Conversão: uma aventura para testemunhar a epifania do mistério

Baldaquino, Santuário Nacional de Aparecida | Artista: Melissa Costa com Cláudio Pastro | Técnica: Vitral Serafim | Fabricação: D’ Falco Vitrais, 2016

Foto: claudiopastro.com.br

18 Fevereiro 2026

Agostinho viu desencadear em sua vida as etapas da conversão a partir dos 30 anos de idade. (…) Entendeu que o cristianismo não é uma especulação abstrata nem uma adesão teórica, mas um testemunho concreto de amor ao Verbo encarnado”. 

O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestra em Filosofia pela Unisinos e mestra em Teologia pela PUCRS.

A conversão, diferentemente do que se imagina, não é um processo acabado. Tampouco se trata de uma adesão intelectual ao cristianismo. É, antes, uma busca por Deus que confronta a confusão dos nossos pensamentos e sentimentos, leva a conflitos interiores, testemunha a irrupção da epifania e gera uma vida ablativa, transformada pela graça de Deus. Nesse itinerário, que mais parece uma aventura quando se abandona completamente à Providência, a conversão torna-se um processo diário, alimentado pela Palavra de Deus, pela vida de oração e pelo serviço. Dito de outro modo, uma vida em que se aprende a viver à luz dos mistérios de Cristo, intimamente unido ao próprio Cristo.  

Muitos são os relatos de conversão na história. Um dos mais famosos é o de Santo Agostinho. Atormentado pelo problema teológico da mediação de Cristo, viu desencadear em sua vida as etapas da conversão a partir dos 30 anos de idade. No contato com Ambrósio e Simpliciano, permitiu-se ir além das especulações filosóficas e conheceu um cristianismo em que fé e vida são inseparáveis. Entendeu que o cristianismo não é uma especulação abstrata nem uma adesão teórica, mas um testemunho concreto de amor ao Verbo encarnado. 

Não aprendeu isso nos livros. Antes, fez a experiência de uma Igreja viva: unida na celebração eucarística, atenta à pregação e ativa nos cuidados pastorais, como resume o crítico literário dedicado à literatura religiosa, Giuliano Vigini. Além disso, presenciou a intercessão de uma mãe que chorou e rezou pela sua conversão. 

Debruçado sobre o problema do homem, deu-se conta do profundo mistério da existência e, com ela, da dor, do mal, do declínio da natureza humana quando abandonada a si mesma. A constatação acerca da condição humana, no entanto, não o levou à retórica apocalíptica que se sobressai em muitos discursos contemporâneos que atestam que pouca coisa mudou no interior humano nos últimos dezesseis séculos. “O horizonte de Agostinho”, destaca Vigini, “não se fecha sob o peso opressor da caducidade, da miséria e do pecado, mas se abre, ao contrário, para todo o universo de coisas belas que Deus cria e recria continuamente para o homem”.  

A relação entre a beleza e a vida espiritual foi explorada sob várias perspectivas por filósofos, teólogos e artistas. Em O Deus da beleza, Cláudio Pastro, artista plástico especialista em arte sacra, aborda este ponto à luz da catolicidade. Lamenta que a beleza seja um direito humano esquecido, enquanto outros, como a educação e as necessidades básicas, sejam tratados de modo utilitarista e produtivo. 

O ser humano, argumenta, necessita da beleza porque não vive somente para a competição, o sucesso e a produção – tampouco são essas suas expressões mais genuínas. O ser humano em plenitude, contudo, adverte, parece ter sido esquecido até mesmo pelos cristãos: é corpo, alma e espírito (1Ts 5,23). É chamado à contemplação, à criatividade, à gratuidade, à beleza. 

Ao explicar em que consiste a arte sacra, Pastro enfatiza sua finalidade: “está a serviço da liturgia” e “indica a presença do Mistério entre nós”. O artista sacro, por sua vez, vive unido ao mistério: “é um ser humano de fé que vive dos sacramentos da Igreja e serve à ação do Espírito Santo”.  

O mistério, na tradição cristã, refere-se ao mistério revelado, que é Cristo - “Jesus respondeu: ‘Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não’” (Mt 13,11); “Dizia-lhes: ‘A vós foi dado o mistério do Reino de Deus; aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas’” (Mc 4,11); “Ele respondeu: A vós foi dado conhecer os mistérios do Reino de Deus; aos outros, porém, em parábolas, a fim de que vejam sem ver e ouçam sem entender’” (Lc 8, 10). Mais especificamente, mistério refere-se aos mistérios da vida de Cristo: encarnação, vida pública, paixão, morte, ressurreição, ascensão e o envio do Seu Espírito Santo. Foi precisamente este mistério que se manifestou a Agostinho, a tal ponto de ele abandonar as especulações filosóficas e voltar-se com todos os esforços à exposição da fé e, como não poderia ser diferente, ao louvor: 

“Quem quer te louvar é um homem, simples partícula da tua criação; um homem que em toda parte leva sobre a sua natureza mortal, leva consigo o testemunho do seu pecado e o testemunho de que tu resiste aos soberbos. Quem quer te louvar é justamente este homem, simples partícula da tua criação. 

És tu que o incitas ao prazer de te louvar, porque nos criastes para nos destinar a ti e não tem paz o nosso coração enquanto não repousa em ti.” 

O louvor – a adoração, como costumava dizer o Papa Francisco – também parece ter sido esquecido por muitos cristãos que vivem perdidos em seus pensamentos e sentimentos, iludidos sem tensões interiores, vivendo para si mesmos, extinguindo o Espírito. 

Mas, como ensina Agostinho, a graça de Deus é maior do que o nosso pecado e o convite à conversão é constantemente renovado. Um chamado singular é feito hoje, Quarta-feira de Cinzas, dia em que a Igreja inicia o caminho quaresmal que nos conduzirá à Paixão e à Ressurreição do Senhor. 

É um tempo de deixar Deus trabalhar em nosso interior por meio das práticas da oração, do jejum e da esmola. Ou seja, é tempo de abrir-se à comunicação com Deus, à ascese para vencer a dureza de coração e à prática da caridade. É um convite para iniciar um caminho e testemunhar a irrupção da epifania, pois, como anteviu o teólogo e padre jesuíta Karl Rahner, o cristão do futuro ou será místico ou não será. 

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