18 Março 2026
Hegseth cita o salmo 144 para abençoar os bombardeios sobre o Irã. Mas o que o texto realmente significa? Não guerra eterna, mas paz.
O artigo é publicado por Igreja Evangélica Luterana da Itália, 12-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O contexto
Em 10 de março de 2026, o Secretário de Defesa dos EUA (hoje de guerra), Pete Hegseth, concluiu seu pronunciamento sobre a agressão militar contra o Irã citando o Salmo 144: "Bendito seja o Senhor, minha rocha, que ensina as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra". Ele fez isso após anunciar "o dia mais intenso de ataques" contra o Irã. Ele o fez ao retornar da Base Aérea de Dover, onde havia recebido o corpo de mais um soldado estadunidense morto no conflito.
Não é a primeira vez: já em janeiro, durante um culto religioso no Pentágono, Hegseth havia compartilhado o mesmo salmo, revelando que o havia rezado durante o planejamento da operação militar na Venezuela.
Essa passagem bíblica, na interpretação de Hegseth, assume o significado de uma bênção divina sobre o poderio militar estadunidense.
Assim, a guerra se torna missão sagrada, o conflito armado se transfigura em liturgia. Contudo, como Igreja, podemos afirmar que essa leitura resiste a uma séria exegese bíblica?
A resposta, do ponto de vista da teologia luterana e de uma leitura rigorosa das Escrituras, é não.
O Salmo 144. O que o texto realmente diz
O Salmo 144 é um salmo régio, atribuído a Davi, de natureza composta.
Os exegetas o situam no período pós-exílio: portanto, não é o cântico de um conquistador triunfante, mas a oração de um povo que experimentou a derrota. Não só: também o exílio, a fragilidade radical da condição humana.
Davi havia sido o primeiro a experimentar a fuga da perseguição que Saul realizava contra ele. E, de fato, imediatamente após os versículos iniciais sobre a guerra, o salmo muda de tom decisivamente.
No versículo 3, o salmista pergunta: "Senhor, que é o homem, para que o conheças, e o filho do homem, para que o estimes?" E no versículo 4: "O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa".
Essa não é a linguagem do poderio imperial. É a linguagem da humildade radical perante Deus, da consciência de que toda pretensão humana de força é vaidade.
A segunda parte do salmo — aquela que Hegseth não leu — começa com o “cântico novo” (v. 9). Conduz à visão de um povo abençoado não pela guerra, mas pela prosperidade, pela paz e pela fertilidade: “Que os nossos filhos sejam como plantas crescidas na sua mocidade; que as nossas filhas sejam como pedras de esquina lavradas à moda de palácio” (v. 12). O salmo termina com uma imagem de shalom — paz integral — onde os celeiros estão cheios, os rebanhos se multiplicam e “não haja nem assaltos, nem saídas, nem gritos nas nossas ruas” (v. 14).
O Deus que o salmista bendiz não é o Deus da cruzada: é o Deus que conduz o seu povo através da guerra rumo à paz.
Leia mais
- “Um sujeito muito perigoso”: Alarme no Exército enquanto Pete Hegseth se deleita com a carnificina da guerra contra o Irã
- Pete Hegseth: anatomia psíquica de um covarde
- Pentágono, Hegseth continua testando autoridades para detectores de mentiras para revelar segredos
- Trump e Hegseth aos generais: "Preparem-se para a guerra". O Papa: palavras preocupantes
- O discurso de Trump e Hegseth contra os militares ameaça levar os EUA a um ponto sem volta
- Secretário de Defesa Hegseth testa Constituição em cultos no Pentágono
- Hegseth dá as boas-vindas aos generais: "Preparem-se para a guerra, não para a defesa"
- Pentágono pressiona startup a ceder IA para fins militares
- EUA: secretário de Defesa retuita um vídeo religioso dizendo que as mulheres não deveriam votar
- Operação Epstein: a guerra de Trump contra o Irã marca o fim do MAGA
- Com essa última agressão, o colapso do direito e da razão. Artigo de Luigi Ferrajoli
- O fim da ordem mundial. Artigo de Raniero La Valle
- "Uma guerra mundial pode começar mesmo que ninguém a queira". Entrevista com Florence Gaub
- "É assim que o direito internacional deixa de vigorar". Entrevista com Anne Applebaum
- Misericórdia é o outro nome de Deus, na inspiração do Salmo 144
- Salmos, o canto de quem sabe agradecer. Artigo de Gianfranco Ravasi
- Salmo 144 na oração inter-religiosa desta semana
- Os Salmos contra o inimigo