O emotivismo à luz do documento episcopal e do “Dilexit nos” de Francisco. Artigo de Guillermo Jesús Kowalski

Foto: Grzegorz Sękulski/Pexels

06 Março 2026

Embora a nota episcopal alerte contra o reducionismo emocional, Francisco questiona como evitar que a devoção se torne meramente introspectiva e carente de um compromisso genuíno com os pobres. Essas duas preocupações se reforçam mutuamente. O coração que fala ao coração deve também ouvir o clamor dos pobres, não de passagem, mas de forma central, como fazem as Bem-aventuranças.

O artigo é de Guillermo Jesús Kowalski, professor de religião, ciências sociais, filosofia e teologia, publicado por Religión Digital, 05-03-2026.

Eis o artigo.

Introdução

Numa época em que a experiência religiosa parece renascer apenas com entusiasmo emocional, dois textos recentes do Magistério convidam à reflexão: a Nota Doutrinária da Conferência Episcopal Espanhola "Cor ad cor loquitur", sobre o papel das emoções no ato de fé, e a Encíclica de Francisco Dilexit nos, dedicada ao Coração de Jesus.

Ambos compartilham uma intuição comum: a fé envolve o coração. No entanto, enquanto a nota episcopal se concentra em discernir o lugar das emoções em um contexto cultural marcado pelo emotivismo, Francisco amplia o horizonte e vincula o coração à opção preferencial pelos pobres, à denúncia do pecado estrutural e à atitude samaritana que transforma a história.

Estamos diante de perspectivas divergentes ou complementares? Trata-se de corrigir excessos emocionais ou de abrir nossos corações para uma responsabilidade social mais decisiva? A comparação entre os dois textos nos leva a uma síntese frutífera.

I. “Cor ad cor loquitur”: integrar a emoção sem absolutizá-la

A Nota Doutrinária começa com o lema do Cardeal Newman: "coração fala a coração". Desde o início, enfatiza que a fé não é um ato puramente intelectual nem meramente sentimental, mas um encontro holístico que envolve inteligência, vontade e emoções. Deus toma a iniciativa e o ser humano responde com todo o seu ser.

Os bispos reconhecem o ressurgimento da fé entre os jovens e valorizam as experiências intensas da evangelização inicial. No entanto, alertam para o risco do reducionismo emocional. Numa cultura que passou do "Penso, logo existo" para o "Sinto, logo existo", a emoção pode tornar-se o critério último da verdade.

Alguns de nós observamos, perplexos, como não apenas novos grupos de jovens, mas também a educação e a evangelização são "simplificadas" em cursos sobre emoções, que parecem abranger tudo, sem qualquer consideração por sua relevância para a realidade. Muitos desses cursos são ministrados por sacerdotes entusiastas desta "nova" era. A pós-modernidade se caracteriza precisamente pelo perigoso abandono de toda racionalidade e pela adoção de soluções emotivistas, como os novos ultrapopulismos, messianismos nostálgicos, discursos anticientíficos, terraplanismo, antivacinas, teriantropos e assim por diante. Obviamente, todos eles têm a percepção de algo verdadeiro, mas são verdades descontextualizadas que "enlouqueceram", como disse Chesterton. Esta não é uma luta de ideologias do século XX; é algo que as transcende, no nível dos paradigmas civilizacionais.

Quando a fé é medida pela intensidade do sentimento, o crente torna-se um consumidor de experiências espirituais desprovido de um contexto mais amplo. A emoção, volúvel e desconectada, não oferece uma visão holística da realidade e abandona a "fé em busca de entendimento" que enriqueceu a tradição cristã. Além disso, o emocionalismo facilita a manipulação emocional, inclusive o abuso espiritual.

Mas a resposta episcopal não é um retorno ao racionalismo frio. Eles valorizam as emoções como constituintes da pessoa. A fé cristã, enraizada na Encarnação, não pode ignorar a afetividade. O próprio Jesus experimentou compaixão, tristeza e indignação. Negar a emoção seria ignorar a Encarnação.

