Nem mesmo um padre para investigar. O novo romance de Giovanni Grasso. Artigo de Antonio Spadaro

Foto: cascoly/Canva

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02 Abril 2026

"Todo o peso da narrativa — a doença, o medo, a traição, a dúvida teológica — se dissolve naquele som. O papa ri. A mão da menina está quente na mão do tio. A Terra ainda perdura", escreve Antonio Spadaro, jesuíta e ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica, em artigo publicado por La Repubblica, 31-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

De manhã, antes de sair, Noé Simenoni sempre olha para suas meias, compradas anos atrás perto da Piazza Vittorio: náilon preto, resistente, praticamente eternas. Às vezes, ele pensa que sobreviverão até mesmo ao seu corpo, como pequenos fósseis sintéticos do nosso século. Giovanni Grasso abre seu romance com um homem se vestindo pela manhã em uma casa popular da periferia romana, perto de Viale Jonio. O nome, Noé, foi escolhido por um equívoco por parte de sua mãe. Se ela tivesse seguido a lógica bíblica, deveria tê-lo chamado de Moisés, porque o recém-nascido havia escorregado na pia da sala de parto e, portanto, fora "salvo das águas" como o profeta libertador. Mas, no caos do parto, ela confundiu os nomes. Assim, a criança se tornou o patriarca da arca. O nome errado é aceito como destino e se torna a marca registrada de uma existência construída sobre o equívoco entre vocação e acaso, entre graça e acidente. Noé tem trinta e oito anos, um passado no seminário (e, portanto, nem sequer é um padre que deixou de ser padre, mas simplesmente um padre que não deu certo) e uma formação que não lhe serve para muita coisa. Ele estudou teologia e antropologia cultural, mas seu trabalho consiste em passear com dois buldogues franceses — Perseu e Medusa — e dar aulas particulares de grego e latim para dois alunos do ensino médio que não têm a menor intenção de aprender. Ele mora com sua irmã Valeria e sua sobrinha Greta, que sofre de leucemia linfoblástica aguda. Para se vestir, sua opção é escolher entre duas jaquetas cor cinza-rato. Sua vida é desprovida de qualidade? É uma nova versão da incompetência? Grasso usa uma linguagem que mistura autoironia e doçura, com um narrador em primeira pessoa de ritmo irregular — frases complexas alternadas com frases secas — que lembra Eduardo De Filippo ou os primeiros livros de Moravia.

"Finché durerà la terra", de Giovanni Grasso (Rizzoli, 2026).

Noé se vira como pode, e tem um dom: um nariz com um "olfato absoluto", uma hipersensibilidade que lhe permite discernir o pós-barba Brut 33 de Dom Bruno, o vetiver que paira no quarto do cardeal, o ozônio que precede uma tempestade, o spray de cabelo de Aida, o aroma de jasmim e castanha da pele de Arianna. Ele fareja o perfume de lavanda Atkinsons — o pós-barba de seu pai — e esse aroma é sua madeleine, o fio que o mantém ligado a um homem que morreu caindo de um andaime. O mundo de Noé é um mundo de cheiros e perfumes. E em um mundo onde todos mentem, o olfato é o único detector de mentiras confiável, uma ferramenta de discernimento que não se deixa enganar. E isso muda tudo. O olfato se torna faro.

A história muda de ritmo quando chega um telefonema do Vaticano. O Cardeal Randazzo quer se encontrar com ele. Na Úmbria, um casal de videntes afirma receber mensagens do Purgatório. Por que não do Paraíso? Porque, se pensarmos em termos de marketing, o Purgatório reflete melhor a lei dos grandes números: é o espelho da vida real, onde são poucos os infames que merecem o inferno, e menos ainda aqueles tão santos e imaculados a ponto de irem diretamente para o paraíso. Em torno das supostas aparições se formou um pequeno movimento, atraindo peregrinos, curiosos e oportunistas. A filha de um poderoso ministro se juntou à comunidade e parece não querer voltar para casa. A Santa Sé precisa de alguém para investigar sem chamar a atenção. Noé é perfeito porque não representa oficialmente ninguém: sim, não tem qualidades.

O romance toma um rumo que poderia lembrar um thriller eclesiástico, mas Grasso evita com maestria o sensacionalismo do gênero. A comunidade de Tressanti — apoiada pelo pároco, um "aiatolá católico" que não suporta Johann Sebastian Bach por ser protestante — não é uma simples farsa religiosa. Ao redor dos videntes convivem pessoas sinceras, credulidade popular, interesses econômicos e uma grande quantidade de dor. Grasso, além disso, usa o bisturi para identificar a conexão entre fundamentalismo religioso e ideologias neofascistas reacionárias, mostrando como aparições e falsas devoções podem se tornar seus veículos. É um alerta extremamente atual sobre a vulnerabilidade das comunidades frágeis e periféricas diante de quem transforma a necessidade de sagrado em uma arma política.

O romance de Grasso é também um romance sobre a Igreja Católica entendida como um organismo complexo, com seus espiões e freiras, suas piadas da cúria e seus cardeais de cera. A Irmã Liberina, que atende a ala de oncologia do Hospital Bambino Gesù, é a mesma instituição que envia Noé para trabalhar como agente secreto nas montanhas da Úmbria. Esse é o "corpo" da Igreja que Grasso conhece: nem santificado nem demonizado, mas descrito em sua irredutível ambiguidade. Assim, o romance se encaixa na tradição italiana de Manzoni a Sciascia, onde fé popular e astúcia social se entrelaçam. Há um sonho, no próprio âmago do romance. Noé, no ônibus que o leva de volta a Roma, mergulha num estado de semiconsciência em que a cúpula de São Pedro, atingida por raios, cai virada para baixo num mar de piche, volta a emergir pelo teorema de Arquimedes e se transformar numa arca. Noé nada, está prestes a se afogar, mas a mão firme de sua mãe o segura. É uma imagem poderosíssima: a Igreja que desmorona se torna uma arca, a instituição que afunda se torna salvação. O sagrado se inverte, a cúpula se torna uma quilha.

Aqui está o sentido do título, "Finchè durerà la terra” (Enquanto durar a Terra, Rizzoli), que vem do livro bíblico do Gênesis: após o dilúvio, Deus não promete um mundo sem dor, mas que a vida continuará. No romance, o dilúvio representa a morte do pai, a leucemia de Greta, a violência e a corrupção religiosa. Mas o mundo continua porque os laços concretos resistem e porque sempre há uma mão pronta a segurar antes de se afogar.

A cena final mostra Noé, Valéria e a pequena Greta em audiência com o Papa. O Santo Padre lhes oferece para trabalhar para os serviços secretos do Vaticano. Ele recusa, e, em uma última reviravolta, Grasso faz o protagonista contar uma piada teológica que deixamos para o leitor descobrir. A reação do papa — que fica agitado, pergunta sobre o autor e se preocupa — sugere que ele mesmo inventou a piada, quando ainda era um simples padre latino-americano. A última linha do romance é o som de uma "risada sonora que ecoa alegremente nas superfícies de mármore polidas como espelhos". Todo o peso da narrativa — a doença, o medo, a traição, a dúvida teológica — se dissolve naquele som. O papa ri. A mão da menina está quente na mão do tio. A Terra ainda perdura.

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