O Concílio como bússola: de Paulo VI a Leão XIV. Artigo de Marco Vergottini

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02 Abril 2026

"Não é um retorno nostálgico aos anos sessenta, nem uma canonização acrítica do evento conciliar. É, antes, um investimento no futuro."

O artigo é de Marco Vergottini, teólogo leigo, publicado pela revista Appunti di Cultura e Politica, e reproduzido por Settimana News, 31-03-2026. 

Eis o artigo. 

Existe um fil rouge (fio condutor) que atravessa os últimos pontificados e que quase constitui uma "prova de fogo" para avaliar e apreciar o grau de maturidade eclesial, de consciência histórica — bem como de visão estratégica e de responsabilidade institucional — de cada sucessor de Pedro. Merece, portanto, ser reconhecido como um dado teológico e político-eclesial de primeira grandeza o fato de que nenhum pontífice, desde a época conciliar em diante, pôde esquivar-se do confronto com o Vaticano II. Não como uma homenagem ritual, mas como uma etapa identitária.

Os primeiros quarenta anos: de Paulo VI a João Paulo II

A atitude de Paulo VI no Concílio Vaticano II foi, ao mesmo tempo, prudente e audaciosa, pastoral e institucional, reformadora, mas nunca revolucionária. Embora na primeira sessão tenha se posicionado entre os defensores da maioria conciliar, sua ação como pontífice nunca foi a de um chefe de facção. Buscou o equilíbrio entre as instâncias de reforma e as preocupações da minoria mais cautelosa. Sua marca foi o governo da mediação. Tendo sucedido João XXIII em junho de 1963, ele não se limitou a prosseguir com a assembleia: ele a orientou, governou suas tensões e garantiu sua conclusão.

Montini assumiu o Concílio como herança e responsabilidade. Reabriu-o com determinação, dissipando dúvidas sobre uma possível interrupção. Seu primeiro gesto foi político-eclesial: afirmar que o Concílio não era um episódio, mas um processo irreversível. Se João XXIII acendeu o estopim, Montini governou a chama, impedindo que se tornasse um incêndio ou que se apagasse por medo.

Do Vaticano II, o Papa Montini foi o condutor e o intérprete inquieto: encerrar o Concílio não significou arquivá-lo, mas sim abrir uma temporada de recepção. De 1966 a 1978, em suas intervenções oficiais sobre o Vaticano II, contam-se mais de 150 discursos temáticos e pelo menos outras 150 menções circunstanciais.

Por sua vez, Karol Wojtyła participou da assembleia na Basílica de São Pedro em todas as quatro sessões. Como padre conciliar, destacou-se: a) por uma antropologia personalista e cristocêntrica, contribuindo para a redação do esquema XIII, que se tornou a Gaudium et Spes; b) pela defesa convicta da liberdade religiosa ("só a verdade liberta"), denunciando, por outro lado, os horrores do comunismo; c) por uma visão de diálogo não ingênua, mas enraizada na verdade (Dignitatis humanae).

Intérpretes tendem a acreditar que a viga mestra da Gaudium et Spes — a "pérola" contida no n. 22: "Na realidade, o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado" — tenha sido sugerida pelo então jovem bispo Wojtyła.

Tornando-se João Paulo II, já na escolha do nome indicou que seu pontificado assumiria o último Concílio como plataforma missionária. Sob esse perfil, a categoria "nova evangelização", em suas intenções, foi a declinação dinâmica da Lumen Gentium e da Gaudium et Spes em um mundo pós-ideológico. O Catecismo de 1992, a Teologia do Corpo e o ecumenismo de Assis são todos aspectos que pedem para ser inscritos dentro do horizonte conciliar, nunca fora dele.

Ratzinger e Bergoglio: continuidade e/ou reforma

Joseph Ratzinger também participou da assembleia vaticana, porém não como padre sinodal, mas como um jovem perito teólogo acompanhando o Cardeal Frings de Colônia, posicionando-se, portanto, no campo reformador do episcopado centro-europeu, ao lado de teólogos renomados como Karl Rahner, Hans KüngYves Congar e Edward Schillebeeckx.

Em novembro de 1964, durante a fase final da redação da Lumen Gentium, quando o Papa Montini decidiu anteceder o texto com uma Nota explicativa praevia para esclarecer a relação entre a colegialidade episcopal e o primado do Papa, alguns círculos reformadores interpretaram inicialmente a iniciativa como uma limitação do alcance inovador da colegialidade. Como documentado em suas memórias autobiográficas (Minha Vida) e em testemunhos da época, o próprio Ratzinger manifestou desagrado e preocupação. Em 1965, Ratzinger foi um dos fundadores da revista internacional Concilium, cujo intuito era promover a recepção criativa do Vaticano II. Com o tempo, porém, Ratzinger percebeu que o periódico tendia a privilegiar uma perspectiva fortemente reformista, por vezes crítica ao magistério romano. Consequentemente, distanciou-se progressivamente e fundou, junto com Hans Urs von Balthasar e Henri de Lubac, a revista mais moderada Communio.

