Trump, o poder e um filme de Pasolini. Artigo de Riccardo Cristiano

Foto: Wikimedia Commons | The White House

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16 Abril 2026

Em outras palavras, usando um conceito expresso pelo Padre Antonio Spadaro: "Quando o poder político ataca uma voz moral, é porque não consegue contê-la".

O artigo é de Riccardo Cristiano, jornalista italiano, publicado por Settimana News, 16-04-2026. 

Eis o artigo. 

Há um filme que inevitavelmente me vem à mente ultimamente: Salò e os 120 Dias de Sodoma. Quanto daquilo que nos preocupa hoje está contido na obra-prima de Pier Paolo Pasolini? A Wikipédia nos lembra das datas: estreou nos cinemas italianos em 10 de janeiro de 1976 e provocou protestos vigorosos e uma longa perseguição judicial: o produtor Alberto Grimaldi foi julgado por obscenidade e corrupção de menores, e em 1976 o filme foi confiscado, desaparecendo das telas antes de ser relançado em 1978.

Pasolini ambientou a história em Salò, uma escolha simbólica; o diretor, na minha opinião, optou por se colocar ao lado de todos aqueles que lutaram contra o nazismo, um poder que não respeitava o homem. (Curiosamente, uma das principais críticas ao filme foi publicada pelo jornal soviético Izvestia.)

Quatro cavalheiros, representando os poderes da República Social Italiana — o Duque (poder político), o Bispo (poder eclesiástico), o Presidente do Tribunal de Apelação (poder judicial) e o Presidente do Banco Central (poder econômico) — instruem soldados da SS e republicanos a sequestrar um grupo de meninos e meninas de famílias antifascistas. Após um rigoroso processo de seleção, eles se trancam com os meninos em uma casa de campo, mobiliada com obras de arte modernas e guardada por um pequeno grupo de soldados nazistas-fascistas.

As cenas de sadismo e as formas extremas de violência desviaram a atenção das pessoas "de bom senso". O filme, como muitos intelectuais, como Alberto Moravia e Bernardo Bertolucci, compreenderam imediatamente, era uma alegoria poética e horripilante. Poderíamos dizer que era uma denúncia da degeneração do poder absoluto e, portanto, uma crítica profética da sociedade de consumo emergente, da redução do homem a mercadoria.

Para mim, a questão central desse filme é o limite, ou o poder que se considera ilimitado, uma prerrogativa que os crentes reconhecem apenas em Deus. É a mesma questão política que, na minha opinião, Donald Trump abordou quando disse que não precisa de leis internacionais; seu único limite é a sua moralidade. Isso aconteceu em 8 de janeiro, quando o presidente afirmou: "Não preciso de leis internacionais. Meus poderes são limitados apenas pela minha moralidade pessoal, pela minha mente. Essa é a única coisa que pode me deter."

Não seria esse poder ilimitado? Creio que as frequentes incursões de Trump no campo da fé, sua representação como um Pontífice, como Jesus, ou sua adoração como Deus Pai, decorrem precisamente da necessidade de apresentar sua visão de poder ilimitado. É por isso que ele precisa parecer o Messias.

O limite, obviamente, não está apenas nas relações internacionais: começa no âmbito pessoal, passa por tarifas, guerras e migrantes.

Um grande pensador católico, Charles Péguy, disse a célebre frase: "A revolução social será moral, ou não existirá de todo". Péguy argumentava que qualquer transformação social é inútil se não começar com uma profunda renovação interior e espiritual das consciências, e não se limitar a uma mera reforma estrutural externa.

A guerra, portanto, funciona como um detonador para o pedido de Charles Péguy, que não se resume apenas às relações internacionais: provavelmente decorre do que emergiu deste escândalo global, o caso Epstein, e leva ao pedido surreal de comprar a Groenlândia, como uma potência sem limites pode fazer (talvez até mesmo definindo o preço de compra).

O ataque imprudente ao Papa Leão XIV pode ter tido muitas origens: distração em massa, acobertamento, escárnio. Mas também aquela sugerida por Pasolini: o poder ilimitado não admite limites. As críticas a Leão XIV podem derivar disso: o Pontífice impõe um limite com sua voz espiritual que não se conforma.

Eis o curto-circuito, talvez resumido nestas palavras do professor Massimo Borghesi: "O Trump do segundo mandato incorpora, ainda mais do que o primeiro, o messianismo político, a face de uma direita religiosa em que Deus é o deus da guerra e do poder", o poder ilimitado que não consegue aceitar os limites que emergem do "não" do Papa Leão XIV.

Em outras palavras, usando um conceito expresso pelo Padre Antonio Spadaro: "Quando o poder político ataca uma voz moral, é porque não consegue contê-la."

Por isso, parece-me que o Papa Francisco disse tudo em 18 de fevereiro de 2016, quando afirmou que "uma pessoa que pensa apenas em construir muros e não em construir pontes não é cristã". Trump se veste de Jesus por esse motivo.

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