O sentido da cruz de Cristo: superação da lógica sacrificial expiatória como consequência do amor radical a Deus e à humanidade. Artigo de Elias Wolff

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02 Abril 2026

“A cruz de Cristo como superação do sacrifício expiatório, manifestando o amor radical a Deus e à humanidade.”

O artigo é de Elias Wolff, professor do Programa de Pós-graduação em Teologia - PUCPR. 

Eis o artigo. 

Na Semana Santa e na Páscoa, a comunidade cristã celebra sua fé em Cristo como Salvador. Tal foi a finalidade da encarnação do Verbo (Jo 1,14), tornando o homem de Nazaré “único” mediador entre Deus e a humanidade e realização da sua vontade salvífica universal (At 4,10; 2Tm 3,2-5). Todo o ministério de Jesus foi afirmação da Boa Notícia de “vida em abundância” (Jo 10,10), o que se concretiza no Reino que está para chegar (Mc 1,15), como início de numa nova vida, “em abundância” (Jo 10,10), própria de um novo tempo.

Tradicionalmente, temos aprendido que a salvação se deu através de um sacrifício expiatório, a paixão e morte de Cristo. O sofrimento do Filho na cruz fazia parte de um plano salvífico do Pai, operando de modo vicário para o bem da humanidade, de modo que o “derramamento de sangue” (Hb 9,22) era necessário para a remissão dos pecados. Deus entregou Jesus como uma troca pelas almas cativas (Mt20.28; Mc10.45).

Isso porque a revelação do plano salvífico de Deus é intrinsicamente vinculado à problemática do pecado e a necessidade do perdão. A estrutura soteriológica é: a criação como manifestação do amor divino; o pecado que desequilibra a harmonia da criação e ofende a Deus; o castigo; a necessidade do perdão por uma reparação adequada, capaz de satisfazer a justiça divina e seu amor infinito; a morte de Jesus na cruz como sacrifício expiatório dos pecados humanos.

O que está em questão é se a morte de Jesus na cruz foi uma exigência de Deus Pai, como conditio sine qua non para salvar a humanidade, ou se foi consequência das opções do próprio Jesus, sua coerência com o projeto do Reino no qual entendia realizar a vontade do Pai (Sartorel; Cabral, 2012, p. 2).

A história da teologia mostra diferentes entendimentos da cruz de Cristo: Irineu (125-202) fala de um ato de ‘expiação’ dos pecados e ‘recapitulação’ da história da humanidade; Orígenes fala de ‘resgate’ que Cristo pagou a Satanás para libertar o ser humano do pecado; Anselmo de Cantuária (1033-1109) propõe a teoria da ‘satisfação’, um ato de amor infinito com poder de reparação da honra de Deus e aplacar a sua ira. Tomás de Aquino (1225-1274) e, mais tarde, os reformadores Lutero e Calvino assumem a teoria da ‘expiação’ de Anselmo; Pedro Lombardo Abelardo (1079-1142) propõe a teoria do ‘exemplarismo’, seguido por Fausto Socino (1539-1604) e Friedrich Schleiermacher (1768-1834), entre outros, mostrando o sacrifício de Jesus - vinculado à sua vida e ao seu ministério - como exemplo a ser seguido de fidelidade a Deus e para se obter a salvação; Hugo Grotius (1583-1645) entendeu existirem elementos jurídicos na cruz de Cristo. Como soberano que é, Deus tem ‘o direito de punir o pecado’ e ‘a expiação foi necessária para proporcionar o perdão e para, simultaneamente, preservar a estrutura moral do mundo’. Existe, ainda, a teoria da ‘substituição penal’, pela qual Cristo teria cumprido uma pena pela sua morte, a qual foi uma ‘expiação vicária’, como ‘substituição’ por ter morrido em nosso lugar. A sua morte expiou a culpa e cumpriu as exigências de Deus sobre a penalidade do pecado (Geisler, 2002; Trota; Oliveira Estees; Gerone Junior, 2024).

O que se conclui é que a morte de Cristo foi substitutiva, vicária e penal, como um ato de reconciliação entre Deus e a humanidade, estabelecendo um veredicto legal que justifica pecadores a partir de sua justiça.