Tornando-se Papa, em dezembro de 2005, declarou inequivocamente que entre a Igreja pré e pós-Concílio deveria sustentar-se uma "hermenêutica da reforma na continuidade" em oposição a uma "hermenêutica da ruptura". Não se tratava de uma querelle historiográfica, mas de uma questão de governo eclesial: estabelecer como ler o Concílio significava decidir como guiar a Igreja no século XXI.

Jorge Mario Bergoglio, diferentemente de seus predecessores, não entrou na aula conciliar. No entanto, propôs uma recepção pastoral e existencial do Vaticano II. A Igreja "em saída", a sinodalidade, a centralidade dos pobres e da misericórdia não são slogans, mas capítulos vividos daquela constituição pastoral que convidava a ler "as alegrias e as esperanças" do mundo contemporâneo como um lugar teológico.

Em uma homilia em abril de 2013, ele afirmou que "O Vaticano II foi uma visita de Deus à sua Igreja"; além disso, contra a tentação de neutralizar o impulso reformador, reclamou: "Não devemos domesticar a potência do Concílio" (Discurso à Cúria Romana, 21 de dezembro de 2019).

Habitar o Concílio: a escolha do Papa Leão

Agora, a decisão do atual pontífice Leão XIV de dedicar as catequeses de quarta-feira do presente ano a uma releitura sistemática dos textos conciliares marca uma etapa ulterior. Não se trata apenas de memória celebrativa, nem de uma operação de arquivo. É um gesto de orientação cultural e política no sentido mais elevado do termo: uma escolha que orienta a consciência eclesial e define sua agenda.

Em uma época marcada por polarizações intraeclesiais, por tensões geopolíticas crescentes e por transformações antropológicas aceleradas, voltar aos textos significa subtrair o Concílio das caricaturas e das apropriações seletivas. O Vaticano II foi frequentemente evocado como uma bandeira identitária: para alguns, símbolo de ruptura permanente; para outros, um trauma a ser redimensionado ou um parêntese a ser fechado. A escolha de relê-lo catequeticamente indica, em vez disso, uma terceira via: a via da alfabetização eclesial. Antes de discutir sobre o Concílio, é preciso conhecê-lo. Antes de brandi-lo, é preciso escutá-lo. Antes de invocá-lo, é preciso habitar suas palavras.

Do ponto de vista teológico, a releitura sistemática dos textos conciliares remete ao coração da virada do Vaticano II: a centralidade da Palavra de Dio (= Jesus Cristo), devolvida ao povo cristão como fonte viva através da Dei Verbum e da reforma litúrgica que leu a Eucaristia como fons et culmen (fonte e ápice) da vida cristã, recuperando o binômio Palavra e Sacramento e a participatio activa de todos os crentes durante a celebração da missa. Ao mesmo tempo, a Lumen Gentium propôs uma imagem de Igreja como Povo de Deus a caminho, antes mesmo de ser uma estrutura jurídica, valorizando a dignidade batismal comum e a corresponsabilidade dos fiéis. Voltar a esses núcleos significa repensar a identidade e a missão não em tom defensivo, mas como uma dinâmica de comunhão e escuta.

Do ponto de vista político-eclesial, a operação é tudo menos neutra. O Concílio redefiniu a relação entre Igreja e mundo, entre autoridade e consciência, entre colegialidade episcopal e primado petrino; abriu novas trajetórias no diálogo ecumênico e inter-religioso; repensou a presença pública dos católicos nas sociedades pluralistas. Retomar esses textos significa reabrir o canteiro de obras da interpretação sobre temas que hoje tocam a vida concreta das comunidades: participação, corresponsabilidade, ministerialidade difusa, liberdade religiosa, paz, relação entre fé e democracia.

Nesse sentido, Leão XIV parece intuir que a temporada de contraposições ideológicas não se supera com decretos disciplinares ou com tomadas de posição musculosas, mas com um trabalho cultural longo e paciente. As catequeses tornam-se, assim, um espaço público de formação política da consciência eclesial: um laboratório no qual se aprende a pensar a Igreja não como um campo de batalha, mas como uma comunhão em caminho.

Não é um retorno nostálgico aos anos sessenta, nem uma canonização acrítica do evento conciliar. É, antes, um investimento no futuro. Se cada Papa, desde a época conciliar, teve que "ajustar as contas" com o Vaticano II, hoje o desafio parece diferente: não defendê-lo nem superá-lo, mas habitá-lo com maturidade histórica. Em um tempo que pede à Igreja que seja uma minoria criativa e uma presença dialogante no espaço público, o Concílio volta a ser o que foi na origem: não um evento encerrado, mas uma gramática aberta.

E talvez seja justamente este o sinal mais interessante para quem observa a Igreja com olhar político: o centro não é a nostalgia do passado nem a ansiedade pela descontinuidade, mas a qualidade da interpretação. Porque da maneira como se lê o Concílio depende, em larga medida, a maneira como se imagina a Igreja de amanhã.

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