Carta de amor aos padres. Carta de Ronan Belo Júnior

Foto: Pexels/Canva

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24 Janeiro 2026

"Cuidar de si não é egoísmo. É responsabilidade ética", escreve Ronan Belo Júnior, presbítero de Uberaba (MG).

Eis a carta.

Meus irmãos,

Escrevo esta carta porque um de nós bateu à porta da minha casa.

Não sei exatamente por que ele me escolheu. Não éramos próximos, nem havia entre nós uma convivência que explicasse aquele gesto. Talvez tenha sido pelo modo como tento lidar com a vida — de forma direta, sem excessos de romantização, às vezes provocativa. Talvez pelo caminho que tenho percorrido nos últimos anos, no diálogo constante com a filosofia, aprendendo a escutar, a pensar e a enfrentar a condição humana com mais lucidez. Talvez por causa de um texto recente que escrevi, O Manicômio Majestoso. Ou, simplesmente, porque ele precisava falar e encontrou ali uma porta aberta.

Digo isso desde o início para evitar leituras equivocadas. Esta carta não nasce de uma crise pessoal minha. Não escrevo a partir de um colapso, nem projeto no outro uma dor que me pertence. Escrevo porque escutei. E porque, depois de escutar, compreendi que permanecer em silêncio seria uma forma de abandono.

O que aquele irmão trazia não era apenas um problema pontual. Era um cansaço profundo. Um esgotamento que não se resolvia com descanso ocasional nem com palavras piedosas. Quando dizia que pensava em desistir de tudo, falava também da própria vida. Falava de um mundo que havia se estreitado a tal ponto que já não conseguia enxergar saída.

Ali percebi algo decisivo: há sofrimentos que não são apenas individuais. Eles são produzidos por ambientes, expectativas e modos de funcionamento que, pouco a pouco, vão reduzindo o espaço da existência. Quando isso acontece, o sofrimento deixa de causar espanto e passa a ser tratado como algo normal. E quando o sofrimento se normaliza, algo essencialmente humano já foi perdido.

Antes de tudo, é preciso dizer com clareza: antes de sermos padres, somos vida.

A vida não é um instrumento a serviço da vocação. A vocação existe para servir à vida. Quando essa ordem se inverte, instala-se uma distorção silenciosa: o padre passa a valer pelo que entrega, não pelo que é. A função se impõe sobre a pessoa. E, pouco a pouco, o sujeito desaparece atrás do papel que desempenha.

Ambientes assim não precisam de violência explícita para adoecer. Basta que funcionem sem questionamento. Basta que todos se adaptem, cumpram, suportem e sigam. O sofrimento não precisa ser imposto — ele se infiltra quando ninguém se sente responsável por ele.

Criam-se estruturas que lembram verdadeiros manicômios simbólicos: lugares onde tudo parece organizado, funcional, até espiritual, mas onde o humano vai sendo progressivamente silenciado.

Construiu-se, muitas vezes sem que percebamos, um ideal perigoso: o do padre que tudo suporta. O padre que aguenta, que silencia, que se sacrifica continuamente. Esse ideal costuma receber nomes nobres. Mas, na prática, funciona como um mecanismo lento de desgaste.

Talvez alguém já tenha lhe dito que sua ansiedade é falta de fé. Não é.

Na maioria das vezes, a ansiedade é a resposta de um corpo e de uma mente submetidos a uma lógica permanente de cobrança, vigilância e disponibilidade total. Quando até o descanso precisa ser justificado, algo está profundamente errado.

Há também sofrimentos que permanecem envoltos em um silêncio ainda mais espesso. Situações em que alguém se vê aprisionado por fragilidades, escolhas mal resolvidas ou circunstâncias que se transformam em ameaça constante.

Quando isso acontece, a morte pode aparecer como falsa solução. Não porque a vida tenha perdido valor, mas porque o horizonte foi brutalmente estreitado.

Existe ainda outro peso pouco nomeado: o de sustentar o sentido. Espera-se que o padre seja referência mesmo quando ele próprio se sente esvaziado.

Há momentos em que o mundo encolhe. Tudo continua acontecendo, mas nada parece possível.

Nesses momentos, não se trata de se exigir mais nem de suportar ainda um pouco mais. Trata-se de reabrir o campo do possível.

Pensamentos de desistir da própria vida não são sinais de fraqueza moral nem de infidelidade. São sinais de sofrimento profundo.

Cuidar de si não é egoísmo. É responsabilidade ética.

Hannah Arendt nos ensinou que amar o mundo não é conciliá-lo consigo mesmo, mas manter-se desperto diante do que nele ameaça a vida humana. Amar é recusar a indiferença organizada, é não consentir que o sofrimento se torne rotina.

É por isso que escrevo. Porque amo vocês.

Com fraternidade, respeito e verdade,

Pe. Ronan Belo Júnior

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