais sólidos e sustentáveis, contribuindo para a formação de médicos tecnicamente competentes, eticamente comprometidos e socialmente responsáveis. A ampliação do número de médicos era necessária, mas o modo como foi conduzida a expansão revelou distorções que precisam ser enfrentadas com urgência.
O avanço das tecnologias na medicina tem sido frequentemente apresentado como solução para os problemas do sistema de saúde. Que relação e perigo há nesta concepção?
A discussão sobre o avanço tecnológico na medicina e sua promessa de solucionar os problemas de saúde não é recente. Essa perspectiva acompanha a medicina e os sistemas de saúde desde o século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, com o desenvolvimento da indústria farmacêutica, de equipamentos médicos e a expansão dos hospitais.
A partir de então, vacinas e medicamentos foram vistos como soluções definitivas, um olhar que perdura no último século. Essa tendência se manifesta atualmente com a indústria 4.0, a inteligência artificial e as transformações na saúde digital. O perigo de encarar a tecnologia como uma solução universal reside na possibilidade de não resolver os problemas estruturais dos sistemas de saúde. É fundamental garantir o acesso a tecnologias que aprimorem a qualidade de vida, proporcionem tratamentos mais eficazes e seguros.
No entanto, se o sistema de saúde não estiver organizado para atender a todos, de forma igualitária e com qualidade, abrangendo todo o ciclo de vida e as necessidades de saúde, como preconiza o SUS, a incorporação acrítica da tecnologia pode acarretar custos elevados, prescrições inadequadas e um consumo excessivo de recursos.
A consequência é o aumento dos custos, tanto nos planos de saúde quanto no sistema público. De nada adianta a tecnologia de ponta se sua incorporação não for orientada por políticas de saúde mais abrangentes, universalistas e humanistas, que priorizem a resolução dos problemas de saúde. É crucial, portanto, cautela com a ideia de que a tecnologia é a solução para todos os problemas de saúde.
Como avalia a trajetória do sistema desde a Constituição de 1988 até hoje?
É importante destacar, inicialmente, que, embora a Lei nº 8.080, de 1990, represente um marco fundamental para a consolidação do sistema, o Sistema Único de Saúde foi instituído pela Constituição Federal de 1988. Assim, em 2025, o sistema completou 37 anos de existência. A trajetória do SUS é marcada por conquistas significativas para a população brasileira. O reconhecimento inicial reside no fato de que, a partir da Constituição, o direito à saúde foi consagrado como direito de cidadania e dever do Estado. Essa mudança de paradigma transformou profundamente o cenário da saúde no país. A discriminação no acesso, antes vinculada ao mercado de trabalho e ao sistema previdenciário, foi superada. O SUS consolidou-se como um sistema público, universal e gratuito, acessível a todos os cidadãos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país, sem restrições.
Trata-se de um movimento inédito de promoção da igualdade no campo da saúde, um dos principais avanços civilizatórios da Constituição de 1988. Apesar dos avanços, a trajetória do SUS não foi isenta de desafios. A ampliação da cobertura — que alcança cerca de 80% da população na atenção primária e a totalidade dos brasileiros nos serviços de maior complexidade — ocorreu em meio a dificuldades estruturais e financeiras. O sistema expandiu a oferta pública de serviços, tanto por meio da administração direta quanto pela contratação complementar da rede privada. Houve aumento do financiamento público ao longo das décadas, ainda que persistentemente insuficiente, sobretudo nos últimos anos.
O SUS desenvolveu um modelo de gestão próprio, de caráter tripartite, com a participação articulada da União, dos estados e dos municípios. É descentralizado, com forte protagonismo municipal, regionalizado e hierarquizado, além de incorporar a participação social como elemento estruturante da formulação e do controle das políticas de saúde. Essa construção institucional brasileira, concebida para responder aos desafios históricos e territoriais do país, consolidou um sistema abrangente e complexo, referência internacional em universalização do acesso à saúde.
E as limitações que persistem?
Os últimos 35 anos não foram os mais favoráveis para a construção de sistemas públicos universais em âmbito global. A hegemonia neoliberal, que se reflete no Brasil em políticas de restrição fiscal, limitou a expansão do SUS. A participação do setor privado no financiamento da saúde é significativa, representando 60% dos gastos totais, enquanto o gasto público deveria ser de, no mínimo, 70%. Houve, paralelamente à implementação do SUS, incentivos e subsídios estatais ao mercado privado de serviços de saúde, especialmente aos planos de saúde, que cresceram consideravelmente. A ausência de regulamentação adequada desse mercado, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, agravou a situação. O mercado de planos de saúde estratifica o acesso, concentrando recursos assistenciais, infraestrutura, profissionais e capacidade técnica no setor privado, beneficiando, principalmente, trabalhadores com carteira assinada e segmentos de alta renda.
O financiamento da saúde no Brasil também é majoritariamente privado, com gastos das famílias em planos de saúde e medicamentos. Em síntese, o SUS, embora tenha apresentado avanços, esbarra em problemas estruturais. A dependência de prestadores privados de serviço, a introdução de modelos como as organizações sociais, que levaram à terceirização da gestão pública, e a força do mercado, com seus subsídios estatais, minam o sistema. Consequentemente, o SUS enfrenta dificuldades no acesso a serviços de média e alta complexidade, na realização de exames, e apresenta desigualdades na quantidade de consultas e heterogeneidades regionais.
Existe hoje um risco concreto de privatização do sistema público de saúde no Brasil?
