"As dificuldades são grandes! O capital se impõe a qualquer preço – como bem mostra o poder tenebroso de Trump – e tem derrotado seus opositores, como os governos da Bolívia e do Equador que ousaram inscrever em suas Constituições os princípios do Sumak Kawsay. As comunidades maias resistem em seus caracóis mas o cerco que lhes é imposto é pesado! Mas as lições dos últimos cem anos – o século em que minha geração está vivendo – não podem ser esquecidas. Na pior das hipóteses, caso não consigamos coloca-las em prática, devemos preserva-las como sementes que uma geração vindoura possa plantar para fazer nascer o almejado novo mundo possível".
O artigo é de Pedro A. Ribeiro de Oliveira, doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGCR da UFJF e PUC-Minas.
Pedro A. Ribeiro de Oliveira. (Foto: Tiago Miotto/Cimi)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Já há algum tempo Frei Betto dizia que nós, cristãos e cristãs, somos eficientes na hora de proclamar a utopia do outro mundo possível, mas falhamos ao propor as mediações necessárias para sua realização na história.
Isso me veio à mente ao ler o excelente livro de L. Boff Sustentabilidade e cuidado: como assegurar o futuro da vida [1]. Nele, nosso grande teólogo e filósofo apresenta, de modo didático, a síntese de suas principais contribuições ao pensamento contemporâneo: a vida na Mãe Terra ameaçada, o novo humanismo a partir da experiência dos empobrecidos e empobrecidas, a espiritualidade hoje, Política e Cuidado diante da atual desordem mundial e a contribuição do Cristianismo para um mundo reconfigurado. L. Boff põe o dedo nas feridas da Terra, e deixa clara a responsabilidade de nossa espécie sapiens/demens pelos males que infligimos a ela. Por isso cabe a nós corrigir esses males estabelecendo uma relação de respeito e cuidado com a Terra e entre nós. Entra assim num tema que lhe é caro: a Ética da Boa Vontade, que impõe o Cuidado e a “justa medida”. Neste ponto me veio à mente a observação de Fr. Betto, porque L. Boff está certo: sem Ética, nossa espécie deixa de ser guardiã da Terra e torna-se seu satã. Mas... Será que basta o senso ético que impulsiona o Cuidado e a “justa medida” para salvar a Mãe Terra da catástrofe que se avizinha?
Delfim Netto – que apesar de sua cumplicidade com a ditadura empresarial-militar, era um intelectual arguto – dizia não acreditar em sistema econômico que dependesse da virtude humana para funcionar bem. Seguidor de A. Smith – que afirmava ser o interesse egoísta do padeiro, e não sua generosidade que nos proporciona o pão fresco toda manhã – ele não descartava a ética, mas exigia que ela fosse complementada por incentivos econômicos para produzir bons resultados. Neste ponto, não posso deixar de concordar com D. Netto. Basta pensar na nossa realidade: nosso governo sabe que extrair e queimar petróleo causa danos ao Planeta, mas não adianta só o Brasil renunciar a essa atividade se outros países continuarem a explorar o petróleo, porque nossa renúncia reverteria em ganho para os países que concorrem na indústria petrolífera. E assim, enquanto esperamos que um acordo mundial se torne efetivo, seguimos dando força à Petrobrás... O mesmo se dá nas opções cotidianas: sabemos que o sistema de compras por internet custa a vida de terceirizado/as submetidas ao trabalho precário. Mas o custo de certas compras em lojas locais é tão mais alto que dizemos “o jeito é recorrer à internet...” E assim se esvazia a Ética do cuidado com o Planeta e com os e as trabalhadoras!
Aqui reside a fraqueza do pensamento socioeconômico cristão: não saber usar o instrumental sócio-analítico desenvolvido a partir das lutas de classes, que situa as condições determinantes de todo fato histórico na infraestrutura do modo de produção [2]. Desde a criação das cidades, no período neolítico, surge também o mercado como instituição que regula a produção e circulação dos bens econômicos. Ele evolui com o tempo, ocupando cada vez maior espaço da vida cotidiana, até chegar ao ápice que é o modo de produção capitalista em sua forma globalizada. Por isso, pensadores liberais – como o já citado Delfim Netto – afirmam que o mercado existe como regulador da economia “desde que o homem deixou a caverna”. Mas as ciências sociais mostram que há pelo menos outro sistema regulador da economia em sociedades de certa complexidade: é o que eu chamo sistema da dádiva, magistralmente estudado por M. Mauss e, recentemente, por D. Graeber [3]. Nesse modo de produção os bens materiais e simbólicos circulam movidos pela relação fundada no processo de dar/receber/retribuir, que forma o sistema econômico que é a base da comunidade (assim como o sistema de mercado é a base da sociedade moderna).
