Em tempos desafiadores, religiosos na América Latina clamam por uma fé mais comprometida

Foto: Cortesia da CLAR Magazine/National Catholic Reporter

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24 Janeiro 2026

Em um novo documento, a Confederação de Religiosos Latino-Americanos afirma que a vida consagrada na região deve ouvir o chamado do espírito, buscar novos caminhos e deixar para trás os modelos eclesiais do passado para "renascer" e dar esperança em tempos de escuridão.

A reportagem é de Rhina Guidos, publicada por National Catholic Reporter, 21-01-2026.

"A América Latina e o Caribe atravessam um dos momentos mais desafiadores da história", afirma o documento. "A profunda crise de civilização que vivenciamos não é apenas política ou econômica; é, sobretudo, uma crise antropológica e relacional que fere a dignidade humana, destrói o sentido profundo da vida e entroniza a tirania do individualismo. A cultura do descartável e a lógica que organiza tudo de modo que 'só os fortes se salvam' avançam, enfraquecendo o tecido social, desfigurando os valores essenciais de nossas comunidades e excluindo o bem comum de qualquer debate político civilizado."

O documento, intitulado "Nasça de Novo", é um guia para ajudar a principal organização que representa a vida religiosa na América Latina e no Caribe a discernir e agir. Mas, mais do que um documento, "é um hino de esperança para toda a vida religiosa", afirma a CLAR.

Em entrevista ao Global Sisters Report, o padre José Luis Loyola , presidente da organização, afirmou que mesmo em tempos de escuridão, o espírito continua a acompanhar a vida religiosa, assim como toda a humanidade, "e continua a abrir horizontes para nós em meio a esta jornada", que no momento parece estar atravessando um período sombrio.

Democracias frágeis, o aumento do crime organizado, sistemas capitalistas exploradores que exauriram os territórios latino-americanos e uma cultura do descartável continuam a assolar a América Latina, afirma o documento. Muitas dessas condições afetaram a vida religiosa em um momento em que ela vivencia um rápido declínio nas vocações. Mas devemos abraçar essa pequenez "com os olhos fixos em Jesus" e "nos recriar de um novo modo, inter-relacionando números e reorganizando formas e estruturas em prol da missão", conclui o documento.

Embora haja tensão na vida religiosa da região entre aqueles que desejam preservar as estruturas do passado e aqueles que promovem a reforma, diante de mudanças significativas, a igreja deve romper com os padrões tradicionais, afirma o documento.

"Este não é um momento para medo ou indiferença", diz o documento. "É um momento para assumirmos nossa responsabilidade histórica, partirmos em busca de respostas, irmos ao encontro de outros, abraçarmos causas justas, construirmos pontes de paz e semearmos esperança onde parece não haver futuro."

A capa de "Nascer de Novo" retrata o encontro entre Jesus e Nicodemos, baseado no Evangelho segundo São João, onde o personagem bíblico visita Jesus à noite e conversa com ele sobre como alguém pode nascer de novo. Nicodemos é um ícone da vida religiosa, convidando homens e mulheres consagrados a saírem ao encontro de Jesus nos momentos de escuridão, disse Loyola, superior geral da Congregação dos Missionários do Espírito Santo.

"E ele nos convida, como a Nicodemos, a ousar sair novamente, para que possamos renascer" e trilhar novos caminhos de transformação, incluindo o caminho da sinodalidade, acrescentou.

"Estamos em meio a um processo global e eclesial no qual uma nova era está sendo definida. Portanto, a cultura eclesial não pode continuar a replicar formas passadas", afirma o documento. "O desafio é alcançar a sinodalidade de toda a Igreja, não como uma simples atualização, mas como uma nova criação, capaz de responder aos tempos atuais em prol de sua missão evangelizadora."

Parte desse processo significa abandonar a lógica colonial e abrir o diálogo com diversas culturas, renunciar ao poder, deixar para trás o conforto, defender direitos, curar memórias feridas, acompanhar processos de resistência e resiliência, cuidar da vida, incluindo a casa comum, passar de uma fé ritual ou devocional para uma fé existencial e comprometida, entre outras mudanças, afirma o documento.

Embora a América Latina enfrente problemas únicos, "a situação de luz e sombra afeta toda a humanidade; não é apenas uma questão da vida religiosa na América Latina", disse Loyola.

"Nós também vivenciamos esse horizonte com nossos irmãos e irmãs consagrados nos Estados Unidos", disse ele. "Com eles, experimentamos as mesmas alegrias e esperanças e também, é claro, nossos desafios eclesiais e sociais."

Em reuniões recentes, uma representante da Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas (Leadership Conference of Women Religious, LCWR) mencionou uma possível aliança entre o grupo americano CLAR e um grupo equivalente no Canadá.

Pouco se tem falado publicamente sobre como seria uma possível aliança entre as vidas consagradas nas Américas, mas Loyola afirmou que talvez as experiências recentes possam servir como "um convite para construirmos e renascermos ao mesmo tempo. Nesse sentido, o vínculo e a proximidade que temos uns com os outros, entre a CLAR e a LCWR, são muito importantes."

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