14 Janeiro 2026
Leão XIV fortalece o Colégio Cardinalício — foi o que mostrou o mais recente consistório extraordinário. Mas quão representativo é esse órgão para a Igreja mundial? O padre Stefan Kiechle questiona a verdadeira consulta, a amplitude sinodal e uma forma de governo adequada ao nosso tempo.
O artigo é de Stefan Kiechle, SJ, editor-chefe da revista Stimmen der Zeit desde 2018. Anteriormente, Kiechle liderou a província alemã da ordem jesuíta durante sete anos, publicado por katolisch.de, 13-01-2025.
Eis o artigo.
Todos os 245 cardeais foram convidados, na semana passada, para o consistório extraordinário; cerca de 170 compareceram. O Papa Leão XIV quer voltar a utilizar mais esse órgão consultivo; ele também deve promover a unidade da Igreja — intenção que só pode ser elogiada. Após a assembleia, alguns cardeais relataram ter vivenciado grande fraternidade e concordância. Quanto ao conteúdo, quase nada foi divulgado; as deliberações ocorreram a portas fechadas.
Que tipo de órgão é esse? 245 homens idosos, celibatários, quase todos brancos; metade acima de 80 anos, a outra metade (relativamente pequena) abaixo de 80; apenas um abaixo de 50 — com 49 anos. Muitos tão frágeis que não conseguem participar. Todos nomeados por papas — permanece-se dentro da bolha. Presumivelmente, todos ou quase todos são homens muito honrados, maduros espiritual e humanamente, inteligentes e cultos, dedicados ao seu serviço e sábios.
Mas: como esses homens podem aconselhar o papa de modo significativo em apenas um dia e meio? Sobre temas fundamentais, em contextos de culturas eclesiais tão diferentes no mundo inteiro? Reunidos em grupos ao redor de mesas redondas e em plenário — o estilo provavelmente aquilo que entre nós se chamaria de “rodada de escuta”, certamente rica em experiências e espiritualmente enriquecedora. É de se esperar que o papa obtenha desses encontros o que busca: ampliação do horizonte, comunhão, fortalecimento.
Ainda assim, fica a pergunta: não seria mais adequado um órgão que representasse melhor a diversidade do povo de Deus? Com todos os gêneros, estados de vida e profissões, faixas etárias e culturas? Em processos sinodais, esses órgãos existem, ao menos de forma incipiente. As consultas não seriam então menos clericais e marcadas pela idade, e mais vivas, próximas da realidade, fraternas? Todos nós, como fiéis cristãos, somos um em Cristo…
De modo ainda mais fundamental: como se exerce a liderança da Igreja mundial? É mesmo necessária tanta condução em nível global? O Espírito sopra em toda parte, nas Igrejas locais, nas comunidades e grupos cristãos — o Papa Francisco quis descentralizar, mas mal conseguiu. A unidade da Igreja não consiste numa única forma ou cultura — ainda que o vermelho ondulante dos cardeais idosos impressione —, mas na única fé de muitas pessoas, com muitas formas de vida, espiritualidades e culturas.
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