A lógica do sistema da dádiva impõe uma Ética bem diferente da Ética subjacente ao mercado. Quem recebe uma dádiva é moralmente obrigado a retribuir, sem necessidade de equivalência entre o que se recebe e o que se retribui. E este é o princípio dinâmico do sistema: o desequilíbrio das trocas leva cada parte a sentir-se moralmente obrigada a retribuir, reabrindo-se o circuito. (Já o mercado estabelece que feita a transação de compra e venda pelo preço combinado, as partes estão quites e sem obrigação mútua).
Cada sistema impõe sua própria ética, como deixa evidente a carta do cacique Seattle ao presidente dos EUA [4]. Não se trata do bom selvagem de J.J. Rousseau, mas do sistema de valores logicamente associado ao sistema da dádiva. Nele, o território de um povo não pode se tornar propriedade privada porque não é mercadoria, mas um bem que se recebe gratuitamente do Criador e que a Ele deve ser retribuído. Nesse sentido, o cacique Seattle e o presidente dos EUA são virtuosos: o presidente se propõe a comprar o território indígena pelo preço que o cacique pedir, enquanto este responde que não pode vender o que não lhe pertence. Ambos seguem as regras de funcionamento de sua respectiva sociedade.
Aqui podemos voltar à dificuldade do pensamento do cristianismo libertador em ir às causas estruturais da atual catástrofe climática e social que atinge a Terra e a espécie humana. As estruturas são, por definição, construções conceituais, e não realidades empíricas. Por isso, a análise estrutural exige uma metodologia de estudo específica. Aí reside a genialidade de K. Marx: interpretando a literatura econômica na perspectiva das lutas operárias, ele formulou a hipótese de interpretação da História social a partir de sua infraestrutura: as relações sociais de produção melhor adaptadas à tecnologia de seu tempo determinam (em última instância) a forma das outras estruturas de uma dada sociedade. Essa determinação só pode ser entendida pelo pensamento que supera o nível do empírico e chega ao nível estrutural. Este é o problema teórico que precisamos enfrentar quando, iluminados pela Fé cristã, buscamos entender as estruturas sociais para superá-las e construir uma sociedade libertada da opressão de uma classe sobre as outras.
Nessa busca precisamos ter um sistema teórico que favoreça o conhecimento da realidade sobre a qual agimos, e também um sistema de valores que motivem nossa ação. Mais que uma teoria, essa tarefa requer um sistema de pensamento inspirado em valores que nascem da prática e nela incidem: um sistema de ideias-força. Seu modelo clássico, herdado da Modernidade ocidental, é o Socialismo – agora atualizado como Ecossocialismo – que propõe o controle do Estado pelas classes oprimidas para assim criar um novo modo de produção onde a propriedade seja socializada e os Direitos da Terra sejam respeitados. Na virada deste século o movimento decolonial trouxe o Bem-Viver. Originário dos povos andinos, o Sumak Kawsay deve ser entendido como uma proposta paradigmática de povos originários de Nossa América que baseiam seu modo de produção sobre o sistema da dádiva, o que implica não admitir a propriedade privada da terra, a cobrança de juros sobre empréstimos e o aluguel dos meios de produção, que são a base do sistema de mercado.
O primeiro sistema de ideias-força deu forma às experiências históricas de socialismo inspiradas na revolução russa de 1917, com suas muitas variantes locais, como na China, em Cuba, na Nicarágua e África ao final das lutas anticoloniais. O segundo sistema, genericamente chamado de Bem Viver, inspirou os Movimentos Sociais da Bolívia e Equador que o inseriram em suas respectivas Constituições, e hoje inspira o processo de libertação das comunidades maias nas montanhas de Chiapas, nas zonas liberadas pelo EZLN. Não estou seguro de que devemos assumir um desses sistemas de ideias-força para contrapor nosso projeto de sociedade ao projeto capitalista, mas com certeza afirmo que para superar as relações de produção regidas pelo capital necessitamos de um sistema de ideias-força revolucionário, apto a mudar corações e mentes e abrir o caminho para a desejada mudança capaz de salvar nossa espécie da extinção prematura.
As dificuldades são grandes! O capital se impõe a qualquer preço – como bem mostra o poder tenebroso de Trump – e tem derrotado seus opositores, como os governos da Bolívia e do Equador que ousaram inscrever em suas Constituições os princípios do Sumak Kawsay. As comunidades maias resistem em seus caracóis mas o cerco que lhes é imposto é pesado! Mas as lições dos últimos cem anos – o século em que minha geração está vivendo – não podem ser esquecidas. Na pior das hipóteses, caso não consigamos coloca-las em prática, devemos preserva-las como sementes que uma geração vindoura possa plantar para fazer nascer o almejado novo mundo possível.
[1] Editora Conhecimento Liberta, 2025.
[2] Sempre esclarecendo que esse determinismo equivale aos alicerces de uma casa: determinam quantos andares ela pode ter, onde ficarão as colunas e o banheiro, mas não onde ficarão as portas e janelas, a forma do telhado nem a cor da parede.
[3] Respectivamente o Ensaio sobre a dádiva e A dívida.
[4] Nunca é demais reler essa carta que pode ser encontrada clicando aqui.