24 Janeiro 2026
Paradoxalmente, a administração republicana, com a execução de Marco Rubio, pode acabar recuperando uma ferramenta que havia relegado a segundo plano: a cooperação internacional como investimento estratégico na estabilidade hemisférica.
A reportagem é de Juan Esteban Orduz, publicada por El País, 22-01-2026
Durante décadas, a América Latina permaneceu irrelevante politicamente para as grandes potências e o mundo desenvolvido em geral. Com exceção do México, devido à sua proximidade, do Brasil, devido ao seu tamanho, e da Colômbia, devido à sua luta contra as drogas, o restante do continente parecia relegado a clichês sobre migração, violência ou crises recorrentes. Essa percepção começou a ruir com Donald Trump e quando a Venezuela e seu petróleo — atolado em corrupção, incompetência e na vontade de sobrevivência da ditadura — deixaram de ser um problema regional e um apoio a outras ditaduras, como Nicarágua e Cuba, para se tornarem uma peça cobiçada no tabuleiro geopolítico, presente nos cálculos estratégicos da China e da Rússia e um ativo desejado por Washington.
Hoje, a América Latina — no centro do cenário internacional — está passando por uma guinada para o centro-direita ou para a direita, impulsionada pelo desgaste dos governos de esquerda e por uma presença cada vez mais explícita dos Estados Unidos.
A mudança é visível. A Argentina passou por uma profunda transformação após anos de populismo fiscal, inflação crônica, corrupção e deterioração institucional. El Salvador consolidou um modelo autoritário que, embora contestado por questões de direitos humanos, restaurou a estabilidade e o controle territorial, além de reduzir drasticamente a violência. Honduras encerrou recentemente um ciclo de esquerda que gerou grande frustração social, dando lugar a uma alternativa abertamente apoiada por Washington. Embora a popularidade de Claudia Sheinbaum seja alta e Luiz Inácio Lula da Silva lidere atualmente as intenções de voto para a presidência, eles seguem trajetórias diferentes; os demais refletem uma tendência regional impulsionada pela frustração com os resultados econômicos e de segurança decepcionantes.
Venezuela, Cuba e Nicarágua são os casos mais extremos: na primeira, mais de duas décadas de chavismo levaram ao colapso econômico, à destruição institucional e a uma crise humanitária sem precedentes. Honduras não conseguiu alcançar melhorias sustentadas no crescimento ou na segurança. A Colômbia apresenta atualmente sinais preocupantes: enfraquecimento institucional, populismo, retrocessos na segurança, queda nos investimentos e crescente incerteza fiscal e regulatória.
Entretanto, diversos países que se deslocaram — ou estão se deslocando — para a direita começam a apresentar sinais diferentes. Na Argentina, o apoio financeiro e político dos EUA tem sido fundamental para estabilizar as expectativas e impulsionar reformas estruturais. Em El Salvador, Washington optou por priorizar resultados em segurança e controle territorial, mesmo correndo o risco de críticas. Em Honduras, o apoio explícito ao candidato de direita, agora o novo presidente, marcou uma clara ruptura com o governo de esquerda anterior. Equador, Peru, Bolívia e Chile, entre outros, também vivenciaram deslocamentos para a direita, e este ano será crucial para compreender a evolução política de países como Costa Rica, Colômbia e Brasil.
O futuro dessa mudança não pode ser compreendido hoje sem considerar a política externa dos EUA em relação à América Latina, que abandonou qualquer pretensão de neutralidade ideológica. Sob a administração Trump, Washington optou por apoiar abertamente governos que lhe garantem acesso econômico, ordem, cooperação em segurança, alinhamento geopolítico e liberalização comercial, chegando a se envolver diretamente na dinâmica interna de cada país.
A captura do ditador Nicolás Maduro e o anúncio de que os Estados Unidos irão gerir de facto a transição política e o setor petrolífero da Venezuela representam um ponto de viragem histórico, desejável para alguns e profundamente preocupante para outros. Os EUA passaram das sanções e da pressão diplomática para uma presença política e económica explícita, baseada na segurança, no combate ao narcotráfico, no acesso ao petróleo e na promessa de prosperidade futura. Em poucos dias, a Venezuela deixou de ser um Estado falido para se tornar um laboratório de intervenção direta.
A Colômbia, embora em uma situação diferente, também reflete essa dinâmica. Após um ano de tensões com Washington, Gustavo Petro ajustou várias de suas chamadas “linhas vermelhas” ideológicas há alguns meses: ações mais diretas contra grupos narcoterroristas ligados ao movimento pela “paz total”, fumigação de plantações de coca, certas extradições e discrição em sua rejeição à operação dos EUA na Venezuela. Essa mudança, instigada por Washington, culminou em um telefonema de Trump, que Petro comemorou com seus apoiadores com assobios e gritos de incentivo, e que abriu as portas para uma visita à Casa Branca e, muito possivelmente — se Petro jogar bem suas cartas —, para a restauração de seu visto e a remoção de sua família da infame lista de Clinton.
A pressão dos EUA levou — para benefício da Colômbia — a uma reestruturação pragmática da relação, na qual a plena cooperação no combate ao narcotráfico e à segurança permanece uma prioridade inegociável para os Estados Unidos. Se o país se inclinar para uma posição razoável de centro ou direita nas eleições de maio, poderá estar à beira de um segundo Plano Colômbia, que, como política de Estado — mantida por três presidentes — permitiu que o país passasse da inviabilidade percebida em 1998 para a subsequente recuperação da segurança, da estabilidade democrática e do acordo de paz de 2016 com o maior grupo guerrilheiro do mundo.
A recente proeminência da América Latina, portanto, tem um custo que Washington não pode evitar. Ao se tornar um ator central, proeminente e visível na região, os Estados Unidos terão — em seu próprio interesse — que ajudar efetivamente a construir estabilidade, prosperidade e segurança duradouras. Caso contrário, a dinâmica interna de países frágeis tenderá inevitavelmente ao caos.
Paradoxalmente, embora parecesse isolacionista, o governo Trump, com a nomeação de Marco Rubio, pode acabar recuperando uma ferramenta que havia relegado a segundo plano: a cooperação internacional como investimento estratégico na estabilidade hemisférica. Tudo indica um retorno — refinado e atualizado — a um modelo de cooperação que é inegavelmente técnico, porém altamente ideológico e intimamente alinhado às prioridades de segurança, estabilidade e fortalecimento institucional. E muito provavelmente virá acompanhado de incentivos para que o setor privado americano se envolva no processo. Além disso, os Estados Unidos buscarão recuperar os espaços que outros atores, especialmente a China, vêm ocupando com sucesso na América Latina.
Será que as circunstâncias acabarão por forçar uma Aliança para o Progresso 2.0, ou, em termos atuais, uma versão MAGA, "Make the Americas Great Again" (Tornar as Américas Grandes Novamente)? A região, Donald Trump e Marco Rubio têm a palavra final.
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