Feminicídio cresce 190% em 11 anos e expõe falência da proteção às mulheres

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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16 Março 2026

Entre 2015 e 2025, o Brasil acumulou 13.474 vítimas de feminicídio. O crescimento é contínuo, ininterrupto e estrutural.

A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 11-03-2026.

Em 2015, primeiro ano da tipificação do crime, foram 534 – uma por dia. Em 2025, o país chegou a 1.548 vítimas, quatro mortes diárias. Um salto de 190% em onze anos. O assassinato de mulheres por razões de gênero deixou de ser estatística episódica para se consolidar como um dos grandes desafios do Brasil.

No Rio Grande do Sul, a gravidade do cenário chegou a motivar a criação de uma comissão externa na Câmara dos Deputados, após a chamada “Tragédia da Páscoa” de 2025. Em cinco dias do feriado estendido daquele ano, dez mulheres foram mortas pelo simples fato de existir.

E 2026 já começou com sinais de que a curva pode seguir ascendente. Só no RS, janeiro contabilizou 11 assassinatos que foram enquadrados na tipificação. Até o fechamento desta matéria, outras oito foram mortas no mês de fevereiro.

Desde 2019, o país mantém-se na assustadora média diária de quatro mulheres vítimas de feminicídio.

“A violência contra a mulher não é um surto, é uma epidemia. Ela é crônica, tem índices altíssimos e produz vários tipos de adoecimento, impacto econômico e social”, afirma Estela Bezerra, secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres do Ministério das Mulheres.

“Não é sobre feriado. É sobre machismo. Se essa violência não fosse tão culturalmente estabelecida, já teríamos condições de ver sua diminuição”, resume a deputada federal Maria do Rosário (PT). Ela foi a encarregada do relatório da Comissão Externa da Câmara dos Deputados de Combate aos Feminicídios no Rio Grande do Sul, apresentado no dia 10 de fevereiro, em coletiva no Salão Nobre da Assembleia Legislativa gaúcha.

“A combinação entre um mundo educacional instável, a ausência de trabalho emocional consistente e a reprodução de masculinidades violentas cria um terreno fértil para comportamentos agressivos”, entende o educador Hugo Monteiro Ferreira, autor do best-seller A geração do quarto (Record) e do recente Agora o meu chão são as nuvensAs famílias contemporâneas e os desafios na educação de crianças e adolescentes (Autêntica). Para ele, em casos extremos, “a lógica do ‘tudo ou nada’ se expressa na violência contra as mulheres e no feminicídio”.

A anatomia da violência estrutural

Os dados revelam que o feminicídio não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma cadeia de violências que se iniciam muito antes da morte. Segundo Estela Bezerra, 80% das vítimas são mortas por maridos, ex-maridos ou companheiros que não aceitam o fim do relacionamento.

O perfil dos agressores desconstrói estereótipos: na maioria dos casos, não são “criminosos de carreira”, mas homens sem ficha policial que praticam o crime quando a mulher diz “não”. “Esse homem não é identificado como um criminoso contumaz, mas é um homem capaz de matar a mulher quando ela diz não”, destaca Estela.

A brutalidade tem chamado atenção. “O feminicídio é um crime de ódio”, enfatiza a secretária. “Uma pessoa dá 61 socos no rosto de outra, joga ácido no corpo, queima o corpo da pessoa. Esse tipo de crime não mata com um tiro. Usa todas as balas que têm para matar e destruir a imagem do corpo”, assevera.

Falhas sistêmicas na proteção

Cerca de 30% das mulheres vítimas de feminicídio estavam sob tutela do Estado – haviam procurado delegacias, tinham medidas protetivas ou tiveram essas medidas negadas. “O Estado precisa proteger essas 30% que estão sob sua tutela”, cobra Bezerra.

Para as outras 70%, que não chegaram ao sistema de segurança pública, a rede de proteção também falhou. “Elas chegaram no sistema de saúde, estavam na comunidade. A vizinhança sabia que eram vítimas de violência. Se têm filhos, os filhos demonstravam de alguma maneira nas escolas”, aponta.

O relatório do Rio Grande do Sul expõe a precariedade: 70% dos municípios gaúchos não contam com equipamentos específicos de proteção, como delegacias especializadas, casas-abrigo ou Patrulha Maria da Penha. “Não pode permitir que uma cidade, onde haja violência contra a mulher, as mulheres não tenham a quem recorrer”, critica a secretária, que esteve no estado para acompanhar a apresentação do relatório da Comissão Externa da Câmara Federal.

Arte: Fábio Edy Alves/Bold

Educação como antídoto

A solução passa necessariamente pela educação. O Ministério das Mulheres prepara para março uma portaria regulamentando a Lei 14.164/21, a qual inclui na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) conteúdos relativos à prevenção da violência contra a mulher e estabelece a realização anual da Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher em todas as instituições de ensino. “Essa lei foi sancionada no governo anterior por pressão, mas nunca foi implementada”, explica Bezerra.

Hugo Monteiro Ferreira defende uma “educação feminista para meninos”. “O ponto de partida é trabalhar a equidade de gênero de forma intransigente: meninas e meninos têm os mesmos direitos”, argumenta. Para o educador, há um “descompasso muito forte entre as transformações vividas pelas meninas e a permanência de modelos tradicionais de masculinidade entre os meninos”. (Leia entrevista no Extra Classe)

A proposta não se limita à escola. “Pais e mães precisam conhecer o universo dos filhos, suas referências culturais, o que eles escutam, assistem e com quem convivem”, orienta o educador. Conforme ele, “uma casa sem violência, com diálogo e cuidado, cria vínculos com a vida”.

O ambiente digital e o Pacto nacional

O papel das redes sociais na disseminação de discursos misóginos preocupa. “A lógica da dominação masculina não só migra para o ambiente digital, como se potencializa ali”, alerta Ferreira. Segundo ele, a misoginia e o discurso de ódio não aparecem de forma explícita, mas “embalados em imagens, sons e linguagens palatáveis, muitas vezes percebidos como ‘normais’ ou ‘engraçados’”.

Estela Bezerra confirma: “Temos observado uma monetização em cima da violência contra as mulheres. Muitos meios de comunicação e plataformas monetizam em cima dos casos mais violentos”.

O Ministério trabalha em uma lei modelo latino-americana para atuar no ambiente digital, responsabilizando as plataformas.

Em resposta à gravidade do cenário, foi instituído o Pacto Brasil contra o Feminicídio, articulando os três poderes. O comitê interinstitucional apresentará em março um plano com providências emergenciais, incluindo a unificação de prazos para medidas protetivas e o fortalecimento das Patrulhas Maria da Penha.

A secretária vê no engajamento político a chave para a transformação. “Várias das legislações obtiveram apoio de vários partidos. O que temos hoje é uma bancada fascista que gosta de aparecer pelo contraditório.” Para ela, a resposta está na mobilização social: “Não vote em quem agride mulher ou quem tenta tirar os direitos das mulheres”.

A urgência da transformação cultural

O consenso é que a legislação, embora necessária, não é suficiente. “Para combater a violência como ela existe, precisamos mais do que lei. Precisamos de serviços, educação e uma sociedade reprovando constantemente”, resume Maria do Rosário.

A transformação exige mudança de valores. “Isso não se resolve por decreto. Isso se resolve por valor humano”, conclui Estela Bezerra. “O valor humano precisa ser movido junto com a lei.”

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