18 Março 2026
"Também lamentou que o movimento ambientalista estivesse falhando em se opor de forma eficaz 'às forças que representam ameaças existenciais à civilização'. Ao longo de sua trajetória como intelectual público, Ehrlich nunca teve medo de encarar o abismo", escreve William J. (Bill) Kovarik, professor de Comunicação da Radford University, em artigo publicado por The Conversation, 16-03-2026.
Eis o artigo.
O biólogo da Stanford University Paul Ehrlich, que morreu em 13-03-2026, em Palo Alto, foi um cruzado científico cujas previsões alarmantes sobre o crescimento populacional, a fome mundial e o colapso ambiental ganharam manchetes e provocaram controvérsias por décadas.
Às vezes chamado de “profeta da desgraça” por seus críticos, Ehrlich esteve entre as figuras mais públicas do movimento ambientalista. Foi admirado e frequentemente homenageado por seus alertas considerados proféticos. Mas também foi duramente criticado quando suas previsões mais pessimistas não se concretizaram.
Ehrlich fundou o Center for Nature and Society de Stanford em 1984 e escreveu mais de 40 livros e mais de 1.100 artigos científicos sobre ecologia, meio ambiente e dinâmica populacional. Fora da academia, é mais conhecido por ter escrito “The Population Bomb”, em 1968, junto com sua esposa, a bióloga conservacionista Anne H. Ehrlich, que sobrevive a ele.
O livro tornou-se um best-seller, sendo reimpresso mais de 20 vezes e traduzido para vários idiomas. Ele previa, de forma contundente, que o crescimento populacional esgotaria os recursos da Terra, levando a guerras e ao colapso social.
Em última análise, a obra tanto popularizou quanto polarizou o movimento ambientalista dos Estados Unidos.
Como estudioso da comunicação e da história ambiental, vejo a difícil luta de Paul Ehrlich pelo meio ambiente como emblemática do enorme abismo entre a ciência, de um lado, e uma cultura política influenciada pelos meios de comunicação de massa, de outro.
Também considero a morte de Ehrlich — juntamente com a de outros de sua geração, como Carl Sagan, E. O. Wilson e Jane Goodall — uma perda para um mundo que precisa, mais do que nunca, de visionários e cientistas públicos. A compreensão pública da ciência e da tecnologia é fundamental para o debate político, para a preservação ambiental e, nas palavras do químico físico britânico C. P. Snow, para o bem dos “pobres que não precisariam ser pobres se houvesse inteligência no mundo”.
"The population bomb", de Paul R Ehrlich (2017).
A batalha em torno do livro
“The Population Bomb” começou com uma declaração impactante: “A batalha para alimentar toda a humanidade está perdida”. E, porque a “cegonha superou o arado”, escreveram os Ehrlich, “centenas de milhões de pessoas vão morrer de fome”. A Índia, superpovoada, estava condenada, afirmavam, e a Inglaterra “não existirá no ano 2000”, após um colapso social e ambiental de grandes proporções.
Esses alertas dramáticos, embora exagerados, pareciam ao menos plausíveis na época. Cientistas mais antigos, incluindo Snow e o oceanógrafo Roger Revelle, também haviam alertado sobre o crescimento populacional superando a produção de alimentos.
Os Ehrlich foram influenciados por livros como os best-sellers de 1948 “Road to Survival”, do ecólogo William Vogt, e “Our Plundered Planet”, do paleontólogo Henry Fairfield Osborn. Todos esses pensadores deviam muito à “Cassandra” original da catástrofe populacional, o economista inglês Thomas Malthus, cujo livro de 1798, “An Essay on the Principle of Population”, alertava que a população mundial inevitavelmente ultrapassaria a oferta de alimentos.
Pior ainda, previa Malthus, os esforços para produzir mais alimentos apenas prolongariam o ciclo de fome e pobreza. No entanto, novas culturas agrícolas e técnicas de produção evitaram a catástrofe prevista por Malthus no século XIX. Como resultado, o termo “malthusiano” passou a designar visões excessivamente pessimistas sobre problemas sociais complexos.
Um tipo diferente de malthusiano
Bonito e articulado, Paul Ehrlich conquistou a imaginação do público por meio de reportagens, palestras e aparições na televisão. “The Population Bomb” o colocou no centro de um intenso debate global sobre meio ambiente e conservação. Ele participou como convidado do programa “The Tonight Show”, apresentado por Johnny Carson, mais de 20 vezes nas décadas de 1970 e início dos anos 1980.
Esse não era o perfil público típico de um professor de biologia. Como observou, em 1969, o repórter do The New York Times Robert Reinhold, Ehrlich era “representativo, talvez, de uma nova geração crescente de cientistas dispostos a se envolver no campo não científico — e por vezes áspero — de atuar publicamente contra questões como o DDT, a construção de rodovias e o crescimento populacional”.
Nem todos os defensores do meio ambiente concordavam com a visão de Ehrlich de que o crescimento populacional era a principal ameaça. Outro biólogo de destaque, Barry Commoner, via a tecnologia inadequada como a principal fonte dos problemas ambientais.
