Pesquisadores identificam sala onde ditadura simulou suicídio de Vladimir Herzog

Cena forjada da morte de Vladmir Herzog. Foto: Silvaldo Leung

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31 Março 2026

Estudo da Unifesp revela o local exato da encenação feita no DOI-Codi em 1975.

A reportagem é de Gustavo Kaye, publicada por Agenda do Poder, 30-03-2026.

Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de São Paulo revelou o local exato onde foi montada a falsa cena da morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, durante o regime militar no Brasil.

O estudo soluciona um mistério que durava mais de cinco décadas ao identificar a sala utilizada para sustentar a versão oficial de suicídio apresentada pela ditadura. Herzog, na verdade, foi torturado e morto nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo.

A descoberta foi feita por uma equipe multidisciplinar formada por historiadores, arqueólogos e arquitetos, que analisaram a estrutura do prédio e cruzaram dados com registros históricos e imagens da época.

Investigação revela detalhes ocultos da estrutura

A identificação do espaço só foi possível após exames minuciosos nas paredes, pisos e tetos do edifício. Um som oco em uma das paredes indicou a existência de um ambiente oculto, que acabou sendo confirmado como o cenário da encenação.

De acordo com a coordenadora do grupo de trabalho do Memorial DOI-Codi, Deborah Neves, a descoberta também contribui para dar visibilidade a outras vítimas da repressão.

O prédio analisado abrigava o DOI-Codi, órgão de repressão onde presos políticos foram detidos, torturados e mortos durante a ditadura militar.

Vestígios reforçam histórico de violações

Durante as escavações, os pesquisadores encontraram marcas feitas por detentos para contar os dias de prisão, escondidas sob camadas de tinta e revestimentos colocados em reformas posteriores.

Na década de 1980, o local passou por alterações estruturais para abrigar o Instituto de Criminalística, o que dificultou a preservação das características originais.

Mesmo assim, elementos como pisos, revestimentos e estruturas antigas ajudaram a reconstituir o ambiente utilizado na época.

A imagem que marcou a ditadura

A principal dificuldade da equipe foi localizar a sala onde foi tirada a foto que se tornou símbolo da repressão no Brasil. A imagem mostra Herzog pendurado pelo pescoço em uma janela, em uma cena forjada para simular suicídio.

Na época, o jornalista, que era diretor de jornalismo da TV Cultura, havia sido convocado a prestar depoimento no DOI-Codi.

Segundo relatos reunidos pelo Instituto Vladimir Herzog, ele decidiu comparecer espontaneamente, apesar de alertas sobre os riscos.

Elementos estruturais confirmam o local

A equipe comparou a fotografia com o espaço encontrado e identificou uma série de coincidências estruturais que sustentam a conclusão.

Entre os indícios estão o piso de madeira original, posteriormente coberto, a janela com blocos de vidro e grade, além de marcas na parede compatíveis com a fixação da estrutura.

Outros detalhes, como vestígios da caixa de ferrolho e dobradiças antigas, também reforçam a identificação do ambiente.

Depoimentos ajudam na reconstrução histórica

Relatos de vítimas da ditadura foram fundamentais para entender o funcionamento interno do DOI-Codi. Entre eles está o de Ivan Seixas, que foi levado ao local ainda adolescente e testemunhou episódios de violência.

Após passar pelo DOI-Codi, ele foi transferido para o DOPS, outro órgão de repressão. O prédio que abrigava o DOPS hoje é sede do Memorial da Resistência, dedicado à preservação da memória histórica.

Os depoimentos contribuíram para validar as conclusões obtidas a partir da análise física do espaço.

Proposta de transformar local em memorial

Pesquisadores e entidades de direitos humanos defendem que o antigo DOI-Codi seja transformado em um espaço de memória, aberto à visitação pública.

Atualmente, o prédio é tombado, mas segue sendo utilizado como estacionamento de viaturas policiais.

Desde 2021, o Ministério Público de São Paulo move uma ação para que o local seja convertido em centro de memória. Para o procurador-geral Plínio Gentil, é essencial garantir o acesso da população à história.

Em nota, a Secretaria de Cultura do estado informou que São Paulo já conta com o Memorial da Resistência, voltado à preservação das memórias das violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar.

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