25 Fevereiro 2026
"O Estado não crê e não pode crer, mas tem a obrigação de proteger a fé de todos os seus cidadãos em igualdade de condições. Isso não contradiz os valores islâmicos, mas é coerente com eles, como testemunha a história da Palestina, e de Jerusalém em particular, em séculos de convivência religiosa sob regimes islâmicos que reconheciam o pluralismo e a sua proteção", escreve Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado em Prima Loro, 23-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Vivemos tempos de más notícias vindas de todo canto do mundo, e agora surge mais uma inesperada: a Autoridade Nacional Palestina de Ramallah, presidida por Abu Mazen, publicou uma proposta de Constituição para um futuro Estado palestino, caso venha a existir, que adotaria o Islã como religião oficial e faria da Sharia, ou seja, da lei islâmica, a principal fonte da legislação. Ou seja, ignoraria o fato de que o povo palestino é formado por diversos componentes, entre os quais aquele cristão que tem particular importância além de ter desempenhado papel de protagonista na luta pela dignidade e existência política do povo palestino.
Tampouco levaria em consideração o fato de que a tradição do movimento pela libertação da Palestina, desde os tempos da OLP de Arafat, sempre foi uma tradição laica e pluralista, e, como tal, um exemplo e uma proposta de um modelo político e estatal mais avançado do que o confessional e teocrático tanto do Estado de Israel quanto dos Estados árabes e muçulmanos do Oriente Médio. E o mundo inteiro, de onde surgiu o protesto e a onda de solidariedade ao povo palestino, vítima do genocídio, também o fez porque na identidade palestina e em sua ligação com o berço das três religiões monoteístas que professam o mesmo Deus, viu o símbolo e a antecipação de uma humanidade unida na variedade e na riqueza de diferentes culturas e crenças. Reduzi-la a uma única raiz acabaria por legitimar, em última análise, justamente a natureza monoétnica e religiosa do Estado de Israel, que é a causa de sua violência, e fecharia a porta para a possibilidade de que o desfecho final do conflito israelense-palestino pudesse ser não a solução de dois Estados, agora territorialmente impossível, mas um único Estado de povos reconciliados e unidos por um ordenamento democrático e pluralista.
Cabe também destacar a inadequação do momento escolhido para essa iniciativa, pois introduz um debate que atualmente está fora da realidade e que desviaria a atenção do verdadeiro problema, que é a própria vida do povo palestino, polarizando-o em torno de opções contrapostas, precisamente quando a sua unidade, na luta por sua sobrevivência, é mais necessária do que nunca. É também a opinião de um grupo ecumênico de cristãos, denominado "Voz de Jerusalém pela Justiça", que numa carta a Abu Mazen rejeita a ideia de um referendo constitucional: "num momento em que as nossas terras estão sendo roubadas e anexadas e a nossa causa nacional enfrenta tentativas de liquidação existencial", com o risco de a disputa constitucional degenerar num conflito identitário no longo prazo.
O Grupo, do qual participam também o ex Patriarca Michel Sabah e os bispos ortodoxos gregos e luteranos de Jerusalém, observa ainda que "a fé, pela sua própria natureza, é um ato pessoal, enquanto o Estado é uma entidade jurídica com instituições e funções concebidas para servir todos os seus cidadãos sem discriminação com base na religião ou crença. O Estado não crê e não pode crer, mas tem a obrigação de proteger a fé de todos os seus cidadãos em igualdade de condições. Isso não contradiz os valores islâmicos, mas é coerente com eles, como testemunha a história da Palestina, e de Jerusalém em particular, em séculos de convivência religiosa sob regimes islâmicos que reconheciam o pluralismo e a sua proteção."
Tudo isso torna uma solução para a questão palestina mais urgente do que nunca, graças também à solidariedade de toda a comunidade internacional. Chega assim a hora de essa solidariedade dar um salto qualitativo: não pode se limitar à ajuda humanitária, às manifestações de rua e à Flotilha. Deve se tornar uma solidariedade e cooperação política atuante, para que a tragédia palestina possa realmente encontrar uma solução política e o povo palestino possa ser ajudado a encontrar o caminho para viver em paz, em sistemas justos e compartilhados, em harmonia com o povo judeu de Israel e os demais povos do Oriente Médio. Nada mas distaste da "Comissão de Paz" de trumpiana loucura!
Outro povo negado e oprimido é aquele dos migrantes, expulso por todos, dos Estados Unidos à Europa, e, nos últimos dias, mais do que nunca atingido pela fúria do Mediterrâneo e pela cumplicidade assassina dos governos dos estados costeiros. E aqui uma luz se acendeu, e é o acolhimento oferecido a eles pela Espanha, expresso no artigo exemplar do Primeiro-Ministro, que publicamos no site.
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