“Espero que a Santa Sé comece uma investigação sobre as acusações de abuso contra o Opus Dei”. Entrevista com Gareth Gore

Fonte: Unsplash

Mais Lidos

  • Quatro grandes grupos não homogêneos se destacam no cenário interno. Entretanto, suas articulações nesse ambiente repressivo estão ainda mais impactadas frente ao conflito deflagrado por Israel e EUA, cuja reação iraniana foi subestimada

    Movimentos sociais no Irã: protagonismo na resistência à política imperialista mundial. Entrevista especial com Camila Hirt Munareto

    LER MAIS
  • A ameaça de Trump: "O Irã precisa aceitar o plano dos EUA ou eu o destruirei da noite para o dia"

    LER MAIS
  • A IA não é nem inteligente, nem artificial. Intenções humanas, extrativismo e o poder por trás das máquinas

    Parasita digital (IA): a pirataria dos saberes que destrói recursos naturais alimentada por grandes data centers. Entrevista especial com Miguel Nicolelis

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

08 Abril 2026

Gareth Gore é o autor de uma investigação bem documentada sobre as atividades do Opus Dei, publicada na Espanha pela editora Crítica, com o título Opus e o subtítulo Ingeniería financiera, manipulación de personas y el auge de la extrema derecha en el seno de la Iglesia católica. O jornalista financeiro se reuniu com o Papa por cerca de 40 minutos, no dia 16 de março, o que foi interpretado como um gesto incomum de Leão XIV, em um momento em que a Santa Sé está em pleno processo de estudo dos estatutos da organização. Nesta entrevista, realizada por e-mail em inglês e posteriormente traduzida pelo jornal Público, Gore afirma que o Opus Dei “é um projeto político escondido por trás de um véu de espiritualidade”.

A entrevista é de Raúl Bocanegra, publicada por Público, 06-04-2026. A tradução é do Cepat.

Sobre o encontro no Vaticano, Gore afirma: “Compareci com um único objetivo: informar o Papa Leão XIV de forma completa, franca e sem rodeios sobre os abusos do Opus Dei. Não sabia como ele reagiria, mas a reunião foi um sucesso total. Ele ouviu atentamente tudo o que eu disse e prometeu ler os documentos que lhe entreguei. Fez muitas perguntas perspicazes. Foi decisão dele tornar a reunião pública e tirar fotos. Penso que quis enviar uma mensagem. Tenho esperança”.

O jornalista acrescenta: “Espero que [a Santa Sé] inicie uma investigação completa e independente sobre todas as acusações de abuso contra este grupo”. Após a publicação do livro de Gore, o Opus Dei elaborou um documento que analisa vários pontos do trabalho, que por vezes classifica como falsos. A este respeito, Gore declara: “Qualquer outra organização teria respondido a acusações tão graves [como as reunidas no livro] com uma investigação imediata e o compromisso de erradicar qualquer irregularidade. [...] Não estão interessados na verdade, apenas em se protegerem”.

Eis a entrevista.

Quanto tempo de sua vida dedicou à pesquisa sobre o Opus Dei? Você chegou a esse tema em decorrência da quebra do Banco Popular em 2017? Poderia resumir o processo que o levou a escrever o livro?

Nunca me propus a escrever um livro sobre o Opus Dei. Sou jornalista financeiro e toda essa história começou com a quebra do Banco Popular, em 2017. Cobri a quebra naquele momento e caí na mesma armadilha de todos os outros jornalistas, que viram a falência pelo prisma da crise bancária espanhola. Contudo, muitos aspectos da história não se encaixavam para mim, então, comecei a questionar, inicialmente como hobby, dedicando minhas noites e fins de semana à investigação, e mais tarde em tempo integral, ao conseguir um contrato para publicar o livro. Dediquei cerca de cinco anos na investigação da história.

O que é o Opus Dei? Qual é a melhor maneira de definir essa organização? Que lugar ocupa dentro da Igreja Católica? Qual é o tamanho do seu poder?

O Opus Dei é um projeto político escondido por trás de um véu de espiritualidade. Oficialmente, a organização existe unicamente para ajudar a seus membros - católicos “ordinários” - a aprofundar sua fé e aspirar à santidade por meio de suas ações cotidianas. Mas, extraoficialmente, essa história é apenas uma fachada que esconde o verdadeiro propósito do grupo: infiltrar-se nos círculos de poder e usar sua influência para reverter o progresso. A adesão se dá apenas por convite e se concentra na elite. Na Espanha, a rede Opus Dei abrange todos os âmbitos da sociedade civil: do governo ao poder judiciário, os meios de comunicação, as empresas e a academia.

Como o Opus Dei substituiu o Banco Popular, que você descreve como seu “caixa automático”, após sua falência, se é que o substituiu? Qual é o caixa automático do Opus Dei agora, se é que possui um?

