27 Março 2026
Os bispos alemães querem permitir que leigos preguem na missa – esse era o objetivo do Caminho Sinodal. Mas a forma como os membros do sínodo estão justificando isso não será ouvida no Vaticano, alerta o canonista Heribert Hallermann.
A informação é publicada por katolisch.de, 26-03-2026.
Segundo Heribert Hallermann, canonista de Würzburg, obter permissão em Roma para a pregação leiga na missa exige argumentos teológicos e canônicos – e não argumentos de justiça. Em um artigo para a Herder Correspondence (edição de abril), o professor emérito de direito canônico apresenta argumentos que poderiam persuadir o Vaticano a atender ao pedido dos alemães. "O desejo da Assembleia Sinodal por um aumento na proporção de mulheres, a promoção do ministério leigo ou uma maior diversidade na pregação provavelmente encontrará pouca ressonância nos dicastérios romanos", enfatiza Hallermann.
Hallermann argumenta que permitir que leigos preguem na Missa (homilia) se justifica principalmente pelo fato de que, na ordem jurídica atual, a pregação da Palavra de Deus "não é mais concebida como uma forma de exercer o magistério da Igreja, mas sim como uma realização do ministério da proclamação fundamentado no batismo, no qual todos os membros da Igreja, incluindo os leigos, participam ativamente". Ele sustenta que restringir certas formas de pregação requer justificativa. Hallermann considera pouco convincente o argumento da "suposta unidade necessária entre Palavra e Sacramento". Se levado às últimas consequências, esse argumento também excluiria os diáconos da pregação da homilia. Hallermann argumenta que a ideia, fortemente defendida no magistério pós-conciliar, particularmente pelo Papa João Paulo II (1978-2005), de que todas as partes da liturgia eucarística devem ser reservadas ao sacerdote celebrante, contradiz a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium (1963).
O canonista afirma ainda que o direito de pregar não depende da ordenação, mas da permissão concedida pelo bispo diocesano competente. Na Conferência Episcopal Alemã, já existem muitos assistentes paroquiais e pastorais com comissão episcopal. Sua missio canonica já inclui a autoridade para agir oficialmente em nome da Igreja, particularmente no ministério da proclamação, mesmo que isso não inclua a permissão para proferir homilias.
Sugestões para uma solução em conformidade com a lei
Hallermann critica a abordagem adotada pelos bispos alemães que, em sua assembleia plenária de primavera, aprovaram um conjunto de normas para a pregação, para as quais buscam a aprovação do Vaticano. Essas normas visam permitir que mulheres e homens qualificados e autorizados preguem durante a Eucaristia. Com isso, os bispos implementam a decisão do Caminho Sinodal de que, ao permitir a pregação de homilias, "a plenitude dos carismas e competências existentes pode ser respeitada e vivenciada". No entanto, Hallermann não considera o caminho por meio de uma norma específica da Conferência Episcopal Alemã (DBK) como viável, pois isso exigiria uma cláusula de autorização no direito canônico vigente ou um mandato da Sé Apostólica. Nenhuma dessas condições é atendida neste caso. Além disso, a comissão para a interpretação autêntica do Código de Direito Canônico da época decidiu que os bispos diocesanos não podem dispensar a restrição da pregação de homilias ao clero. Portanto, na visão de Hallermann, a única opção restante é solicitar um indulto. Um indulto é uma exceção que permite a aplicação de certas normas do direito canônico. Nesse caso, o indulto se referiria ao cânon 767 § 1 do Código de Direito Canônico, que estipula que a homilia é "reservada ao sacerdote ou ao diácono". Além do indulto, Hallermann acredita que a DBK também deveria solicitar um mandato explícito para desenvolver critérios que permitam aos leigos a autoridade para proferir homilias.
A prática ilegal da pregação leiga já existe em diversas dioceses alemãs, algumas há décadas. na Diocese de Rottenburg-Stuttgart, as diretrizes "O Ministério Extraordinário da Pregação de Leigos na Eucaristia", adotadas pelo Conselho Diocesano em 1999 e aprovadas pelo então Bispo Walter Kasper, permitem que leigos preguem na Missa. Hallermann vê uma exceção como uma oportunidade para legalizar essa prática: "Conceder um indulto nos termos do cânon 767 § 1 do Código de Direito Canônico reconciliaria a prática atual, prevalente em muitas dioceses alemãs, com o direito canônico vigente; bispos diocesanos e leigos encarregados de proferir homilias poderiam então agir com segurança jurídica."
Após a decisão do Caminho Sinodal de permitir a pregação leiga durante a Eucaristia, o Cardeal Arthur Roche, Prefeito da Diocese do Culto Divino, expressou sua oposição em uma carta ao então presidente da Conferência Episcopal Alemã, Georg Bätzing, em março de 2023. O Vaticano declarou que não via espaço para a pregação leiga durante a Eucaristia ou para que leigos administrassem o batismo regularmente. Roche referiu-se à lei litúrgica vigente, que permite apenas ao clero pregar durante a Eucaristia. "Isso não é uma exclusão dos leigos, e certamente não uma negação do direito e do dever de toda pessoa batizada, seja homem ou mulher, de proclamar o Evangelho, mas sim uma confirmação da natureza distintiva desta forma de proclamação, que é a homilia", escreveu Roche. O Prefeito temia que a pregação leiga criasse o risco de "mal-entendidos dentro da comunidade cristã a respeito do papel e da identidade do sacerdote".
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