Na Europa, os ferries emitem tanto CO2 quanto 6,6 milhões de carros

Foto: Marcin Jozwiak/Unsplash

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05 Março 2026

Altamente poluentes, os ferries (balsas) emitem anualmente na Europa tanto CO2 quanto 6,6 milhões de carros. Sete portos do Mediterrâneo, incluindo Marselha, estão entre os 10 mais poluentes.

A reportagem é de Vincent Lucchese, publicada por Reporterre, 03-03-2026. A tradução é do Cepat.

Anualmente, somente nos portos europeus, os ferries emitem tanto CO2 quanto 6,6 milhões de carros. Isso representa uma estimativa de 13,4 milhões de toneladas de CO2 em 2023. Este é um dos principais dados do relatório publicado no dia 3 de março pela ONG Transport & Environment (T&E).

A ONG analisou a atividade de quase 2 mil ferries, embarcações de transporte de passageiros ou de passageiros e carga que conectam diversos portos europeus, principalmente no Mediterrâneo, no Mar Báltico e no Mar do Norte. A rota com as maiores emissões de CO2 é a que liga Helsinque, na Finlândia, a Travemünde, na Alemanha. Em seguida, vem a rota Calais-Dover, entre a França e a Inglaterra. Se as emissões forem contabilizadas ao nível portuário, Barcelona apresenta as maiores emissões de carbono, seguida por Pireu, na Grécia. Marselha ocupa o sexto lugar, com sete portos do Mediterrâneo entre os 10 primeiros.

7 portos do Mediterrâneo entre os 10 primeiros

Além das emissões de gases de efeito estufa, esses navios também são responsáveis por uma significativa poluição atmosférica, principalmente pela emissão de óxidos de enxofre (SOx), óxidos de nitrogênio (NOx) e material particulado. De acordo com o relatório, Dublin foi em 2025 o porto que teve a maior poluição atmosférica proveniente de ferries, seguida por Las Palmas (Espanha) e Holyhead (País de Gales).

A contribuição dos ferries para a poluição atmosférica é enorme nesses portos, especialmente quando comparada à poluição gerada pelos carros. Em Dublin, a poluição por SOx proveniente dos ferries é quase 16 vezes maior do que a gerada pelos carros. No porto de Pireu, é 29 vezes maior. E em Calais, a sétima cidade europeia onde os ferries mais poluem o ar com SOx, essas embarcações são quase 126 vezes mais poluentes do que os carros.

Ferries velhos e pesados

Esses números, desastrosos tanto para o clima quanto para a saúde pública, são parcialmente explicados pela idade dessas embarcações, estimada em uma média de 26 anos, segundo a T&E. E quase um quarto dos ferries que ostentam a bandeira europeia têm mais de 30 anos.

O peso dessas embarcações também é um fator decisivo. O relatório identificou mais de 2,6 milhões de viagens anuais realizadas por esses ferries, das quais apenas uma pequena parcela (20%) foi feita por embarcações muito grandes, com mais de 5 mil gigatoneladas. No entanto, essas mesmas embarcações são responsáveis por 88% das emissões totais de gases de efeito estufa do setor. Os maiores ferries são particularmente comuns no Mediterrâneo, o que explica por que os portos com as maiores emissões de carbono estão localizados aí.

A idade média dos ferries é de 26 anos

A T&E destaca que essa poluição deverá diminuir no futuro, devido à evolução das regulamentações. As zonas de controle de emissões, estabelecidas pela Organização Marítima Internacional, visam reduzir as emissões poluentes dos navios dentro de áreas designadas. Até 2027, a poluição poderá diminuir em muitos portos, incluindo Dublin, que deverá perder o título de porto com o ar mais poluído devido ao próximo fortalecimento dessa regulamentação no Atlântico Nordeste.

Mas esses efeitos regulatórios estarão longe de ser uma solução completa. Embora tais regulamentações estejam em vigor no Mediterrâneo desde 2025, em Barcelona, as balsas ainda emitem 1,8 vez mais óxido de nitrogênio do que todos os carros da cidade juntos.

Ferries elétricos: o mito de uma tecnologia milagrosa

Para a ONG, uma alavanca de ação particularmente eficaz permanece subutilizada: a eletrificação. Os ferries percorrem rotas muito mais curtas do que a maioria dos navios mercantes que cruzam o globo, e suas rotas são regulares. Tudo isso os torna muito mais adequados para a eletrificação de sua propulsão.

Até 2025, 20% da frota europeia de ferries já poderia ter sido eletrificada, a um custo menor do que a propulsão a combustíveis fósseis, afirma a T&E. E até 2035, 52% da frota existente poderá navegar usando baterias elétricas, acrescenta o relatório.

O principal obstáculo para a ampliação da eletrificação diz respeito à infraestrutura de carregamento que precisa ser instalada. No entanto, 57% dos portos precisariam apenas de pequenos carregadores com capacidade de 5 MW.

“Os ferries elétricos já são mais baratos em muitas rotas, e mais deles se tornarão competitivos nos próximos anos. Com uma idade média de 26 anos para os ferries na Europa, agora é o momento certo para iniciar uma renovação da frota para uma frota limpa”, afirma Felix Klann, autor principal do relatório.

Para esse fim, a T&E apela à União Europeia para que apoie a transição elétrica dos ferries por meio de legislação ambiciosa, principalmente estendendo o sistema de comércio de emissões de carbono e a regulamentação sobre o uso de combustíveis renováveis e de baixo carbono no transporte marítimo para ferries menores — aquelas de 400 a 5 mil gigatoneladas.

Contudo, o relatório não menciona a relevância da redução do tráfego e da mudança de nossos estilos de vida. Embora a eletrificação possa ter sua relevância e deva ser mobilizada em muito maior escala, existe o risco de que o mito de uma tecnologia milagrosa, que nos permite manter usos constantes enquanto resolvemos impasses ecológicos, se choque com a realidade.

Como já mencionado por Reporterre em relação ao hidrogênio, o combustível do mito do crescimento no transporte aéreo e marítimo, a eletrificação só será útil em um mundo menos dependente de energia, onde nossos usos e nossa economia tenham aprendido a se submeter aos limites planetários.

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