O Opus Dei perdeu sua principal fonte de liquidez quando o Banco Popular quebrou em 2017. No entanto, a rede empresarial oculta do grupo segue muito ativa. Possui bilhões de euros em ativos imobiliários depositados em empresas fantasmas controladas por seus membros e controla indiretamente centenas de fundações com grandes patrimônios e participações em inúmeras empresas. Só tomamos conhecimento das ligações entre o Opus Dei e o Banco Popular em decorrência de sua falência. Parece-me bastante possível a existência de outras grandes empresas, talvez até mesmo bancos – inclusive na Espanha –, vinculadas ao grupo.

Em sua página web, o Opus Dei nega fundamentalmente o enfoque geral do livro e rejeita em especial a ideia de que a organização possui um “desejo de dinheiro e poder”. Publicou também um documento de 101 páginas que analisa vários pontos do livro, que por vezes classifica como falsos. Acredito que você estudou esse documento. Algumas das objeções apresentadas estão corretas ou precisas?

As acusações feitas no livro são extremamente graves. Detalho abusos e atos criminosos, incluindo o tráfico de pessoas, fraude, recrutamento de menores, abuso psicológico e emocional, administração de drogas a membros e o uso de confissões e sessões de orientação espiritual para obter informações comprometedoras sobre seus membros. Qualquer outra organização teria respondido a acusações tão graves com uma investigação imediata e o compromisso de erradicar qualquer irregularidade. O Opus Dei simplesmente respondeu me chamando de mentiroso. Não estão interessados na verdade, apenas em se protegerem.

Na sua opinião, quais são os objetivos últimos do Opus Dei?

Escrivá fundou o Opus Dei como uma posição reacionária às forças progressistas que transformavam a vida dos pobres e oprimidos na Espanha durante os anos 1930. Incutiu em seus seguidores a ideia de que faziam parte do que ele chamou de “milícia emergente” que lutaria contra os “inimigos de Cristo”, e os encomendou especificamente a missão de se infiltrarem nos círculos de poder para alcançar esse objetivo. Esses “inimigos de Cristo” são definidos, em termos gerais, como qualquer pessoa que não concorde com a política reacionária do grupo. O objetivo do Opus Dei é derrotar quem discorda dele.

Na Espanha, o Opus Dei também acumula poder por meio de seus investimentos em educação: infantil, primária, secundária e superior. Este é um aspecto fundamental de sua estratégia? Qual é a sua importância?

O grupo administra quase 300 colégios, 19 universidades, 12 escolas de negócios, mais de 200 residências universitárias e inúmeros clubes juvenis e acampamentos de verão. O que os estudantes - e muitos pais - não sabem sobre esses lugares é que crianças, algumas com apenas dez anos de idade, são ativamente recrutadas para se tornarem membros. O Opus Dei não deveria ser responsável pelo bem-estar de crianças e jovens. Exorto o governo espanhol a iniciar uma investigação minuciosa a respeito desses abusos nos colégios do Opus Dei. Conversei com muitos ex-membros que trabalharam nessas instituições de ensino e que estariam dispostos a testemunharem.

Atualmente, o Vaticano está em um processo de reforma dos estatutos do Opus Dei. Em sua opinião, neste momento, o que preocupa o Papa em relação ao Opus Dei?

Para a Igreja Católica, é evidente que existe um problema grave com o Opus Dei. Este grupo é acusado de graves abusos e crimes; vários membros do alto escalão do Opus Dei serão julgados por tráfico de pessoas e graves violações trabalhistas na Argentina. Durante anos, o Vaticano desprezou os depoimentos das vítimas do Opus Dei, optando pela inação. No entanto, o peso das provas é muito grande agora, não sendo mais possível fazer vista grossa. Acredito que o Papa Leão XIV quer fazer o correto, por isso me convidou para escutar as provas que reuni. Espero que inicie uma investigação completa e independente sobre todas as acusações de abuso contra este grupo.

Como surgiu este encontro com o Papa? Foi a pedido do Vaticano?

Recebi uma chamada telefônica me informando que o Papa tinha ouvido falar do meu trabalho e estava interessado em se reunir comigo. Naturalmente, aceitei. Ninguém me disse de antemão sobre o que ele queria falar, nem qual seria a agenda da reunião. Compareci com um único objetivo: informar o Papa Leão XIV de forma completa, franca e sem rodeios sobre os abusos do Opus Dei. Não sabia como ele reagiria, mas a reunião foi um sucesso total. Ele ouviu atentamente tudo o que eu disse e prometeu ler os documentos que lhe entreguei. Fez muitas perguntas perspicazes. Foi decisão dele tornar a reunião pública e tirar fotos. Penso que quis enviar uma mensagem. Tenho esperança. Aconteça o que acontecer, a Igreja não poderá mais dizer quer não sabia.

Leia mais