4º Domingo da Quaresma – Ano A – Eu creio que tu és a luz do mundo! Reflexão de Amelia Hackme Romano

13 Março 2026

“Qual a imagem de Jesus que cada uma, cada um de nós carrega na cabeça e no coração? Um rei glorioso? Estamos tão acostumados com a imagem distorcida de Jesus que carregamos dentro de nós, que já não percebemos a imagem verdadeira que está nos Evangelhos. A imagem de Rei Jesus, que está em nossa cabeça, dificulta perceber o Jesus servidor e impede de abrirmos os olhos para reconhecer a verdade de Jesus e sobre Jesus.”

A reflexão é de Amélia Hakme Romano. Ela é biblista leiga e faz parte do CEBI-Mato Grosso do Sul, colaborando com escolas e grupos de estudos bíblicos. Atua como facilitadora da Palavra em cursos, encontros, escolas e comunidades. 

Leituras do dia

1ª leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a
Salmo: Sl 22(23),1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)
2ª leitura: Ef 5,8-14
João: Jo 9,141

Eis a reflexão.

Por acaso, nós somos cegos também?” Este questionamento se encontra no Evangelho deste 4º domingo da quaresma, Jo 9, 1-41. É um texto longo, mas é muito intenso, muito cheio de vida! Temos um exemplo de como o evangelho de João revela o sentido mais profundo que existe escondido dentro dos acontecimentos. O texto escreve a cura de um cego, a quem Jesus devolve a luz aos olhos. É uma história carregada de muita simbologia. As comunidades da época estão cegas pela observância da lei, e por isso, não conseguem enxergar Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Tiveram que percorrer um longo caminho, cheio de conflitos, desde a escuridão até verem a luz.

Jo 9,1-5: Jesus está caminhando com seus amigos e vê um homem cego desde o nascimento. Seus discípulos perguntam: “Rabi, quem pecou, ele ou seus pais?” Naquele tempo, toda doença era vista como castigo de Deus por algum pecado, isso seria a ausência de Deus. Era um jeito das lideranças dos sacerdotes manterem o poder sobre o povo. Jesus não aceitava essa mentalidade e corrigiu seus discípulos. “nem ele nem seus pais, mas para que se manifestem os sinais de Deus!” Obras de Deus é o mesmo que o Sinal de Deus. Jesus acrescenta: “enquanto é dia, tenho que realizar as obras do Pai que me enviou. Quando é noite, já não dá mais para trabalhar.” João não usa em seu evangelho a palavra “milagre”, mas, sinais. O Dia dos sinais iniciou quando Jesus realizou o primeiro sinal em Caná (Jo 2). Mas o Dia está chegando ao fim e logo será Noite. A Noite é a morte de Jesus. 

Era dia sábado, proibido trabalhar!

Jo 9,6- 14: Jesus cuspiu na terra, fez com a saliva uma lama, colocou nos olhos do cego e o enviou para se lavar na piscina de Siloé (que quer dizer: enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando. As pessoas começam a questionar “será que é ele mesmo? como assim?” Sou eu mesmo gente! E o que era cego dá testemunho foi o “Homem Jesus quem abriu meus olhos” É preciso acreditar que Jesus é um ser humano igual a nós. Onde ele está? “Eu não sei”. Com a polêmica criada por Jesus, levam o homem para as autoridades religiosas. O sábado é dia de descanso.

Jo 9,15-17: Diante dos fariseus o homem agora testemunha o sinal de Jesus, contando tudo de novo o que Jesus fez. Eles cegos pela observância da lei comentam: “Ele não é Deus, porque não observou a lei do sábado”, é questionam: “como um homem, sendo pecador, pode realizar tais sinais assim” perguntam ao cego: “e você, o que nos fala?” O homem dá seu testemunho: agora para ele, “Jesus é um profeta!” 

Jo 9,18-23: Os judeus chamam os pais do homem curado e perguntam se é verdade que o filho nasceu cego. Os pais confirmam que nasceu cego, e dizem para eles que não sabem como isso aconteceu.! “Ele já tem idade, perguntem a ele!” Temiam fazer a profissão de fé, pois tinham medo.

Jo 9, 24-34: Eles chamam de novo o cego e dizem: “Dá glória a Deus! Sabemos que este homem é pecador!” isso era um jeito de pedir a Deus perdão pela mentira que tinha pregado quando disse que o homem que o curou era um profeta. Mas ele era esperto e fala: “se ele é pecador, eu não sei, o que sei é que eu era cego e agora estou enxergando! Diante de tanta insistência ele responde com ironia: “Eu já disse pra vocês que ele me curou. Ah! Vocês querem também ser discípulos dele? Respondem irados que ele sim era discípulo dele, mas eles são discípulos de Moisés, e que Deus falou com ele! Esse Jesus não sabemos quem é. Prontamente o cego diz: “Vocês não sabem quem ele é, ele abriu meus olhos! Não acreditam que Jesus veio de Deus.

O sinal de Jesus devolvendo a luz para o cego fez com que a fé crescesse dentro dele e rompeu com a lei que o excluía. Foi expulso da sinagoga. Assim acontecia no final do século I. Quem quisesse professar a fé em Jesus tinha de romper laços familiares e comunitários. Hoje não é assim também?

Jo 9,35-38: Quando Jesus soube da expulsão, procurou o homem e o ajudou a dar mais um passo, convidando-o a assumir sua fé no Filho do Homem Ele pergunta a Jesus: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele? Jesus responde: “Você está olhando para ele. Sou eu que estou falando com você!” Vem a confissão: “Creio, Senhor”! E se prostou diante dele. Essa atitude do cego diante de Jesus é de inteira confiança e aceitação!

Jo 9, 39-41: O cego que não enxergava, acaba enxergando melhor que os fariseus. As comunidades, que antes eram cegas, descobrem a luz. Os fariseus que, pensam que enxergam, são mais cegos que o cego de nascimento. Estão presos a observação da lei, mentindo quando dizem que veem.

Pior cego é aquele que não quer enxergar! Na realidade, continuam cegos.

No versículo 5, o Evangelho de João lembrou a frase de Jesus “Eu sou a luz do mundo”. No seu conjunto, é uma resposta para a pergunta feita por seus discípulos e não discípulos: quem és tu? Esse eu sou nos lembra o livro do Êxodo 3,15, presença libertadora no meio do povo. Para as Comunidades joaninas, o verdadeiro rosto deste Deus é o rosto de Jesus de Nazaré: “Quem me vê, vê o pai” Jo 14,9)

“Por acaso, nós somos cegos também?”

Perguntemos a nós mesmos:

Qual a imagem de Jesus que cada uma, cada um de nós carrega na cabeça e no coração? Um rei glorioso? Estamos tão acostumados com a imagem distorcida de Jesus que carregamos dentro de nós que já não percebemos a imagem verdadeira que está nos Evangelhos. A imagem de Rei Jesus, que está em nossa cabeça, dificulta perceber o Jesus servidor e impede de abrirmos os olhos para reconhecer a verdade de Jesus e sobre Jesus.

Reconheçamos, assumamos a missão de Jesus de Nazaré como aquele que doou a sua vida para que “todos e todas tenham vida e vida em abundância!”

Digamos como o cego que encontrou a luz: Eu creio que tu és a luz do mundo!

Amém. Assim seja!!

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