14 Abril 2026
Em um momento em que as tensões identitárias aumentam na Europa, essa trigésima edição do Interfestival não teve pretensões de oferecer soluções prontas. Contudo, lembrou algo óbvio: quando a religião é instrumentalizada para dividir, a resposta só pode vir de uma palavra espiritual livre, lúcida e responsável. Resistir não é apenas uma escolha política. Para a maioria dos presentes, é uma fidelidade à sua fé e à sua consciência."
O artigo é de Stanislas Windika, escritora, publicado por Saint-Merry Hors-les-Murs, 25-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
"Diante do crescimento das extremas-direitas, em toda a França e no mundo, é urgente que os fiéis se mobilizem. Especialmente porque a internacional reacionária não tem escrúpulos em instrumentalizar as religiões ou as afiliações religiosas. Pelo contrário, isso faz parte de seu projeto. A maioria dos poderes fascistas ou fascistizantes utilizam a religião como base identitária." — Laurent Grzybowski, organizador do Interfestival.
Essas palavras contundentes foram proferidas por Laurent Grzybowski na introdução do 30º Interfestival das Religiões e Convicções, que se realizou de 30 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026, na Abadia de Saint-Jacut-de-la-Mer, no departamento de Côtes-d'Armor.
Durante três dias, mais de 200 participantes — católicos, protestantes, muçulmanos, judeus, budistas, agnósticos e ateus — se debruçaram sobre uma questão pouco tratada nos grupos religiosos ou inter-religiosos: "Resistir às ideologias de extrema-direita: uma exigência espiritual?". Para os organizadores do encontro, não se tratava de "fazer política partidária", como dar instruções de voto ou refletir sobre programas ou slogans, mas de conduzir uma reflexão muito mais profunda. "Os problemas apresentados pelo crescimento da extrema-direita são primeiramente de ordem filosófica, moral e espiritual", explicou Laurent Grzybowski, organizador e coordenador do Interfestival. "Quando os direitos humanos, os princípios democráticos e a dignidade das pessoas mais vulneráveis estão em jogo, os humanistas, crentes ou não, não podem permanecer em silêncio. Especialmente porque a extrema-direita adora se apropriar das religiões e as instrumentalizar."
Essa afirmação esteve no centro das mesas-redondas sobre temas teológicos e sociais, workshops e momentos de partilha espiritual. Como reagir quando são usadas referências cristãs, judaicas ou muçulmanas para justificar a exclusão ou as discriminações de todos os tipos? Como reagir quando os símbolos religiosos se tornam indicadores identitários em oposição a outras afiliações? Para muitas das pessoas presentes, a resistência não pode ser apenas estratégica ou midiática: deve estar enraizada na própria essência das tradições espirituais não distorcidas.
Nesse contexto, uma homenagem sincera foi prestada às duas vítimas da polícia de imigração em Minneapolis, nos Estados Unidos: Renée Good, uma jovem mãe de três filhos, e Alex Pretti, um enfermeiro, ambos com 37 anos. Mortos a tiros à queima-roupa em janeiro, essas duas pessoas, colocando-se entre a polícia e os imigrantes que ela estava perseguindo, se levantaram contra a injustiça e a violência. "Diante da política fascista de Donald Trump, disseram 'não'; foram objetores de consciência. Tornaram-se hoje mártires da fraternidade", afirmou Sarah, de 24 anos, uma das participantes.
Aliénor, de 28 anos, membro da associação Coexister — coorganizadora do evento —, enfatizou sua crença na necessidade de dar mais visibilidade às pessoas empenhadas em prol da convivência. "O catolicismo, por exemplo, não se resume a figuras reacionárias ou ultraconservadoras. Existem cristãos profundamente comprometidos com a justiça social e a fraternidade." Uma mensagem compartilhada por Paul Piccarreta, cofundador da nova revista mensal cristã Le Cri, que reconhece a disseminação do pensamento de direita no cenário religioso.
Em uma oficina bastante concorrida, Pascale Tournier, jornalista do La Vie, propôs um trabalho de desconstrução lexical. Expressões como "grande substituição", "embrutecimento" e "invasão migratória" foram escritas em um quadro e analisadas. Por trás dessas palavras, escondem-se imagens de medo e conflito. Compreendê-las e desconstruí-las já significa resistir à aceitação de certos discursos dados como óbvios.
Ao longo do fim de semana, que começou na sexta-feira com uma "entrada no Shabat" com a rabina Floriane Chinsky (do movimento masorti) e continuou com uma celebração ecumênica e interespiritual, os participantes aproveitaram cada instante para iniciar relações e estreitar amizades. E também tomar consciência de que a melhor maneira de "combater a Fera" era "despertar a Bela" que dorme dentro de cada um e cada uma de nós.
Por meio dos diálogos, fortaleceu-se a convicção de que as religiões, quando fiéis à sua essência ética, contêm em si recursos poderosos contra as lógicas de exclusão. Hospitalidade, dignidade de cada ser humano, atenção ao bem comum, solidariedade com os mais vulneráveis: todos princípios compartilhados, que transcendem as pertenças, moldam "outro modelo de sociedade", inclusivo e fraterno. Em um clima de escuta e respeito, os participantes vivenciaram uma fraternidade concreta, longe da caricatura.
Em um momento em que as tensões identitárias aumentam na Europa, essa trigésima edição do Interfestival não teve pretensões de oferecer soluções prontas. Contudo, lembrou algo óbvio: quando a religião é instrumentalizada para dividir, a resposta só pode vir de uma palavra espiritual livre, lúcida e responsável. Resistir não é apenas uma escolha política. Para a maioria dos presentes, é uma fidelidade à sua fé e à sua consciência.
Como dizia Martin Luther King, citado várias vezes no encontro: "O que me assusta não é a maldade dos maus, mas o silêncio dos bons."
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