Os estilhaços do tempo e a beleza do cotidiano na poesia de Mário Quintana. Artigo de Márcia Rosane Junges

Foto: Brazilian National Archives | Arquivo Nacional

07 Abril 2026

No calçamento tortuoso da Rua dos Andadas e da Travessa dos Cataventos, um poeta tecia o rastro de sua leveza e profundidade: Mário Quintana. “Ao morrer, em 1994, deixou mais do que livros: legou uma forma de olhar. Em tempos de excesso e velocidade, de informação que não necessariamente gera conhecimento, de profusão de telas e suas capturas, sua poesia ainda sussurra, como um conselho antigo, que a beleza mora nas coisas pequenas, na sutileza do imperceptível, na profundidade do indizível. Suas palavras reivindicam a contemplação e o pertencer a si mesmo.” A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

Na delicada fronteira entre o cotidiano e o sonho, a poesia de Mário Quintana continua a soprar como um vento leve, desses que não derrubam árvores, mas fazem dançar as cortinas da alma. É com esse espírito que o curso apresentado pelo teólogo Faustino Teixeira, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU convida o público a revisitar a obra de um dos maiores líricos da literatura brasileira, cuja simplicidade nunca foi sinônimo de superficialidade, mas de refinamento extremo. Na segunda apresentação sobre esse autor, nesta quarta-feira, 08-04-26, das 14h às 15h30min no canal do YouTube do IHU, o estudioso seguirá aprofundando detalhes sobre seu mundo poético, seu universo fértil em metáforas e concretudes que se mesclam até se tornarem indiscerníveis.

Nascido em 1906, em Alegrete, Quintana atravessou o século XX como quem coleciona instantes: tradutor, jornalista, cronista e, sobretudo, poeta. Sua trajetória não se construiu nos salões ruidosos da fama, mas nas margens silenciosas das palavras. Avesso à ostentação literária, ele preferia o gesto mínimo como um verso curto, uma imagem breve, capaz de conter universos inteiros. Como um alquimista do cotidiano, transformava objetos banais, ruídos urbanos e pequenos espantos em matéria poética viva. Uma poesia que decantava a profundidade da alma.

Foi em Porto Alegre, porém, que sua poesia encontrou morada duradoura. A cidade onde viveu não era apenas cenário, mas sua cúmplice e coautora de mundos outros. Quintana gostava da capital do Rio Grande do Sul porque ela lhe oferecia o que mais prezava: o ritmo humano, as esquinas discretas, os cafés onde o tempo parecia cochilar. Pelas pedras irregulares da Rua dos Andradas e da Travesssa dos Cataventos, a suavidade e a pressa se mesclavam e se perdiam. Pelas janelas dos edifícios, rostos, sonhos, vozerio, um lençol secando ao vento. Gente, incertezas, amores, intensidades. Ali, viveu por 12 anos no lendário Hotel Majestic, hoje Casa de Cultura Mário Quintana – CCMQ, observando o mundo como quem olha pela janela de um poema ainda por escrever. No horizonte, o Guaíba fluía calmo, anunciando as frestas por onde explodiam instantes e os estilhaços de um tempo impermanente. O farfalhar das folhagens anunciava a chuva que faria luzir o calçamento. Quando se mudou para o Hotel Royal, teria dito a uma amiga, que achou seu novo quarto exíguo: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas" (1).

Porto Alegre, para Quintana, era como um verso em construção: imperfeito, cotidiano, mas profundamente habitável. Ele caminhava por suas ruas como quem folheia um livro aberto, atento aos detalhes que muitos ignoram: um gato atravessando a calçada, o som distante de um bonde, a melancolia suave do entardecer. Era dessa matéria simples que nascia sua poesia, marcada pela “historicidade das formas breves”, como destaca o curso: pequenas epifanias que resistem ao tempo.

Sua obra, reunida em volumes como Poesia completa (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005) e revisitadas em estudos recentes, revela um autor que conseguiu o raro feito de expandir a poesia para além dos círculos eruditos. Quintana aproximou o leitor comum da linguagem poética sem jamais diluí-la. Seus versos são acessíveis, mas não fáceis; leves, mas nunca vazios.

Em Esconderijos do tempo (1980), no poema "Envelhecer", Quintana faz as palavras dançarem e cunha versos que ascendem à eternidade, enovelados na bruma de uma corporeidade que se esvai, mas que ganha leveza como um pequeno pássaro que rasga o céu em revoada. Ecos de uma vida lírica.

Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam,
Hoje, todos os caminhos vêm...
A casa é acolhedora, os livros poucos
E eu mesmo sirvo o chá para os fantasmas...
Silêncio. Solidão. Serenidade.
Quero morrer na selva de um país distante...
Quero morrer sozinho como um bicho!
Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o seu poeta.
Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no céu!
E todos estes que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Ao morrer, em 1994, deixou mais do que livros: legou uma forma de olhar. Em tempos de excesso e velocidade, de informação que não necessariamente gera conhecimento, de profusão de telas e suas capturas, sua poesia ainda sussurra, como um conselho antigo, que a beleza mora nas coisas pequenas, na sutileza do imperceptível, na profundidade do indizível. Suas palavras reivindicam a contemplação e o pertencer a si mesmo.

Talvez seja essa a maior lição que ecoa do curso conduzido por Faustino Teixeira: ler Quintana é aprender a ver o mundo com olhos que ainda sabem se encantar. É rir-se das certezas, maravilhar-se com as perguntas, inquirir-se sobre os não saberes, celebrar as manhãs e os entardeceres. É um apequenar-se na grandiosidade da música dos dias, na leveza das nuvens, um agigantar-se na calidez de um abraço e da Lua como testemunha.

Notas

(1) Marilia Cechella. Mário Quintanaassisbrasil.org. Consultado em 8 de novembro de 2009. Arquivado do original em 3 de março de 2016

Anote e participe

08/04 | 14h às 15h30min | quarta-feira

Curso livre A poesia de Mário Quintana   

A poesia de Mário Quintana – Apresentação do autor (II)

Ministrantes: Faustino Teixeira – IHU

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