“As inspirações de Madre Teresa foram totalmente distintas daquelas que inspiraram tanto a declaração do presidente Trump nesta semana – ‘A guerra vai acabar quando eu quiser que acabe’ – quanto a advertência do Irã aos Estados Unidos – ‘Não queremos trégua, vocês serão eliminados’”.
O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestra em Filosofia pela Unisinos e mestra em Teologia pela PUCRS.
Em dias como hoje, em que a fé é amplamente instrumentalizada e usada para fomentar discursos de ódio, projetos expansionistas de poder e matanças em nome de Deus e suas promessas, cabe refletir sobre qual deus tem sido invocado pelos diferentes grupos religiosos e, no caso dos cristãos, perguntar o que significa ser testemunha de Cristo, especialmente num tempo quaresmal.
Uma resposta pode ser encontrada nos ensaios publicados pelo teólogo suíço Hans Uns von Balthasar na Revista Communio: ser testemunha de Cristo é o critério que distingue o verdadeiro do falso cristianismo. “Assim como Cristo, como testemunha do Pai, evitou tudo aquilo que se parecesse com emprego da força, com publicidade, propaganda, assim deve também o testemunho dos ‘santos’ prescindir de todos esses meios humanos”.
Ter o Evangelho entre as mãos, como observou Dom Mimmo Battaglia nesta semana, e confrontar a realidade à luz dele pode nos ajudar a perceber a falsidade de discursos religiosos e políticos que se legitimam mutuamente em atitudes que não têm base na Palavra de Deus. O Evangelho também nos ajuda a discernir os falsos antagonismos que nos são apresentados diariamente, aos quais se adere mais por ideologia do que por convicção. Como bem pontuou o cardeal e arcebispo de Nápoles, “diante de uma criança assassinada, não existe mais direita ou esquerda, oriente ou ocidente, amigo ou inimigo: existe apenas o abismo”.
Mas “onde está o Evangelho”, disse o Papa Francisco numa audiência geral em 2019, “há revolução”. A revolução a que se referiu o pontífice se distância muito das revoluções políticas que conhecemos, marcadas por massacres, mortes, opressão, controle e submissão forçada dos povos – ainda que essas sejam abençoadas ou invocadas por autoridades religiosas. Trata-se, antes, de uma revolução de mentalidade que nos predispõe a amar e a encarnar a Palavra de Deus “até as últimas consequências”, como reiterou o Papa à época. Dito de outro modo: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 43-45).
A caridade é, na tradição cristã, a virtude mais elevada. Como os santos ensinam, essa prática não está associada ao tamanho da ação realizada, mas à intenção do coração. É um exercício difícil. Exigente. Requer amor, autodoação, sacrifício, renúncia, desinteresse, discrição, porque embora oferecida a Deus, é praticada ao próximo, especialmente àquele de quem não se deve esperar nada em troca, como ensina Jesus no Evangelho.
Madre Teresa de Calcutá, da Ordem das Missionárias da Caridade, considerada o “ícone do amor ao próximo”, exercitou-se nos dois mandamentos de Cristo, cuidando de crianças abandonadas, doentes, famintos, moribundos, viciados em drogas e aidéticos não somente na Índia, mas em diversos países onde a Ordem atuou e segue atuando. As inspirações da religiosa foram totalmente distintas daquelas que inspiraram tanto a declaração do presidente Trump nesta semana – “A guerra vai acabar quando eu quiser que acabe” – quanto a advertência do Irã aos Estados Unidos – “Não queremos trégua, vocês serão eliminados”. Devota do Sagrado Coração de Jesus por influência dos jesuítas e canonizada pelo Papa Francisco em 2016, Madre Teresa foi testemunha de Cristo na vivência dos conselhos evangélicos.
O testemunho da religiosa ensina que ninguém vive o cristianismo a partir de si mesmo, dos seus pensamentos, desejos e propagandas de autoajuda e destruição. O verdadeiro cristianismo aprende-se com Cristo. A revolução do Evangelho inicia no coração, renunciando-se a si próprio por amor a Ele. É o Espírito quem ensina, muda o coração, a mentalidade e nos torna testemunhas atuantes no mundo – e não do mundo, como sublinha o magistério da Igreja.
Abandonemos, pois, o espírito do mundo – o egoísmo, a inveja, o ódio, a discórdia, o desejo de dominação, destruição e morte – e abramos o coração ao Espírito de Deus, que conduz à caridade, à fraternidade, à alegria e à paz.