O sistema já se encontra privatizado por dentro e por fora, ainda que sua venda formal não se apresente como tarefa simples. O mercado de planos de saúde, a atuação das organizações sociais e a dependência do setor privado para a prestação de serviços estão consolidados e amplamente naturalizados no país. Essa realidade, somada à atratividade do setor privado para os profissionais de saúde, evidencia a presença da lógica privatizante no interior do próprio sistema. Médicos especialistas, por exemplo, frequentemente optam por atuar na rede privada em razão da melhor remuneração e do status social associado, o que contribui para a concentração de recursos assistenciais e para o aprofundamento das desigualdades no acesso aos serviços. A tensão especializada do SUS evidencia essa questão. Apesar da abrangência da atenção primária, a especialização enfrenta limitações, como a escassez de especialistas e a falta de acesso a exames.
Embora existam desafios internos ao SUS, como a organização do acesso e a construção de redes de serviços, a privatização agrava a situação. A concentração de consultas, exames e procedimentos em clientes de planos de saúde, impulsionada pela maior remuneração e pela inflação de preços, demonstra um problema distributivo que vai além do subfinanciamento. Reverter esse cenário demanda políticas públicas abrangentes e estruturais, inspiradas na reforma sanitária e na criação do SUS. Mudanças incrementais podem não ser suficientes para solucionar os desafios do sistema de saúde, que precisa de uma abordagem holística.
A alta demanda, somada às limitações de recursos de diversas naturezas, tem provocado longas filas de espera. A dificuldade e demora de acesso a consultas especializadas, exames e cirurgias é atualmente um dos principais problemas do SUS? É possível reverter esse cenário?
Considero que o programa, atualmente com especialistas, representa uma iniciativa para alterar o cenário. É um programa que, em suma, redefine a abordagem, reinserindo o Ministério da Saúde na discussão sobre atenção especializada. Por um longo período, o Ministério da Saúde esteve ausente dessa discussão, abstendo-se de uma intervenção mais direta nessa política. Portanto, vejo como positivo o envolvimento do Ministério da Saúde. Ao mesmo tempo, é uma política que recorre ao setor privado, mas introduz novos mecanismos de financiamento que não implicarão em maiores despesas com folha salarial, mas sim em custos tributários.
Adicionalmente, o programa busca deslocar, em certa medida, a capacidade instalada privada para o uso de um sistema público universal. A eficácia dessa medida será avaliada com o tempo. Em resumo, o programa com especialistas indica essa direção. Contudo, é evidente que, por si só, não representa uma solução universal nem resolverá todos os problemas do SUS. Ainda assim, considero um passo relevante na direção de enfrentar esses desafios, especialmente no âmbito da atenção especializada.
Nos últimos anos, o SUS e outras políticas públicas de saúde têm sido alvo de ataques e tentativas de desmonte. Qual é a relação entre a defesa do SUS e a defesa da democracia?
Essa conexão é, a meu ver, intrínseca. Em primeiro lugar, o SUS é um produto direto da redemocratização brasileira, resultado das lutas desse período e das conquistas consagradas na Constituição Federal de 1988, representando, talvez, uma das maiores conquistas civilizatórias desse processo. Portanto, é evidente que, diante de uma crise ou ameaça à democracia de 1988, o SUS também se encontrará em risco, pois ambos são partes de um mesmo contexto histórico e social. Ademais, a defesa da democracia, quando restrita à forma como ela se manifesta atualmente no Brasil ou como se apresentou nas últimas três décadas, pode se mostrar insuficiente. Nossa democracia, reconhecidamente, apresenta imperfeições, com desafios no Legislativo, no Judiciário e no Executivo.
A mera formalidade da votação não garante, por si só, participação democrática e inclusão social plenas. Além disso, sem um modelo econômico que promova a redistribuição, a democracia se torna limitada. Essa análise se aplica também ao SUS. O SUS existente é de extrema importância, tendo avançado significativamente na consolidação do direito à saúde no Brasil. No entanto, a mera defesa do SUS, neste momento, não é suficiente. É crucial defender, também, a construção de um novo SUS, delineando o sistema que desejamos para o futuro.
Caso não expandamos nossa reflexão, direcionando-a não apenas à defesa do SUS e da democracia, mas também à definição do SUS e da democracia que almejamos, corremos o risco de permanecer em uma postura defensiva, sem avançar em propostas e processos que nos permitam superar os desafios atuais. É imperativo, portanto, ampliar nossos horizontes e aprofundar a compreensão sobre o SUS que verdadeiramente necessitamos para a sociedade brasileira e para a democracia que almejamos.
Diante desse conjunto de desafios, quais mudanças considera prioritárias na formação médica e nas políticas de saúde para fortalecer o SUS e garantir cuidado de qualidade à população?
Considero que, tanto na formação médica quanto nas políticas de saúde no Brasil, o principal desafio histórico para as próximas décadas reside na desprivatização do sistema de saúde. Acredito que, sem essa medida, será extremamente difícil avançar na universalização do direito à saúde, reduzir a estratificação no acesso aos serviços e diminuir as desigualdades entre os setores público e privado. Além disso, não estaremos aptos a atender às crescentes necessidades da população brasileira, que envelhece e apresenta maior incidência e prevalência de doenças crônicas, demandando atenção redobrada do poder público e das políticas de saúde nas próximas décadas.
Portanto, para garantir a formação de médicos qualificados e em número suficiente, e para que o SUS esteja à altura dos desafios sociais e sanitários, será imprescindível repensar os processos de desprivatização. Essa reflexão deve abranger o financiamento, a oferta de serviços e as formas de acesso, tanto por meio de planos de saúde quanto pelo SUS. Em suma, a desprivatização configura-se como uma agenda estratégica para o futuro do SUS.