Diálogo inter-religioso e sinodalidade. Artigo de Sergio Ventura

Pintura na sede do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, com Paulo VI, Gandhi e líderes religiosos | Foto: Vatican Media

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21 Janeiro 2026

"Sinceramente, o quanto as igrejas italianas refletem e praticam o diálogo inter-religioso, começando pelo diálogo com nossos irmãos e irmãs judeus? O quanto elas se concentram em mensagens e eventos, às vezes impactantes, mas outras vezes decididamente irrelevantes? Exploraremos tudo isso em uma das próximas edições...", escreve Sergio Ventura, jurista italiano, em artigo publicado por Vino Nuovo e reproduzido por Settimana News, 20-01-2026.

Eis o artigo.

Ao final da minha análise do primeiro Consistório de Leão XIV (veja aqui), propus – e propus às diversas comunidades eclesiais – acompanhar o progresso do ano litúrgico com breves reflexões sobre o que o Sínodo dos Bispos estabeleceu ao final da última assembleia sinodal em outubro de 2024 (que – lembremos sempre! – já é magisterial, embora necessite de contextualização).

Seguindo o que Leão XIV também indica, esses zooms podem se referir não apenas ao documento final da assembleia sinodal (DF), mas também às passagens correspondentes presentes na Evangelii Gaudium (EG) e nos documentos do Concílio Vaticano II (que me limitarei a citar, na sincera esperança de que vocês corram para relê-los com atenção).

Uma vez que o ano litúrgico é marcado não só por tempos especiais ou comuns, mas também por dias específicos de memória ou semanas de oração, hoje gostaria de destacar o diálogo inter-religioso, tendo em conta o Dia Internacional para o Diálogo entre Católicos e Judeus (que se celebra amanhã, 17 de janeiro de 2026).

Os Padres e as Madres Sinodais afirmaram veementemente a importância da "difusão" do diálogo inter-religioso em toda a Igreja (DF 151) [1]. De fato, sublinharam o "“gosto espiritual” (EG 268)" deste diálogo inter-religioso (DF 17). Porque, graças a ele, por um lado, podemos reconhecer nos crentes de outras religiões, com quem agora convivemos em todo o mundo, "as sementes da Palavra" (DF 17; 56; cf. também Nostra aetate 2; Gaudium et spes 92); por outro lado, num mundo cada vez mais multicultural, os crentes (nativos) de todas as religiões "são postos em causa pelo (...) impacto provocado pelo encontro com a diversidade de origens geográficas, culturais e linguísticas" (DF 112).

Em outras palavras – o que tenho repetido há algum tempo [2] – não apenas um dom ou ensinamento dirigido a outros pela ecclesia docens (GS 41-43), mas também um dom recebido, ecclesia discens, a Igreja que aprende com os outros (GS 44): no que o Concílio Vaticano II definiu como "serviço mútuo" (GS 11).

Não é, portanto, coincidência que, com o espírito e a força provocativa de textos como GS 19-21 (sobre a responsabilidade cristã pelo ateísmo) ou EG 41 (sobre a traição linguístico-ortodoxa da substância do depositum fidei), os padres e as mães sinodais afirmaram que "a pluralidade de religiões [é] um convite a cada um para reconhecer e assumir a sua própria parcialidade, renunciando à pretensão de se colocar no centro e abrindo-se à aceitação de outras perspectivas. Cada um é portador de um contributo específico e indispensável para completar a obra comum" (DF 42) [3].

De fato, a realização de tal diálogo pressupõe a necessidade de "abrir-se às relações com outras tradições religiosas", valorizando "o encontro e a troca de dons", a começar pelos que tocam no plano ético (paz e justiça sobretudo), mas resistindo pacificamente às "perseguições" que delas possam advir (DF 41), precisamente para não minar "a credibilidade das próprias religiões" (DF 56; cf. também o extraordinário e sempre oportuno parágrafo 28 da GS sobre o respeito e o amor pelos adversários).