Essa compreensão da cruz tem sido afirmada ao longo da tradição cristã, mas já não se sustenta em nossos dias. A teoria da satisfação expiatória é uma espécie de barganha que Deus faz, exigindo “alto preço” pelo perdão. A imagem de um Deus que pune, castiga nossas faltas, o apresenta como um senhor tirano, um Deus egoísta preocupado com a própria honra e a desonra é punida gravemente (Horton, 2010, p.348). As implicações teológicas, espirituais, pastorais e morais presentes nas teorias da expiação, com seus diversos matizes, exigem repensar o sentido da cruz de Cristo.

Questões às teologias da cruz como sacrifício expiatório

A ideia de sacrifício expiatório fazia parte da vivência religiosa dos povos da antiguidade, circunvizinhos aos hebreus. Os patriarcas conheceram essa prática, como se observa no “sacrifício de Isaac” (Gn 22). Israel aceita o culto sacrificial, mesmo buscando dar-lhe novo significado, entendendo que Deus não precisa de sacrifícios, mas os aceita como nossa expressão de nosso culto e obediência (Lv 17,11). Profetas criticam esse ato meramente formal, vazio da prática da justiça e do direito (Is 1,11-17; Jer 6,20; 7,21; Os 6,6; Am 5,21-27; Miq 6,6-8).

A perspectiva de fundo das teorias de expiação é que o perdão chega a nós pela justiça vindicativa de Deus e não como fruto gratuito do amor divino, pois a satisfação ocorre antes do perdão. Além disso, em tempos nos quais se afirmam a autonomia e a responsabilidade de cada pessoa pelos seus atos, as teorias da satisfação expiatória não mostram a pessoa comprometida no projeto divino da própria salvação. Pois as consequências do pecado são reparadas por ‘um outro’, numa “transferência externa de méritos” (Williams, 2011, p. 323). Conclui E. Balducci (1981, p. 381- 382) que esta teoria “golpeia” dois mistérios: a concepção de um Deus Amor, que exige um pagamento cruel de uma dívida; e o mistério da pessoa humana, pois Deus preocupa-se mais em restabelecer a ordem por Ele criada do que com o ser humano.

Isso implica em refazer a hermenêutica da cruz realizada na perspectiva do Primeiro Testamento, onde a cruz tem caráter de sacrifício expiatório (1Jo 1,7;2,1-2), é remissão de nossos pecados (Cl 1,13-14) e o preço pago pela nossa salvação (1Pe 1,18-19; 2,24).

Ressignificando a cruz de Cristo

As teologias de expiação associam a morte de Jesus com a crença judaica de que o sangue do mártir justo seria dado pelo bem do povo (Is 53, 5.12). Assim, Jesus teria assumido a condição do “servo sofredor” (Sl 22; 34.37), dando sua vida “em resgate por muitos” (Mc 10,45), como vingança dos justos.

Tal ideia contradiz a imagem de um Deus que privilegia a misericórdia e não os sacrifícios (Mt 9,13). Um Deus que não pune o filho como condição do perdão, como mostra a parábola do “filho pródigo” (Lc 15, 11-32). A mentalidade do sacrifício expiatório na cruz quer, de um lado, mostrar a ineficácia do sacrifício do Primeiro Testamento (Hb 10,5-7) sendo Cristo “o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo” (Jo 1,29). Mas não na forma sacrificial da antiguidade. John Hick observa que “não há nenhuma sugestão no ensinamento registrado de Jesus de que a aceitação amorosa pelo Pai celeste daqueles aos quais estava falando era condição de sua própria morte futura” (Hick, 2018, p. 83). O ‘porquê da cruz’ está envolto no mistério do amor radical de Cristo, é esse amor que dá sentido à sua morte e à nossa vida cristã. Trata-se de uma coerência de Jesus ao projeto divino, como autodoação que pode nos transformar também em dom para Deus, mostrando-nos concretamente que “aquele, porém, que perseverar até o fim, será salvo” (Mt 24, 13). A cruz foi consequência histórica do compromisso de Jesus com os pobres, a justiça e o Reino.