Para ser justo, Ehrlich e seu colaborador frequente, o físico John Holdren, entendiam tecnologia e população como fatores interligados em um problema social complexo, que resumiram na equação I = P × A × T, ou Impacto = População × Afluência × Tecnologia. Em outras palavras, o crescimento populacional, a riqueza e os tipos de tecnologia que as pessoas escolhem usar contribuem conjuntamente para os impactos humanos sobre o meio ambiente.
O debate entre Paul Ehrlich e Barry Commoner deixou algumas pessoas perplexas, mas evidenciava duas abordagens distintas para a política ambiental. Na perspectiva de Commoner, problemas tecnológicos — como resíduos tóxicos e radiação nuclear — seriam resolvidos por meio de processos de descontaminação e melhorias técnicas.
Ehrlich, por sua vez, argumentava que a redução do consumo excessivo e o enfrentamento do crescimento populacional também ajudariam a aliviar esses desafios. Para desacelerar esse crescimento, ele defendia a promoção de métodos contraceptivos e a ampliação do acesso ao aborto, e chegou a considerar até medidas coercitivas, como a esterilização forçada.
Na década de 1970, o foco no crescimento populacional tornou-se amplamente aceito. A primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Stockholm em 1972, colocou o crescimento populacional, ao lado da poluição e do subdesenvolvimento, entre as principais prioridades da agenda global. Ainda naquele ano, o influente think tank europeu Club of Rome reforçou os alertas de Ehrlich em seu amplamente divulgado relatório “Limits to Growth”.
Escassez ou abundância?
A população mundial continuou a crescer nas décadas de 1970 e 1980, mas os impactos previstos por Ehrlich não se concretizaram. Isso ocorreu, em grande parte, devido à chamada Green Revolution, uma ampla iniciativa de governos e institutos de pesquisa que difundiu variedades de trigo e arroz de alto rendimento, além de pesticidas e agricultura mecanizada, especialmente em países em desenvolvimento. Essas inovações aumentaram a produção agrícola e reduziram drasticamente o risco de fome.
O cientista agrícola Norman Borlaug, líder desse esforço, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1970. Em seu discurso, Borlaug fez questão de concordar com Ehrlich, afirmando que a Revolução Verde era apenas um alívio temporário e que o controle populacional também era essencial na luta contínua contra a fome.
Economistas e cientistas de orientação conservadora, no entanto, não se convenceram. Um crítico de destaque, o economista acadêmico Julian Simon, defendeu o que ficou conhecido como a visão “cornucopiana”, segundo a qual os únicos limites ao crescimento seriam a imaginação e a engenhosidade humanas. Para Simon, a Terra teria capacidade ilimitada de fornecer recursos, já que os seres humanos constantemente inovariam e encontrariam novas formas de utilizá-los.
Em 1980, Simon apostou publicamente com Ehrlich que os preços de cinco matérias-primas industriais importantes — cobre, níquel, tungstênio, cromo e estanho — cairiam, e não subiriam, ao longo da década seguinte. Ehrlich afirmou que preferiria uma medida ambiental em vez de metais, mas sustentou que os recursos se tornariam escassos e os preços aumentariam.
Simon, por outro lado, argumentava que os mercados e as novas tecnologias reduziriam os preços. No fim, embora os preços desses metais tivessem aumentado nas décadas anteriores e voltassem a subir nos anos 1990, eles caíram entre 1980 e 1990. Simon venceu a aposta, e Ehrlich lhe enviou um cheque em 1990 no valor de US$ 576,07 — a diferença entre os preços de 1980 e 1990.
Uma questão de tempo
Depois que as catástrofes previstas por Paul Ehrlich em “The Population Bomb” não se concretizaram, muitos críticos zombaram dele. “Como você deve ter notado, a Inglaterra ainda está aí. E a Índia também”, ironizou, em 2015, o colunista do The New York Times Clyde Haberman.
“Paul Ehrlich é um misantropo que faria você pedir autorização ao governo para ter um bebê, se pudesse”, escreveu Chelsea Follett, do Cato Institute, em 2023.
Ehrlich e seus apoiadores responderam que, embora a Revolução Verde tenha evitado uma fome generalizada, os impactos humanos continuavam a pesar cada vez mais sobre o planeta. Levando em conta problemas como as mudanças climáticas e a poluição tóxica, Ehrlich afirmou, em 2009, que “The Population Bomb” havia sido “otimista demais”.
Em sua autobiografia de 2023, “Life”, Ehrlich expressou profunda gratidão por uma carreira de 70 anos na ciência. No entanto, demonstrou frustração com o que via como a incapacidade da ciência de penetrar a cultura política dos Estados Unidos, que ele considerava persistentemente avessa ao pensamento científico. Também lamentou que o movimento ambientalista estivesse falhando em se opor de forma eficaz “às forças que representam ameaças existenciais à civilização”. Ao longo de sua trajetória como intelectual público, Ehrlich nunca teve medo de encarar o abismo.
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