A conversa de Jesus com os discípulos antes da Paixão: “Se me amásseis, ficaríeis alegres por eu ir para o Pai”

Obra de Cláudio Pastro na Catedral de Sant’Ana de Itapeva, SP | Foto: claudiopastro.com.br

02 Abril 2026

“Muitas vezes, ainda vivemos a Sexta-feira Santa com pesar, incompreensão, incredulidade ou indiferença. Mas não são esses sentimentos que Jesus recomenda aos discípulos diante do que será consumado”. 

O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestra em Filosofia pela Unisinos e mestra em Teologia pela PUCRS.

Na Semana Santa, a Igreja centra seu olhar sobre os últimos acontecimentos que marcaram a vida terrena de Jesus e, particularmente, sobre sua Paixão, morte e ressurreição. Na sucessão dos vários fatos que caracterizam esses dias escondem-se mistérios que constituem a vida de Cristo, da Igreja e da nossa relação com a Trindade. 

A dimensão dos mistérios é realçada no Evangelho de João. O texto joanino pode ser lido como um complemento à tradição sinótica por resgatar detalhes que não são apresentados pelos outros evangelistas. Um deles é o diálogo prolongado entre Jesus e os discípulos logo após o anúncio da traição.  

Na conversa exposta por João reforça-se o cuidado de Jesus em anunciar aos seus o que aconteceria nas próximas horas. “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (Jo 14, 18). E mais: “Ainda um pouco e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis porque eu vivo e vós vivereis” (Jo 14, 19). Essas palavras só são compreensíveis à luz da porque se referem ao mistério que se realizou – e continua se realizando – com o advento de Jesus na história. 

No diálogo sobressai a insistência de Jesus em dizer mais uma vez o que estava prestes a acontecer: “Vós ouvistes o que vos disse: Vou e retorno a vós” (Jo 14, 28). As frases de Jesus não manifestam somente a incompreensão dos discípulos diante da totalidade dos acontecimentos, como eles próprios confessam mais adiante (Jo 16, 17-18). Revelam algo mais profundo: uma diferença de intensidade no amor de cada um.

Muitas vezes, ainda vivemos a Sexta-feira Santa com pesar, incompreensão, incredulidade ou indiferença. Mas não são esses sentimentos que Jesus recomenda aos discípulos diante do que será consumado. “Se me amásseis, ficaríeis alegres por eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28). E complementa: “Eu vo-lo disse agora, antes que aconteça, para que quando acontecer, creiais” (Jo 14, 29); “Também vós, agora, estais tristes; mas eu vos verei de novo e vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria” (Jo 16, 22).

Para muitos, essas são palavras de difícil compreensão, assim como aquelas que serão ditas do alto da cruz ou, ainda, aquelas que confirmam esse diálogo, na madrugada da Páscoa. Somente o Paráclito é capaz de confirmar a verdade em cada coração. Até lá, não esqueçamos outras palavras de Jesus aos discípulos nessa mesma conversa: “Credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14, 1); “Eu vos disse tais coisas para terdes paz em mim. No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16, 33).

Que nesta Páscoa, possamos crer, amar e, com o Espírito e a Igreja, confirmar o que estamos celebrando: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”. 

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