02 Abril 2026
Ela é mais instruída que as gerações anteriores. Mas deprime-se nas telas, num país estagnado há 40 anos e em pouca esperança de vida florescente. Há duas saídas: ou o ultraindividualismo, ou um novo engajamento político, ainda por construir.
O artigo é de Marcio Pochmann, publicado por Outras Palavras, 31-03-2026.
Marcio Pochmann é economista, pesquisador e político brasileiro. Professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi presidente da Fundação Perseu Abramo de 2012 a 2020, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, entre 2007 e 2012, e secretário municipal de São Paulo de 2001 a 2004. Concorreu duas vezes a prefeitura de Campinas-SP (2012 e 2016). Publicou dezenas de livros sobre Economia, sendo agraciado três vezes com o Prêmio Jabuti.
Eis o artigo.
A crescente incidência de sofrimento psíquico entre jovens brasileiros, registrada pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE com apoio dos ministérios da Saúde e da Educação, já não pode ser tratada como um problema isolado ou passageiro. Ela expressa uma mudança mais profunda na sociedade brasileira que resulta da perda de dinamismo econômico, enfraecimento das promessas de mobilidade social e a transformação das formas de poder e de socialização.
Nesse sentido, a ansiedade revelada em setor crescente da parcela juvenil da nova sociedade de serviços, hiperconectada na era digital, deixa de ser vista apenas como um problema individual ou psicológico. Ela passa a ser compreendida como expressão social de um tempo histórico marcado pela incerteza. Desde os anos 1990, com a adoção de políticas neoliberais, o Brasil perdeu dinamismo econômico, sofreu a desindustrialização, aprisionou-se na financeirização e fragilizou os mecanismos de ascensão social. O resultado tem sido a formação de nova geração cuja subjetividade é atravessada pela instabilidade.
Em um país historicamente desigual, esse processo agravou a sensação de bloqueio social. Embora mais escolarizada do que as gerações anteriores, grande parte da juventude passou a encontrar um mundo do trabalho mais precário, instável e fragmentado. A educação continuou sendo apresentada como caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu.
Durante o período de industrialização de elevada expansão econômica ocorrida entre as décadas de 1930 e 1980, predominou, apesar das desigualdades, a percepção de que o tempo trabalhava a favor da melhora de vida. Escola, emprego e urbanização apontavam, ainda que de modo desigual, para alguma perspectiva de avanço socieconômico. A partir dos anos 1990, contudo, essa narrativa foi sendo corroída. Em seu lugar, consolidou-se uma sociedade de serviços hiperconectada, porém incapaz de garantir inclusão ampla, segurança e horizonte estável.
É nesse contexto que os dados recentes da PeNSE ganham maior significado. O aumento da tristeza, solidão, ansiedade, exposição à violência e experiências de abuso não deve ser lido apenas como questão sanitária ou psicológica. Esses indicadores expressam uma época em que o futuro perdeu força como promessa coletiva. O horizonte de expectativas superiores se estreitou.
O mal-estar que emerge desse processo não aparece, ao menos por enquanto, como revolta organizada. Ele surge de forma mais difusa, íntima e silenciosa. A juventude brasileira não está apenas ansiosa. Ela percebe, muitas vezes de forma sensível e imediata, que o modelo social que antes prometia alguma melhora deixou de funcionar. A insegurança não decorre apenas do excesso de estímulos digitais, mas também da falta de perspectivas concretas.
A hiperconectividade faz parte desse problema, mas não o explica sozinha. Ao sair das telas de celulares e redes sociais, muitos jovens encontram um mundo que pouco os acolhe. A ansiedade não nasce apenas da conexão permanente, mas da experiência cotidiana de escassez de oportunidades, de fragilidade dos vínculos e de bloqueio do futuro.
Nesse quadro, o neoliberalismo produz mais do que políticas econômicas, pois gera uma forma de experiência social. Ele dissemina a sensação de que não há alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem que poucas portas realmente se abrem. O resultado é uma geração marcada pela incerteza estrutural.
Mais do que uma “geração ansiosa”, trata-se de uma geração formada sob o signo da insegurança. A ansiedade, nesse caso, não é uma anomalia isolada, mas um sintoma de um modelo de desenvolvimento que perdeu a sua maior capacidade de inclusão. Ainda assim, esse sofrimento costuma ser interpretado como falha individual. Ao jovem que não consegue “dar certo”, resta a exigência de se reinventar continuamente como empreendedor de si mesmo.
Com isso, a pressão não desaparece. Ela apenas se internaliza. O peso de uma estrutura social instável é carregado no próprio corpo e na própria mente. A frustração deixa de ser episódica e se torna estrutural. Muitos jovens fizeram o que lhes foi pedido, estudaram, buscaram qualificação e adaptaram-se às novas exigências. Ainda assim, encontram-se à margem de um projeto real de futuro.
É nesse ponto que a questão ganha dimensão política. O que está em formação não é apenas uma geração frustrada, mas um novo sujeito social, ainda fragmentado, instável e sem linguagem política clara. Trata-se de uma experiência comum de insegurança, bloqueio e perda de sentido, que ainda não se traduziu plenamente em organização coletiva.
Esse sujeito, por enquanto, sente antes de formular. A ansiedade pode ser entendida, nesse sentido, como uma de suas primeiras formas de expressão. Ela ainda não aparece como programa político ou ação organizada, mas revela algo importante como a percepção difusa de que o jogo social mudou profundamente.
O risco é evidente. Esse mal-estar pode ser capturado por soluções individualizantes, por discursos de autoajuda ou por promessas de simples adaptação a uma realidade injusta. Também pode ser absorvido por formas regressivas de pertencimento, que oferecem identidade sem projeto coletivo. Mas existe outra possibilidade, ainda aberta: a de que essa ansiedade contenha o início de uma nova consciência histórica.
Não se trata, necessariamente, de uma consciência de classe nos moldes tradicionais. Trata-se, antes, de uma sensibilidade compartilhada diante de um mundo que deixou de oferecer sentido e direção. Algo que ainda não se organiza claramente em partidos, sindicatos ou movimentos duradouros, mas que circula em afetos, frustrações e percepções comuns de injustiça.
Se for assim, os dados da PeNSE deixam de ser apenas um alerta de saúde pública. Eles passam a registrar estatisticamente uma mutação social em curso. O Brasil pode estar diante de uma geração que já não acredita no futuro como promessa garantida, mas que, justamente por isso, talvez venha a recolocá-lo como problema político. Nesse caso, a ansiedade não seria o fim da história. Poderia ser justamente o começo de outra.
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