Igreja e moradia. Artigo de Francisco de Aquino Júnior

Foto: Anja Schindler | Pixabay

20 Março 2026

"Embora não possamos resolver o problema da moradia, podemos fazer muita coisa em nossas comunidades e organizações pastorais: dar visibilidade e sensibilizar para o problema; ajudar remediar e aliviar situações urgentes e dramáticas; pressionar governos e órgãos públicos por serviços e infraestruturas que melhorem as condições de moradia; apoiar os movimentos de luta por moradia em nosso território e pelo Brasil afora etc."

O artigo é de Francisco de Aquino Júnior, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE, professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Eis o artigo.

A Campanha da Fraternidade 2026 chama atenção para o problema da moradia no Brasil. A garantia ou a negação do direito à moradia significa garantia ou negação de muitos outros direitos. Falando de moradia, não falamos apenas da casa. Falamos também das condições da casa e dos bens e serviços que possibilitam uma vida digna: água, banheiro, energia, saneamento, calçamento, escola, saúde, segurança etc. Direito à moradia significa direito a uma casa digna e direito aos bens e serviços da cidade.

Quando a gente pensa a moradia nesse sentido mais amplo (casa-cidade), a gente percebe que o problema é muito maior e está muito mais perto de nós do que parece. A situação mais extrema e dramática é sem dúvida a de quem vive nas ruas. E no Brasil são mais 365 mil pessoas nessa situação. Mas o problema da moradia atinge muito mais gente: Pensemos nas condições precárias de muitas moradias (tamanho, banheiro, rachaduras, insalubridade etc.). Pensemos na ausência ou insuficiência de infraestruturas básicas (água, energia, saneamento, calçamento, escola etc.). Pensemos na quantidade de moradias em áreas de risco (morros, encostas, beira de rios ou córregos etc.). Pensemos no peso do aluguel na renda de tantas famílias. De uma forma ou de outra, o problema da moradia está em toda parte. E bem perto de nós...

A Igreja se preocupa e se envolve com o problema da moradia porque isso atenta contra a dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, impede que as pessoas vivam com dignidade. É um pecado que clama ao céu. Se a missão da Igreja é a mesma de Jesus, que veio para que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10), ela não pode ficar indiferente ao problema da moradia. Está em jogo aqui um direito humano fundamental (moradia digna). Está em jogo a defesa e promoção da família (lugar de relação, intimidade, sossego etc.). Está em jogo a função social da propriedade: “o direito à propriedade privada está subordinado ao direito ao uso comum, subordinado à destinação universal dos bens” (João Paulo II). Está em jogo a dimensão política da fé, enquanto empenho na construção e efetivação de políticas públicas de habitação que garantam o direito à moradia digna para todas as pessoas.

Ao longo da quaresma, muitas comunidades e grupos pelo Brasil afora refletem e rezam o problema da moradia em encontros, novenas, vias-sacras etc. Mas sempre surge a pergunta sobre o que fazer: O que a gente pode mesmo fazer diante de um problema tão grande como esse? É verdade que não vamos conseguir resolver o problema. Mesmo que queiramos, não temos os meios econômicos, políticos e jurídicos para isso. Mas podemos fazer muita coisa para ajudar a enfrentar o problema:

a) Falar sobre o problema da moradia é uma forma de reconhecer o problema; uma forma de desprivatizar o tema da moradia; uma forma de dar visibilidade e tornar pública essa injustiça social; uma forma de sensibilizar a sociedade para o drama de tanta gente.

b) É muito importante identificar os problemas de moradia em nosso lugar: moradias precárias, problemas de infraestrutura, áreas de risco, aluguel etc. Fotografar, filmar, colocar nas redes sociais, nas celebrações, em programas de rádio etc.

c) Pode-se fazer um gesto concreto, ajudando uma pessoa/família a melhorar sua moradia (rachadura, telhado, banheiro etc.). Isso socorre um irmão necessitado, exercita nossa solidariedade, dá visibilidade e ajuda a enfrentar um problema social.

d) Outro gesto concreto possível seria um mutirão de limpeza de uma rua com esgoto a céu aberto. Além de amenizar um risco à saúde da população e criar um ambiente mais agradável, seria uma forma de denúncia do descaso político com o povo pobre.

e) Pode-se mobilizar a comunidade/paróquia para denunciar a carência de água, esgoto, calçamento etc. num bairro de periferia: fazer filmagens, caminhada, celebração, via-sacra; “comemorar” o aniversário do buraco ou esgoto a céu aberto etc.

d) Onde há ocupação de sem-teto e movimento de luta por moradia, pode-se fazer uma visita e escutar as famílias, pode-se dar visibilidade a essa luta nas celebrações e redes sociais da comunidade/paróquia, pode-se fazer via-sacra ou celebração etc.

Embora não possamos resolver o problema da moradia, podemos fazer muita coisa em nossas comunidades e organizações pastorais: dar visibilidade e sensibilizar para o problema; ajudar remediar e aliviar situações urgentes e dramáticas; pressionar governos e órgãos públicos por serviços e infraestruturas que melhorem as condições de moradia; apoiar os movimentos de luta por moradia em nosso território e pelo Brasil afora etc.

Fraternidade e moradia: Convertei-vos e crede no Evangelho!

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