O desafio reside na integração. O coração, compreendido biblicamente, é o centro das decisões e da síntese interior, não meramente a sede das emoções. Daí a necessidade de formação doutrinal, discernimento espiritual, dimensão eclesial e vida sacramental.

A emoção pode abrir a porta, mas não pode sustentar a jornada sozinha. A cruz e a perseverança fazem parte do amadurecimento da fé.

Mas surgem dúvidas: basta um coração integrado à interioridade se não for afetado pelo sofrimento alheio e pela história? É suficiente um discernimento isolado a partir da perspectiva hierárquica e não sinodal do Povo de Deus?

II. “Dilexit nos”: o coração que sai e toca a carne

Em Dilexit nos, Francisco retoma o conceito de coração e o projeta para um horizonte mais amplo. O coração é o “núcleo de todo ser humano ”, o lugar onde convicções e decisões se unificam. Mas essa síntese não leva à introspecção.

Os sentimentos humanos de Cristo são "um sacramento de amor infinito". O Coração transpassado não apenas consola a angústia individual; ele redime o pecado do mundo.

Aqui a perspectiva se amplia: o coração tocado por Cristo não permanece indiferente às “injustiças estruturais”. O amor do Coração nos impele a “tocar toda a carne sofredora”. A devoção autêntica não é escapismo espiritual, mas uma fé transformadora para o Povo de Deus.

Francisco adverte contra a redução do Sagrado Coração de Jesus a um mero símbolo de consolação. Seu amor tem uma dimensão pública e social. O pecado não é apenas um ato individual; ele se materializa em estruturas que geram exclusão e marginalização, inclusive dentro da Igreja, com seu pesado fardo do clericalismo.

Nesse sentido, o coração não é apenas um integrador de emoções, mas também um gerador de compromisso. O coração que foi tocado “aprende a ver ”. A Igreja que contempla o Coração de Cristo torna-se um hospital de campanha. A espiritualidade conduz à ética social.

Enquanto a nota episcopal questiona como evitar que a emoção fragmente a fé, Francisco pergunta como evitar que a devoção se torne desencarnada, indiferente às vítimas. Ambas as preocupações se reforçam mutuamente.

III. Entre discernimento e compaixão samaritana

A comparação revela uma tensão frutífera. A nota episcopal protege a fé do subjetivismo emocional. O dilexit protege nossa espiritualidade da introspecção individualista. Um integra; o outro projeta.

O risco de absolutizar a emoção pode levar a uma religiosidade centrada no bem-estar espiritual. Mas o risco oposto seria uma fé devidamente integrada que não seja confrontada pelo sofrimento social.

Para Francisco, um coração unido por Cristo torna-se necessariamente um coração samaritano. A compaixão não é um acréscimo opcional, mas o fruto de uma síntese interior.

O discernimento das emoções é um pré-requisito para a caridade lúcida. Sem formação e verdade, a compaixão se dissolve em sentimentalismo. Sem abertura ao sofrimento do mundo, a integração emocional torna-se autorreferencial.

O coração que fala ao coração também deve escutar o clamor dos pobres, não de passagem, mas de forma central, como nas Bem-aventuranças, em Mateus 25 e na parábola do Bom Samaritano.

Conclusão: um coração que integra e transforma

Ambos os textos nos convidam a redescobrir a centralidade do coração na vida cristã. Não o coração sentimental e instável da cultura pós-moderna, mas o coração bíblico que integra razão, vontade e emoções. E não um coração fechado em si mesmo, mas um coração aberto à história.

A emoção não pode ser o critério último da fé, mas também não pode ser suprimida. O discernimento protege a autenticidade. Mas, além disso, o coração transformado por Cristo torna-se uma força histórica.

A emoção fundamentada na verdade se transforma em compaixão eficaz; a devoção purificada se transforma em compromisso estrutural. O coração que fala ao coração de Deus aprende a ouvir o clamor dos pobres.

Nessa encruzilhada entre interioridade e justiça, a Igreja redescobre sua missão: formar corações maduros capazes de transformar o mundo.

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