07 Abril 2026
"O grande desafio teológico-pastoral é elaborar explicações das causas e das soluções que articule, ao mesmo tempo, conceitos teológicos da tradição e os conceitos e teorias sócio-políticas contemporâneas. E essa era a razão da origem da teologia da libertação latino-americana."
O artigo é de Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
O que acontece quando as pessoas se sentem deslocadas e não sabem o que fazer ou não compreendem bem o que está acontecendo em volta? Sentir-se deslocado no mundo, sem ter saído do seu ambiente tradicional, é algo amedrontar. Milhões de brasileiros e brasileiras se sentem assim porque o mundo mudou muito e rapidamente.
Saber quem é e o que é necessário fazer (como trabalhar, dialogar com pessoas da comunidade, ...) para continuar vivendo bem são condições fundamentais para todas pessoas. E o ser vivente, seja um ser humano ou um não-humano, precisa aprender as informações que o meio ambiente lhe envia e usá-las para processá-las e gerar respostas para a sua sobrevivência e, se possível, viver com alegria e prazer. Um exemplo simples é quando a temperatura do ambiente sobe demais, o indivíduo ao sentir esse calor no seu corpo deve tomar mais água e/ou ligar aparelhos de ventilação. Um exemplo mais complexo pode ser o caso em que pessoa que sempre trabalhou bem, foi bem respeitado pela comunidade e se sentia abençoada por Deus, de repente perde o emprego e não consegue mais voltar ao mercado de trabalho porque sua profissão já não existe mais. Mais do que emprego, ele pode perder também o respeito na comunidade, a sua autoestima, a sua fé de ser abençoada por Deus, e perde também o seu sentido da vida (saber a direção e o sentido das coisas importantes na vida).
Ao perder essas características sociais e profissionais que lhe fazia sentir e saber quem era, essas pessoas perdem o que chamamos de “identidade”. Diante dessa crise de “identidade”, a reação mais comum é tentar recuperar a identidade mais primária que lhe garante “o chão”. Como disse no artigo anterior, “Nesse mundo de mudanças confusas e incontroladas, as pessoas tendem a reagrupar-se em torno de identidades primárias: religiosa, étnica, territorial, nacional. [...] Cada vez mais, as pessoas organizam seu significado não em torno do que fazem, mas com base no que elas são ou acreditam que são” (M. Castells).
O primeiro desafio nessa crise é se defender contra os perigos, os “inimigos”. O problema é que, como o “mundo” mudou demais, essas pessoas não são capazes de saber quem são eles e como derrota-los. A informação que a vida delas entrou em colapso por causa das transformações tecnológicas e da “inteligência artificial” não faz muito sentido para elas e, mesmo que entendessem a relação entre a IA (que elas percebem como positiva) e a sua crise, não lhes ajuda muito a reconstruir a sua vida. O que essas pessoas precisam em construir muros para não permitir que seus “inimigos” entrem nas suas vidas. Essa metáfora de “muros” (que Trump usou e ainda usa muito) dá também às essas pessoas a sensação de pertence a uma comunidade. Por isso, a importância da busca de “identidade religiosa” para sair dessa crise.
Qual é o primeiro passo para (re)construir a sua identidade a partir da religião? Não é o discurso teológico-social. É o rito. Não se soluciona a crise de identidade (que pressupõe a crise do discurso que antes dava sentido) com novas teologias ou discursos religiosos, mas sim pelo sentimento de pertença, de ser abraçado pela comunidade. Abraçar amigos em um evento é um ritual, não um discurso analítico. Por exemplo, rezar terço em comunidade é um ritual de afirmação de pertencimento a uma comunidade visível, mas também à invisível, que chamamos de Igreja ou a “comunhão dos santos”.
É após sentir-se “abraçada”, por meio dos rituais, pela comunidade ou Igreja que essas pessoas podem recuperar a autoestima e força espiritual para enfrentar os “perigos”. Com isso, poder conseguir compreender as novidades do mundo atual por meio de novas explicações das causas e das possíveis soluções. O grande desafio teológico-pastoral é elaborar explicações das causas e das soluções que articule, ao mesmo tempo, conceitos teológicos da tradição e os conceitos e teorias sociopolíticas contemporâneas. E esse era a razão da origem da teologia da libertação latino-americana.
Nesses desafios, um dos erros da racionalidade moderna foi exatamente negar a importância dos rituais na vida social e reduzir tudo à razão analítica e/ou instrumental. Erro esse que foi repetido pelas teologias “progressistas” e a esquerda marxista. Com isso, as pessoas e grupos que precisam reconstruir suas identidades são mais fáceis de serem cooptados ou capturados por setores da direita (política e religiosa) que entenderam isso.
Em resumo, seja em termos de disputas teológico-pastorais nas igrejas, quanto na luta político-eleitoral, precisamos repensar a relação entre
(a) o sentimento de pertença;
(b) os rituais, sejam religiosos ou sociais (que não tratam do mundo sobrenatural, mas sim da moral e das relações intersubjetivas da sociedade/comunidade); e
(c) os discursos explicativos das causas dos problemas e das possíveis soluções.
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