Portanto, a cruz de Cristo não é uma exigência divina como um ‘fechamento de contas’, com Deus ou com Satanás ou algo imprescindível para reparar uma ordem estabelecida por Deus. O coração da mensagem da cruz de Jesus é a coerência ao projeto do Reino de Deus, que implica em viver na sua presença e fazer-se instrumento da sua vontade “assim na terra como nos céus” (Mt 6,10). A cruz é o enfrentamento das contradições cotidianas movido pelo amor radical ao Pai e à humanidade. Aí enraíza-se o nosso discipulado de Cristo, nossas relações com Deus e a nova qualidade de vida religiosa e social. Rompe com o fechamento existencial marcado pelo egoísmo, o orgulho, a ambição, a injustiça. Pois “quem quiser salvar sua vida, vai perde-la” (Mc 8,35). A perspectiva da salvação cristã é, portanto, a auto entrega ao Deus de Jesus Cristo, vivendo constantemente em sua graça que perdoa e ama infinitamente. A cruz deve ser entendida no contexto de todo o ministério de Cristo, como afirmação da Boa Notícia da “vida em abundância” (Jo 10,10) que se concretiza no Reino que “já está entre vós” (Mc Lc 11,20). Hick conclui que “O sentido real da morte de Jesus não foi o de que seu sangue foi derramado [...] mas sim que ele se deu de maneira absoluta a Deus em fé e confiança” (Hick, 2000, p. 177), como plena e íntegra autodoação ao Pai.

Dimensão social da cruz

A cruz é um ensino do amor cristão a Deus e às pessoas, sobretudo a quem sofre injustamente. A cruz constitui denúncia das estruturas injustas e a expressão suprema de um amor radical que se encarna na história e se compromete com os oprimidos. Ela fala a todos os que sofrem e lutam por dignidade, inspirando-nos inspira a viver um estado de confiança em Deus diante das adversidades e injusticas que possibilite uma conversão em duas horizontes: qualificação da própria existência por uma superação radical de toda tendência egocêntrica, individualista; centramento de todo ser e existir em Deus, que Hick denomina “Realidade última” (cf. 2000, p. 187). Tal é uma vida de ‘santidade’, como bem-aventurança, assumindo os critérios para o ‘juízo final’ (Mt 24,31-46) numa conversão ética e espiritual do viver cristão.

Temos aqui a dimensão social/comunitária da cruz. O mistério da dor, do sofrimento e da morte presente no cotidiano de cada ser humano clama por sensibilidade solidária. A experiência da cruz vincula o cotidiano social e o cotidiano religioso. Os crucificados pela injustiça, a pobreza, a fome, a sede, a falta de emprego, de trabalho, de moradia, entre outras carências, se integram na cruz de Cristo. Frente a essas realidades, somos chamados a contemplar o mistério da cruz de modo profético, ético, político. E nossa adoração da cruz se converte em luta pela a superação de toda injustiça, todo ódio e toda maldade existente nas relações entre pessoas e entre povos. E, assim, a cruz ensina a transformação espiritual da humanidade por relações de compaixão interpessoais, intergeracionais, intergênero, entre etnias e por toda a criação. É nesse sentido que entendemos “a cruz como limite desmistificador”, sendo “a morte de Jesus como lugar da revelação divina” (Queiruga, 2004, p. 165), “assume e encerra o sentido que ele deu a todo o anterior (Queiruga, p. 2010, 259).

Referências

BALDUCCI, Ernesto: Il mandorio e il fuoco. Roma: Ed. Borla, 1981.

GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética: Respostas aos críticos da fé cristã. São Paulo: Editora Vida, 2002.

HICK, John. Uma interpretação da religião. Respostas humanas ao transcendente. Petrópolis: Vozes, 2018.

HICK, John. A metáfora do deus encarnado. Petrópolis: Vozes, 2020.

HORTON, S. M. et al. Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal.12.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

QUEIRUGA, Andrés T. Repensar a ressurreição. São Paulo: Paulinas, 2004.

QUEIRUTA, Andrés T. Repensar a revelação. São Paulo: Paulinas, 2010.

SARTORELA, Pietro; CABRAL, Emílio C. Porto, “A morte de Jesus na cruz fazia parte do projeto de Deus?”. Kairós. v. 9, n.2, p.63-80, 2012.

TROTA, Israel Thiago; ALBUQUERQUE, Bruno da Silveira; OLIVEIRA ESTEES, Yohans de; GERONE JUNIOR, Acyr. “Teorias da expiação: análise sobre a razão teológica da morte de Cristo e o caráter expiatório de seu sacrifício”. Revista FVC, v. 2. n. 1, p. 1-30, 2024. Disponível em https://revista.faculdadevitoriaemcristo.edu.br/index.php/rfvc/article/view/28

WILLIAMS, J. Rodman. Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal. São Paulo: Editora Vida, 2011.

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