Mais especificamente, seguindo as indicações do Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Convivência, do Papa Francisco e do Grande Imã de Al-Azhar, Ahmed Al-Tayyeb (4 de fevereiro de 2019), trata-se de um diálogo composto de "conhecimento mútuo" e "colaboração comum" entre as religiões, "partilhando (…) e acolhendo (…) os seus respectivos dons (…) num espírito de troca e assistência mútuas (cf. GS 40)" (DF 123; cf. também EG 250-251) [4].

Toda essa ascensão, porém, não se limita aos céus da teologia ou da espiritualidade, mas também toca as próprias estruturas que deveriam concretizá-la. Por isso, os Padres e as Madres Sinodais previram que, nos órgãos participativos, seguindo “critérios (...) próprios a cada contexto territorial”, será “apropriado prever a participação (...) de representantes de outras religiões presentes no território” (DF 106); enquanto que, “na realização de assembleias eclesiais em todos os níveis com certa regularidade”, será necessário estar “atento às outras religiões presentes no território” (DF 107), especialmente no que diz respeito ao exercício daquele “discernimento que permitirá aos Bispos, colegialmente, tomar decisões (...) relativas à missão da Igreja” (DF 127). Sem esquecer que, nas “instituições educativas” católicas (escola, formação profissional, universidade, compromisso social e político, desporto, música, arte), uma ação educativa inspirada no diálogo inter-religioso, talvez sob a forma de um “laboratório de relações amistosas e participativas”, será “apreciada também por pessoas de outras tradições religiosas como uma forma de promoção humana” (DF 146).

Em conclusão, resta apenas perguntar a nós mesmos e aos outros o seguinte: no âmbito da Conferência Episcopal Italiana, da diocese ou das paróquias individuais, tanto do ponto de vista da visão teológica quanto das estruturas que a sustentam, como nos saímos em relação a essas indicações sinodais, papais e conciliares tão autorizadas?

Sinceramente, o quanto as igrejas italianas refletem e praticam o diálogo inter-religioso, começando pelo diálogo com nossos irmãos e irmãs judeus? O quanto elas se concentram em mensagens e eventos, às vezes impactantes, mas outras vezes decididamente irrelevantes? Exploraremos tudo isso em uma das próximas edições...

Notas

[1] O parágrafo 29 do Documento Sumário do Caminho Sinodal das Igrejas na Itália segue a mesma linha : "No contexto atual, a Igreja italiana é chamada a dialogar com outras religiões presentes no território. “Um estilo renovado de Igreja exige uma forte prática de diálogo para uma convivência positiva com outras realidades religiosas […], para uma verdadeira compreensão para além de estereótipos e preconceitos, para cultivar juntos as sementes da paz e cuidar da casa comum” (LAS 11). Portanto, a Assembleia Sinodal apresenta as seguintes propostas: a) que as Igrejas locais estabeleçam mesas de encontro entre representantes (ou membros) das religiões presentes no território ou que participem em organismos já ativos; b) que as Igrejas locais pratiquem o diálogo inter-religioso, especialmente em áreas de compromisso comum com a proteção da criação, com a construção de uma economia mais justa, com a luta contra a opressão e a exclusão" (onde o parágrafo 28, alínea e), já havia solicitado às próprias Igrejas que partilhassem "com as comunidades pertencentes (…) às diferentes religiões as ações destinadas" a estes fins).

[2] Cf. Sergio Ventura, Imparare dal vento. Sulle tracce della sinodità di papa Francesco , EDB, 2024 (pp. 10, 15, 53, 88, 113, 115, 146, 152-153, 170, 175).

[3] É interessante notar que o capítulo citado é retirado verbatim do parágrafo 22 do Documento Sumário do Caminho Sinodal das Igrejas na Itália.

[4] Os parágrafos citados da EG devem ser lidos em conjunto, pelo menos, com os parágrafos 26 e 40 (mas também 45, 116, 118), a fim de evitar que a referência neles contida à verdade – sempre a ser purificada e aprofundada – e à identidade – sempre convertida e a ser convertida – esvazie o profundo significado do chamado magisterial ao diálogo inter-religioso.

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