04 Março 2026
"A Santa Sé está profundamente preocupada com o risco de uma escalada violenta dentro e ao longo das fronteiras externas da ilha", escreve Francesco Peloso, jornalista, em artigo publicado por Domani, 01-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
No final de janeiro, a Casa Branca endureceu o bloqueio comercial em torno da ilha caribenha, impedindo o fornecimento de energia. O Papa recebeu o Ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez Parrilla: a situação está se agravando. A Santa Sé está profundamente preocupada com o risco de uma escalada violenta dentro e ao longo das fronteiras externas da ilha. A Santa Sé está tentando evitar o colapso econômico e social de Cuba depois que a Casa Branca decidiu, no final de janeiro, endurecer o bloqueio comercial em torno da ilha caribenha, impedindo que qualquer fornecimento de energia, especialmente petróleo, chegue a Havana. Por isso, na manhã de sábado, o Papa recebeu o Ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, no Vaticano, como enviado especial do presidente cubano, Miguel Díaz-Canel. A situação em Cuba está de fato se deteriorando devido à escassez de petróleo, que, até recentemente, era garantido pela Venezuela de Nicolás Maduro.
Mas, após a destituição do agora ex-presidente, deportado e levado a julgamento nos Estados Unidos por uma operação das forças especiais estadunidenses, o cenário mudou radicalmente. Com o fornecimento de petróleo de Caracas interrompido, a "isla grande" ainda recebia petróleo do México.
No entanto, Donald Trump ameaçando impor severas sanções econômicas a qualquer um que decidisse exportar petróleo bruto para Cuba, também havia posto fim a essa possibilidade. Em 25 de fevereiro, no entanto, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum anunciou que estava considerando retomar os embarques de petróleo para Cuba. De fato, a decisão da Suprema Corte dos EUA, que anulou as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump contra os países exportadores de petróleo bruto para a ilha caribenha, parece ter reacendido a esperança: a decisão da mais alta corte dos EUA elimina de fato a ameaça de retaliação alfandegária para o México. Veremos o que acontecerá nas próximas semanas.
Risco de escalada
Mas, além das disputas diplomáticas, a situação na ilha continua sendo dramática, e o Vaticano está profundamente preocupado com o risco de uma escalada violenta tanto dentro da ilha quanto ao longo de suas fronteiras externas (em 26 de fevereiro, a Guarda Costeira cubana matou a tiros quatro pessoas a bordo de uma lancha registrada nos EUA durante um confronto na costa cubana, alegando um ataque terrorista contra a ilha).
Leão XIV já havia se manifestado no início de fevereiro, declarando: "Recebi com grande preocupação as notícias do aumento das tensões entre Cuba e os Estados Unidos da América, dois países vizinhos. Uno-me à mensagem dos bispos cubanos convidando todos os responsáveis a promoverem um diálogo sincero e eficaz, para evitar a violência e qualquer ação que possa aumentar os sofrimentos do amado povo cubano."
A mediação
Em meados de fevereiro, devido à crise energética que assola a ilha, os bispos cubanos tiveram que cancelar a visita ad limina programada ao Vaticano por causa da falta de petróleo. Vale lembrar, em contexto semelhante, que em junho passado, o Ministro das Relações Exteriores do Vaticano, Mons. Paul Gallagher, viajou a Cuba em visita oficial, durante a qual se encontrou, entre outros, com o Presidente Díaz-Canel e o Ministro das Relações Exteriores Rodríguez Parrilla. Na ocasião, as autoridades cubanas convidaram o novo papa a visitar Cuba e renovaram seu compromisso de permitir que a Igreja continuasse seu trabalho na ilha nas muitas atividades sociais em que está engajada. Agora, também em memória da mediação do Papa Francisco entre Barack Obama e Raúl Castro, que levou a um afrouxamento das sanções estadunidenses à economia cubana, a Santa Sé busca, mais uma vez, desempenhar um papel mediador positivo entre os dois países.
No entanto, apesar das declarações de Trump em 27 de fevereiro, quando falou de uma possível "tomada amigável da ilha", ou seja, uma solução não armada para a crise em curso, também para evitar que a mudança de regime leve ao caos, as dificuldades diplomáticas continuam sendo elevadas.
Isso se deve, em parte, ao fato de o Secretário de Estado EUA, Marco Rubio, de origem cubana, estar pressionando pela derrubada da atual forma de governo e pelo fim do regime castrista. O padre Ariel Suárez Jáuregui, secretário-adjunto da Conferência Episcopal Cubana e pároco de uma importante igreja em Havana, descreveu assim a vida em Cuba numa entrevista à mídia do Vaticano nos últimos dias: "A situação atual é francamente difícil. Vemos diminuir o transporte público e privado nas ruas e autoestradas. Cidades e vilas parecem desertas após o anoitecer. O lixo transborda pelas ruas de Havana, obstruindo a passagem dos pedestres e dos poucos veículos que conseguem circular. O número de pessoas pobres, moradores de rua e idosos sozinhos e abandonados está crescendo. Também vemos adolescentes e jovens se voltando para as drogas. A jornada de trabalho e estudo está sendo reduzida. Os preços dos alimentos estão subindo. Os medicamentos estão se tornando escassos, os serviços médicos são reduzidos e os procedimentos cirúrgicos são reservados exclusivamente para as pessoas cujas vidas estão em perigo. As dificuldades de acesso à água potável estão aumentando, porque muitas pessoas dependem de caminhões-pipa para o abastecimento de água e, sem combustível, não conseguem transportar”.
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